DIÁRIO DE UM CRONISTA

O Tribunal do Ódio

Paulo Briguet · 6 de Junho de 2020 às 11:58

Você é conservador? Lê Olavo de Carvalho? Apoia Bolsonaro? Prepare-se: em breve, você será uma não-pessoa

Estes cães raivosos do capitalismo
tentaram rasgar de membro a membro
o melhor de nossa terra soviética.
Exijo que sejam fuzilados — todos eles!”

(Andrei Vichinski, nos Processos de Moscou)


Em breve, o único crime no Brasil será o olavismo. Todos os outros crimes — os verdadeiros: o assassinato, o roubo, a extorsão, o estupro, a calúnia, a falsidade ideológica — serão considerados inexistentes. Só será crime aquilo que conduzir a alguma associação, por remota que seja, com os nomes de Olavo de Carvalho e Jair Bolsonaro. Teremos algo semelhante ao que aconteceu na União Soviética durante o Grande Expurgo de 1936-38. Toda e qualquer ligação com o professor e o presidente significará a morte social do indivíduo acusado. Se essa morte social será também física, não o podemos prever. Mas tudo indica que estamos diante de um gigantesco expurgo promovido pelos anões morais que dominam o sistema político-midiático no Brasil.

O Tribunal do Ódio, instalado em Brasília, cidade demoníaca planejada por Oscar Niemeyer, dispõe hoje de um alentado dossiê sobre 29 inimigos políticos do sistema. São milhares e milhares de informações que, devidamente garimpadas e extraídas do contexto, comporão uma peça de teatro do absurdo para atribuir ao atual governo, eleito por 58 milhões de pessoas, a responsabilidade por todos os males reais ou imaginários do país. A mera declaração de voto em Bolsonaro ou uma simples curtida numa publicação de Olavo serão motivos suficientes para transformar um cidadão em uma não-pessoa. Mesmo que o indivíduo que tenha depois renegado ou traído o presidente — estou falando de vocês, isentões. Vejam o destino da Peppa: será o de vocês também, seus imbecis. Você aí, do pinto postiço: acha que eles vão te perdoar?

O dossiê sobre os 29 do Inquérito Cabeça de Ovo vai se replicar em vasos comunicantes para toda a população brasileira, exatamente como aconteceu com os cidadãos soviéticos nos anos 30. Isso porque o olavismo é fundamentalmente um crime de pensamento e um crime de associação — ou seja, um falso crime. Se você alguma vez pensou como Olavo ou Bolsonaro; se você, mesmo de um modo tênue e indireto, associou-se ao atual governo, e essa informação cair em domínio público, seu destino está selado. Você é um “fascista”, quer dizer, uma não-pessoa. Um cão raivoso, cujo único direito é receber uma bala na cabeça.

Os processos do Grande Expurgo soviético foram construídos exatamente com o mesmo método utilizado no Inquérito Cabeça de Ovo: um amálgama composto por minúsculos elementos de verdade, pequenas ligas de meia-verdade e uma compacta e venenosa massa de mentiras. Nos Processos de Moscou, assim como no Inquérito Cabeça de Ovo, os réus não têm direito a defesa; tudo que podem fazer é admitir todos os crimes imaginários para que, talvez, as vidas de seus familiares sejam poupadas. Em Moscou ou em Brasília, o acusador é ao mesmo tempo investigador, juiz e vítima. Em Moscou, o juiz-acusador era Vichinski, um menchevique (o tucano soviético). Em Brasília, o juiz-acusador é Cabeça de Ovo, um tucano (o menchevique brasileiro). Ambos, servidores submissos de um sistema tirânico. Vale lembrar que nos Processos de Moscou a motivação também era eliminar os “fascistas”.

A única chance do Brasil está em Nossa Senhora. Só ela poderá evitar que venhamos a sofrer com “os erros da Rússia”. Só ela poderá suplicar a Deus que nos poupe de sermos governados pelo Tribunal do Ódio.

— Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.


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