DIÁRIO DE UM CRONISTA

O candidato das elites e o candidato do povo

Paulo Briguet · 19 de Agosto de 2022 às 15:47

Quer saber qual é uma das grandes diferenças entre Lula e Bolsonaro? Compare os ambientes em que eles são bem recebidos
 

 



Sou do tempo em que Lula era considerado um homem do povo. Nos anos 80, ele se apresentava como “um brasileiro igual a você” (se não me engano, foi esse o slogan de sua primeira campanha, ao governo de São Paulo, há 40 anos). Em 1989, fui ao comício de Lula em Londrina, no primeiro turno das eleições presidenciais. No ano seguinte – o ano em que ele fundaria o Foro de S. Paulo – vi Lula falando na Praça da Sé. Invariavelmente, nessas ocasiões, ele era aclamado e andava no meio do povo. Mesmo entre os que não gostavam de Lula, a ninguém ocorreria xingá-lo de ladrão ou corrupto. Naquela época, nem os direitistas mais empedernidos poderiam imaginar que um dia ele viesse a ser condenado e preso por corrupção e lavagem de dinheiro. Até os inimigos acreditavam na honestidade de Lula; temia-se a sua ignorância ou, mais raramente, o seu autoritarismo. Quanta inocência!

Esse Lula de hoje – o descondenado, o ex-presidiário, o companheiro de Alckmin – não é a sombra daquele cara. Não que o Lula antigo fosse boa coisa; pelo contrário, seu plano era fazer exatamente o que os governos do PT fizeram: saquear o país. Mas hoje, como todos sabem, Lula só pode circular em ambientes controlados – do contrário será sempre recebido com vaias e palavrões. Lula não passa mais no teste do estádio de futebol, da festa de peão, da caminhada pelo centro da cidade. Dos aeroportos – como aconteceu aqui em minha cidade, Londrina –, ele é obrigado a sair pela porta dos fundos.

Mas, se Lula hoje não pode mais sair em praça aberta, ele passou a ser recebido com honras nos ambientes selecionados. Veja-se, por exemplo, o dia da posse do Xandão no TSE. A certa altura da solenidade, como bem disse uma comentarista da Globo, o presidente Bolsonaro foi deixado “a um canto”, juntamente com os membros do seu governo. Enquanto isso, Lula era bajulado e cumprimentado pelos membros da elite – políticos, juízes, ricaços, jornalistas profissionais – para fazer selfies, entre sorrisos, salamaleques, abraços e tapinhas nas costas. A moça da Globo afirmou, com entusiasmo: “Sabe qual é o nome disso? Expectativa de poder”.
 

Essa separação entre elite e povo não ocorre somente em Brasília. No Festival de Gramado, os artistas de cinema, enquanto caminhavam sobre um tapete vermelho, no arremedo de uma cerimônia do Oscar, fizeram o símbolo da campanha lulista com o dedo, enquanto as pessoas comuns, também conhecidas como público, os recebiam com vaias e gritavam “Mito!”. As expressões dos artistas sendo vaiados pelo povo poderiam ser objeto de uma análise semiótica.

Hoje, Lula é o candidato dos poderosos, dos chefões, dos banqueiros, dos ricaços, dos engravatados, dos artistas, das celebridades. Em suma, é o candidato das elites que um dia ele fingiu odiar. Bolsonaro, quem diria, é o candidato dos trabalhadores, dos pais e mães de família, dos cristãos, dos patriotas, dos que acordam cedo, dos anônimos, das pessoas iguais a você. No meio da elite, Lula é recebido com reverência. No meio do povo, Bolsonaro é recebido com carinho.

O problema é que as elites controlam o sistema eleitoral, as instituições, os partidos, as pesquisas e a grande mídia. Enquanto o povo só tem a si mesmo – e ao Presidente da República.

Anotem aí: se o plano das elites der certo, a primeira coisa que vão fazer é prender o homem do povo. Porque ninguém foi tão capaz de mostrar o quanto elas são falsas.

Paulo Briguet é escritor e editor-chefe do BSM.

 


"Por apenas R$ 29/mês você acessa o conteúdo exclusivo do Brasil Sem Medo e financia o jornalismo sério, independente e alinhado com os seus valores. Torne-se membro assinante agora mesmo!"