CRÔNICA

Corações ao alto: o sentido do casamento

Paulo Briguet · 14 de Novembro de 2022 às 11:44

A Cidade dos Homens pode estar em chamas, mas na Cidade de Deus estaremos sempre a salvo


 

Na obra Em Busca de Sentido, o médico e psicólogo austríaco Viktor Frankl relata a sua experiência como prisioneiro dos campos de concentração nacional-socialistas. Em lugares como Auschwitz e Dachau, a chance de sobrevivência era inferior a 5%. Observando o comportamento dos prisioneiros, Frankl percebeu que o pequeno grupo de sobreviventes compartilhava uma característica essencial: todos eles possuíam um sentido na vida. Por um trabalho a concluir, uma família a proteger, um projeto a realizar ou um amor a reencontrar, as pessoas eram capazes de suportar os piores sofrimentos e adversidades. Para reforçar seu argumento, Frankl cita uma frase antológica de Nietzsche: “Quem tem um porquê suporta qualquer como”.

Vivemos tempos muito difíceis – e meus amigos Bernardo Pires Küster e Glória Ferreira bem sabem disso. Algum cético poderia perguntar: “Por que vocês decidiram formar uma família justamente agora?” A resposta vem a ser muito simples. Na medida em que o mundo se torna caótico e imprevisível, é urgente que as pessoas ordenem a própria alma. E o sacramento do matrimônio significa exatamente isso: a ordenação de duas almas perante Deus. A Cidade dos Homens pode estar em chamas, mas na Cidade de Deus estaremos sempre a salvo.

O nome Bernardo significa Urso Forte, como bem observou o Padre José Eduardo na cerimônia de casamento do meu amigo. Nomes não existem por acaso: Bernardo é um homem abençoado com o dom da fortaleza. Desde que o conheci, há mais de dez anos, sua trajetória foi marcada por acontecimentos que exigiram “mais do que prometia a força humana”: a conversão ao cristianismo, a perda de Dorotéia, a fervorosa conversão à Igreja Católica, a convicta defesa da vida, o combate aos inimigos da fé, os duros enfrentamentos com os donos do poder, as perseguições, as censuras, as injustiças... Bernardo é o modelo do brasileiro sem medo. O que me faz pensar em outro Bernardo, o de Claraval, aquele que no século XII levantou a voz no meio de uma celebração para acrescentar um verso à oração de Salve-Rainha:

─ O clemens, O pia, O dulcis Virgo Maria!

A exemplo de seu xará de Claraval, o nosso Bernardo ama a Virgem Maria. Foram tantas as orações (de Bernardo e de outra pessoa que não vou contar quem é) que o Urso acabou por encontrar a Glória, uma devota de Nossa Senhora. Quando Bernardo olha para Glória, vê uma síntese de Bondade, Verdade e Beleza – a mesma síntese que o camponês Renzo via em sua amada Lúcia na obra-prima I Promessi Sposi. Deve ser por isso que eu tive uma nítida impressão durante a missa de casamento celebrada na última sexta-feira: não era simplesmente uma cerimônia, mas uma obra de arte, em que a liturgia, a música e devoção se uniram numa profunda harmonia entre forma e conteúdo.

Desde pequeno, eu sempre me encantei com a fala do sacerdote na missa:

─ Corações ao alto!

No casamento, entendemos plenamente o sentido dessas palavras. Bernardo e Glória, o vosso coração está em Deus.
 

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P.S.: Depois da comunhão, quando cantavam a belíssima Anima Christi, senti uma presença inesperada. Os versos atribuídos a Santo Inácio de Loyola dizem:

Ne permittas a te me separari
Ab hoste maligno defende me
In hora mortis meæ voca me

(Não permitais que eu me separe de vós
Do inimigo maligno, defendei-me
Na hora da minha morte, chamai-me)

Então eu me lembrei de uma frase do Olavo: “Tudo que eu quero é que Jesus Cristo perdoe os meus pecados e me leve para junto dEle!” De olhos fechados, eu imaginei o professor ali, sorrindo para os noivos.


Paulo Briguet é escritor, editor-chefe do BSM e padrinho dos recém-casados.

 


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