DIÁRIO DO CRONISTA

A aurora dos noivos

Paulo Briguet · 6 de Agosto de 2022 às 08:22

O matrimônio de Cláudia e Edson Piovezan perante o altar de Deus
 




Eu tenho um amigo que coleciona auroras. O nome dele é Pedro, curiosamente o mesmo nome do meu filho. Todos os dias, de manhã e à tarde, o Pedro me manda fotos dos nascentes e poentes de Londrina. Meu amigo é um excelente fotógrafo; para ajudar, ele mora numa chácara, de onde ele tem uma posição privilegiada para contemplar o horizonte. Ele sabe que hoje o Sol nasceu às 6h56 e logo mais vai se pôr às 18h05. Certamente o Pedrinho vai me enviar as fotos da aurora, se já não enviou.

O nascer e o pôr do sol são fenômenos que definem a própria condição humana. Dizem que o homem é o único animal capaz de fixar os olhos no horizonte; o único ser da natureza capaz de contemplação. A madrugadora aurora de dedos róseos está presente nas obras que fundaram a literatura ocidental, a Ilíada e a Odisseia – e ainda há quem diga que Homero era cego...

Mas, enfim, por que eu estou falando de auroras?

Por um motivo muito especial. A aurora representa a passagem de um estado para o outro, da noite para o dia, da escuridão para a luz, da água para o vinho. Nossa vida é marcada por essas auroras que são os rituais de passagem: nascimentos, batismos, aniversários, formaturas, despedidas. E hoje nós estamos para comemorar essa aurora que é o casamento de nossos queridos amigos Cláudia e Edson Piovezan.

Caríssimos Edson e Cláudia: segundo as minhas fontes, vocês estão juntos desde 2001. Portanto, são 21 anos. Antigamente, e acho que até hoje, 21 anos são a marca da maturidade plena. Eu tenho um amigo que precisou pedir autorização aos pais para casar, porque ainda não tinha 21 anos. Mas existe algo que supera a autorização dos pais: é a bênção de Deus. E foi justamente essa bênção, o consentimento da maior autoridade, que vocês receberam hoje.

Em 21 anos, meus amigos, muita coisa pode acontecer. Alguém pode nascer, crescer, trabalhar e se tornar adulto. Alguém pode descobrir o sentido da existência. Alguém pode fazer amigos, conhecer lugares, travar batalhas, escrever livros, fundar uma editora, defender causas, cultivar ideais, aprender lições, fazer um curso de filosofia. Em 21 anos, você pode tomar uma decisão que vai definir quem você é. E essa decisão se chama amor.

É como ensinava o nosso querido mestre, Olavo de Carvalho:

“O amor não é um sentimento: é uma decisão, um ato de vontade e um comprometimento existencial profundo. Os sentimentos variam, mas o amor permanece. Quem não compreendeu isso não chegou nem perto da maturidade”.

O matrimônio perante Deus e a Igreja, meus queridos amigos, é um fruto maduro dessa decisão. Hoje, vocês estão recebendo, na casa de seus corações, o Cristo, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo Divino, isto é, a inteligência de Deus, Aquele por meio do qual tudo foi criado. Estou certo de que vocês compreendem a grandiosidade desse ato. Nele se realiza aquilo que o professor Olavo também não se cansava de repetir: o amor é o desejo de imortalidade da pessoa amada. Não foi por acaso que Jesus realizou o primeiro milagre de sua vida pública durante uma festa de casamento. As bodas de Caná são uma aurora, assim como as bodas de hoje.

Também não foi por acaso, Edson e Cláudia, que a decisão do matrimônio começou a ganhar força no coração de vocês há um ano, quando vocês juntos enfrentaram uma situação difícil, extrema e dolorosa. De maneira heroica, durante aqueles 25 dias de internação do Edson, vocês se mantiveram firmes no barco da vida durante a tempestade. Até que o próprio Cristo se levantou, como naquele dia no Mar da Galileia, repreendeu o vento e disse ao mar: “Silêncio! Cala-te!”. E a tormenta passou. Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem, meus amigos?

Eu estava lá em Brasília, no dia 7 de setembro, no meio de um mar de gente, mas angustiado com a situação do Edson e da Cláudia. Todos nós, uma legião de amigos, rezamos para que vocês vencessem aquela tempestade. Deus ouviu nossas preces. E Ele não apenas atendeu nossos pedidos. Como é do Seu feitio, nos concedeu algo ainda mais valioso: este momento. A aurora depois de uma tormentosa noite – o casamento de nossos amigos Cláudia e Edson perante o altar de Deus. Um casamento que me faz lembrar a história de Renzo e Lúcia, no genial romance de Alessandro Manzoni, I Promessi Sposi. Renzo e Lúcia também tiveram que enfrentar uma tempestade – e uma peste.

Cláudia, minha amiga, no início da semana, durante uma entrevista, nós lhe perguntamos: “Você não tem medo de falar essas verdades, de afrontar esses poderosos, de denunciar essas injustiças?” E você deu uma resposta antológica: “Eu só tenho medo de ir para o inferno”. Afinal, de que vale ganhar o mundo inteiro e perder a vida eterna? Vocês, Cláudia e Edson, não têm medo das tempestades, porque amam a aurora. Porque amam essa luz que vem depois da escuridão, esta calmaria que vem depois da tormenta, esse dia claro que vem depois da noite trevosa, esta confiança que vem depois da tirania. E é isso que nós estamos comemorando hoje, na esperança de que um dia também possamos festejar lá no Céu. Por enquanto, vamos vivendo estes momentos de graça, estes pequenos vislumbres do que é a glória de Deus, estas alegrias que encontramos no amor, na família, na amizade, no trabalho e na liberdade.

Hoje, a salvação entrou na sua casa, Edson e Cláudia. Se o amor é o desejo da imortalidade do outro, a Ressurreição é a garantia dessa imortalidade. E é com olhos na Ressurreição que eu me permito parafrasear o Cântico dos Cânticos, nos versos que Viktor Frankl lembrou quando sentiu saudades da esposa, no campo de concentração de Auschwitz:

Põe-me como um selo sobre o teu coração,
como um selo sobre os teus braços;
porque o amor é mais forte que a morte.

Paulo Briguet é escritor, editor-chefe do BSM e padrinho de Cláudia e Edson Piovezan.

 


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