DIÁRIO DE UM CRONISTA

Dez domingos sem minha mãe

Paulo Briguet · 9 de Maio de 2021 às 09:13

Uma crônica para todos que sentem saudade



Este será o meu décimo Dia das Mães sem você, Aracy.

Todas as pessoas que perdem a mãe passam a fazer parte de uma estranha associação espiritual chamada A Irmandade dos Órfãos. Há dez anos, eu e a Fernanda não podemos mais chamá-la quando acordamos com medo à noite, e também não podemos mais cuidar de quem tanto cuidou de nós. Só podemos orar e sentir saudade, e às vezes chorar um pouco, ainda que disfarçadamente. Viver sem mãe é triste, mas é estranhamente possível.

Mas quem disse que eu vivo sem minha mãe? Você está aqui, presente de uma forma até mais intensa do que antes, ali no lugar em que a minha vista não alcança, e que é o meu próprio ser. Se algumas vezes me firo, o sangue que sai é sangue de minha mãe. Se transpiro no calor, o suor veio dela. Como também pertencem a ela algum tom de minha voz (ainda que em versão grave e masculina), alguma expressão idiomática, algum trejeito, algum modo de sorrir, alguma aflição passageira, alguma dor nas têmporas, algum pequeno temor, alguma inesperada coragem, alguma clarividência nas primeiras horas do dia.

Desde que você partiu, mãe, eu aprendi a tomar café sem açúcar, não por razões de saúde, mas porque você gostava de tomá-lo assim, para sentir o gosto natural da bebida. Você está aqui — no pão com manteiga à tardezinha, no perfume do banho matinal, na alegria dos lençóis limpos, no abraço do meu filho (seu amado neto), no tom de voz da Rosângela quando conversamos à noite. De muitos modos eu aprendi não apenas a lembrar você, mas a ser você.

Eu sou você, mãe, como se a minha existência individual fosse insuficiente para abarcar tanto amor e gratidão. Meus olhos são uma mistura dos seus olhos e dos olhos do pai, pois a natureza física encontra uma forma de um homem ser semelhante a duas pessoas ao mesmo tempo. As pessoas não vivem dizendo que os casais juntos há muito tempo acabam por parecer irmãos? Então, eu sou você e sou o pai, como um espelho que refletisse duas pessoas numa só imagem. Um milagre óptico que reproduz o milagre da vida. Sou igual ao pássaro que volta para as árvores durante um eclipse, por achar que o dia acabou. Vocês são a Lua e o Sol do meu eclipse eterno.

Eu sou você assim como você era o seu pai, meu querido Vô Briguet, naquela noite em que se viu refletida no espelho após uma sessão de quimioterapia. “Como estou parecida com meu pai!”, você disse. E agora, mãe, ao contemplar o espelho nesta manhã de domingo, no décimo Dia das Mães sem você, eu tenho o mesmo destino de quem pertence à Irmandade dos Órfãos, e não consigo discernir onde começa e termina o sonho. Eu sou a sua extensão no tempo, mãe, eu sou a sua duração no espaço, eu sou um pensamento que Deus pensou antes com você, mas que ainda persiste, porque tudo que dEle se origina não termina nunca, e eu estou nascendo agora, neste ponto.

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.  


É justamente por isso que você precisa assinar o Brasil Sem Medo. Por menos de 1 real por dia, você tem acesso exclusivo às nossas matérias, análises, entrevistas, crônicas, podcasts e ebooks. Você pode optar pela assinatura anual, por 290/ano (média de R$24/mês) ou pela assinatura trimestral, por 87/trimestre (média de R$29/mês) e acessar agora mesmo a todo o conteúdo premium do Brasil Sem Medo.