DIÁRIO DE UM CRONISTA

Minhas aventuras de férias (1)

Paulo Briguet · 13 de Janeiro de 2022 às 07:39

O anjo prestativo de Curitiba e os argentinos que erraram de apartamento

Antigamente, na volta às aulas, as professoras costumavam pedir às crianças que escrevessem uma redação sobre o tema “Minhas férias”. Não sei se esse costume ainda existe, ou se foi condenado pelos pedagogos socioconstrutivistas, mas o fato é que me vi compelido a escrever sobre meus dez dias de férias passados em Santa Catarina, na companhia de meus estimados camaradas do Brasil Sem Medo, Silvio Grimaldo e Bernardo Küster, e nossas respectivas famílias.

Lembro-me que aos dez anos escrevi uma redação sobre minhas férias escolares. Foi o texto mais longo que fizera até então, com umas quinze páginas de caderno brochura em letra de mão. Tratava-se de uma história ficcional sobre aventuras de um grupo de crianças numa cidade cheia de perigos. Dona Berta, minha saudosa professora de quarta série primária, deu-me uma nota 7 e sentenciou que eu havia fugido do tema. Mas esse erro não se repetirá; não fugirei ao tema e não me refugiarei na ficção (embora, em certo momento, tenha tido vontade de fugir das férias).

No domingo, quando passávamos por Curitiba, rumo às terras catarinenses, decidimos almoçar em Santa Felicidade. Vínhamos no carro eu, a Rosângela e o Pedro. Como meus sete leitores bem sabem, eu não sei dirigir; a Rô é que pilota o carro da família. Minha função é a de navegador. Lamentavelmente, eu tentava fazer duas coisas ao mesmo tempo: ler o mapa do Waze e ler um conto de João do Rio. Quando o aplicativo nos mandou virar à direita, eu estava lendo um parágrafo particularmente chocante do escritor carioca. Demorei a avisar minha motorista e metemos o carro em um barranco, danificando a parte emborrachada do para-choques.

Procurar uma oficina aberta na periferia de Curitiba em um domingo logo após o Réveillon não é uma tarefa das mais simples; a única oficina indicada pelo aplicativo estava fechada. A cinquenta metros da oficina, havia um posto de gasolina, no qual decidimos parar para esfriar a cabeça e avaliar os danos. A parte emborrachada do para-choques se desprendera e arrastava pelo chão; impossível seguir viagem daquela maneira.

Eis que aparece no posto um rapaz de barba e cabelos ruivos. Ele não trabalhava no posto; era apenas um vizinho de passagem por ali. O rapaz se prontificou a avaliar os danos. Tirou do bolso um daqueles canivetes suíços de múltiplas utilidades e, com muita habilidade, desparafusou a peça emborrachada nos vários pontos que ainda prendiam ao carro, removendo-a inteiramente. Nem é preciso dizer que eu jamais conseguiria fazer isso.

— Puxa, amigo. Muito obrigado! Qual é o seu nome?

— Sandro.

— Você salvou nossa viagem! Como podemos fazer para te agradecer?

— Não precisa nada, não.

— Mas eu faço questão.

— Ah, então pague uma Coca litro pra eu tomar com meus amigos.

E assim pudemos continuar viagem, em Santa Felicidade. O nome Sandro significa “defensor da humanidade”. Pelo menos no que tange aos três membros da família Briguet, Sandro fez jus ao próprio nome naquela tarde curitibana. Ele era um anjo prestativo que Deus colocou em nosso caminho.

 

*******

 

Cansadíssimos, chegamos horas depois a um hotel em Joinville, onde pernoitaríamos. Depois do incidente com o conto de João de Rio, o que poderia me perturbar? Mal pus a cabeça no travesseiro, caí em sono cerrado.

De repente, estou dentro de um filme americano, desses policiais que se passam em hotéis de Las Vegas. Quatro invasores ludibriam a segurança do hotel e tentam forçar a entrada em um dos quartos. Estão armados até os dentes. Já vi esse filme.

Acordo assustado com o som das fechaduras sendo forçadas. Mas peraí: eu já estou acordado e o ruído continua! Estão tentando invadir nosso quarto!

Levanto-me, salto da cama e corro até a porta. Pelo olho mágico, vejo que não são bandidos de filme americano, mas uma família: o homem com a camisa do Flamengo, a mulher com cara de cansada e um casal de crianças. Levam bagagens.

Digo, por trás da porta:

— O apartamento está ocupado!

— ¿Qué?

— ¡Habitácion ocupada!

Perdon, tenemos el número equivocado.

Fui dormir pensando no motivo que leva um turista argentino a vestir uma camisa do Flamengo.

Mas não era tudo.

Menos de dez minutos depois, quando já estava quase pegando no sono, ouço baterem à porta.

— Não é possível que sejam os argentinos de novo.

Não eram. Dessa vez, quem apareceu no olho mágico foi o camareiro do hotel.

— Não foi aqui que pediram um controle de ar condicionado?

— Não. Apartamento errado.

Olhei no relógio: três da manhã. Rô e Pedro dormiam feito anjos. Mas ela acordou com as minhas risadas.

— Paulo, por que você tá rindo sozinho? Sonhou com alguma coisa?

— Se eu contar você não acredita.

Era o começo de 2022; o começo das minhas aventuras.

(Continua.)

Paulo Briguet é escritor e editor-chefe do BSM.

 


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