DIÁRIO DE UM CRONISTA

Elegia para Joana de Jesus

Paulo Briguet · 29 de Junho de 2022 às 17:28

O ser humano é o único animal capaz de se tornar um santo ou um demônio. Capaz de dar a vida pelo irmão e capaz de matar um bebê com duas injeções


Em 16 de outubro de 1946, o ex-ministro de Relações Exteriores do Terceiro Reich, Joachim von Ribbentrop, estava entre os 12 líderes nazistas condenados à morte no Julgamento de Nuremberg. Ribbentrop foi condenado por diversos crimes contra a humanidade, entre eles a participação no extermínio de milhões de judeus nos campos da morte, o linchamento de pilotos aliados e atrocidades contra populações civis da França e da Dinamarca. Sete anos antes, Ribbentrop havia assinado o infame Pacto de Não-Agressão Nazi-Soviético, que passou à história como Pacto Ribbentrop-Molotov. Durante a vigência do acordo, a Rússia comunista e a Alemanha nazista dividiram ao meio a Polônia e estabeleceram uma sólida cooperação tecnológica e militar. Assim, Stálin armou Hitler e desencadeou o mais terrível conflito bélico da história. Por esses motivos, considero Ribbentrop uma das mais infames personagens do século XX.

Segundo o historiador britânico Giles MacDonogh, o carrasco trabalhou mal durante a execução do líder nazista em Nuremberg. Enquanto os outros condenados (com exceção de Goering, que se suicidara em sua cela) tiveram morte imediata, Ribbentrop agonizou por 20 minutos antes de morrer. Especula-se que o cadafalso teria uma altura inadequada para o corpo de Ribbentrop, levando-o à morte lenta por sufocamento, ao passo que os outros condenados tiveram o pescoço quebrado.

Cinco anos antes do Julgamento de Nuremberg, quando Ribbentrop estava no poder, um padre polonês chamado Maximiliano Kolbe foi deportado para o campo de extermínio de Auschwitz. Em julho, durante a contagem diária dos internos, os guardas da SS perceberam que três prisioneiros haviam fugido. O oficial nazista Karl Fritzsch, chefe do campo, decidiu então aplicar a pena do dizimatio: dez prisioneiros pagariam com a vida pela fuga dos companheiros. Escolhidos aleatoriamente os dez infelizes, o Padre Kolbe notou que um deles chorava desesperadamente:

“Minha pobre mulher! Meus filhos! Jamais tornarei a vê-los!”

Ao ver o sofrimento do homem, o Padre Kolbe dirigiu-se aos oficiais nazistas e, em alemão perfeito, pediu para morrer no lugar dele.

Durante 14 dias, Padre Kolbe e seus nove companheiros de infortúnio foram trancafiados numa cela subterrânea, sem comida e sem água. O sacerdote rezava e cantava o tempo todo; dessa forma, tentava aliviar o sofrimento dos outros condenados. Ao final das duas semanas, quando os guardas abriram o calabouço, só o Padre Kolbe estava vivo. Os nazistas decidiram então executá-lo com uma injeção letal. Dizem as testemunhas que Kolbe estendeu o braço para que uma enfermeira do campo pudesse aplicar a injeção – e ainda a isentou de qualquer responsabilidade pela sua morte.

Chesterton dizia que o homem é o único animal capaz de ser um santo ou um demônio. Um Joachim von Ribbentrop ou um Maximiliano Kolbe. Um G. K. Chesterton ou um Karl Fritzsch. Uma Joana Zimmer ou o indivíduo que aplicou duas injeções de cloreto de potássio no bebê com 29 semanas de gestação, fazendo com que uma criatura inocente morresse em meio ao sofrimento e à tortura, privando-a da vida, da luz e do amor.

Por isso eu peço:

– São Maximiliano Kolbe, rogai pela alma da pequena Joana de Jesus – e por todos nós, pecadores.

Paulo Briguet é escritor e editor-chefe do BSM.

 


"Por apenas R$ 29/mês você acessa o conteúdo exclusivo do Brasil Sem Medo e financia o jornalismo sério, independente e alinhado com os seus valores. Torne-se membro assinante agora mesmo!"