ENTREVISTA AO BSM

“Sou tão conservador quanto Weintraub”

Paulo Briguet · 29 de Setembro de 2020 às 11:29

O ministro da Educação, Milton Ribeiro, conversa com o editor-chefe do Brasil Sem Medo, Paulo Briguet, sobre temas que não vão agradar nem um pouquinho a esquerda e os globalistas

 

Diego Costa/MEC

 

Paulo Freire completaria 99 anos agora em setembro. Por uma dessas estranhas ironias do tempo, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, me convidou para uma entrevista presencial no MEC justamente quando o Patrono da Educação Brasileira se tornou um quase-centenário. Ao chegar para a entrevista, tive o desprazer de contemplar o totem de Freire que a esquerda botou na entrada do Ministério. A imagem do velho pedagogo, praticamente um sósia de Marx, continua lá: é uma das obras mais horríveis que as artes plásticas já produziram em nossa época. Só não é mais feia que a situação da educação brasileira nos últimos 30 anos, herança maldita da era PT-PSDB que caiu no colo de Jair Messias Bolsonaro. Olhei para Freire, ele olhou para mim, e continuamos desafetos. O pedagogo marxista não deve ter apreciado nem um pouco o presente que eu levava para o atual ministro: uma coleção de livros de José Monir Nasser (1956-2013), um dos maiores educadores brasileiros de todos os tempos.

Sucessor de Abraham Weintraub à frente do MEC, Milton Ribeiro partilha com o ex-ministro a rejeição por Paulo Freire e, principalmente, pelos frutos malditos do construtivismo nas escolas brasileiras.  Cristão e conservador como Weintraub, Ribeiro tem outro estilo, o que lhe valeu críticas de setores da direita. Mas já começou a apanhar da esquerda e dos globalistas. Para quem tem reservas à postura low profile do novo ministro, deixo um aviso: é um pacificador, mas um pacificador que sabe lutar — e tem uma missão a cumprir.

Leia a seguir a entrevista que ele concedeu ao BSM: 


Paulo Briguet: O professor José Monir Nasser foi uma grande referência como educador no Brasil, principalmente nos círculos conservadores. E quanto ao sr., ministro? Quem foram seus mestres na educação?

Milton Ribeiro: Não tenho, em termos acadêmicos, uma referência intelectual na área da educação, porque não cursei Pedagogia. Mas estudei uma Teologia reformada com complementos. E quais são os complementos? Os grandes clássicos filosóficos e as duas línguas-mães das Escrituras e da filosofia: o hebraico e o grego antigo. Há alguns dias, fui convidado para a celebração do Ano Novo Judaico na Embaixada de Israel e, em determinado momento, eu os surpreendi e comecei a cantar um hino em hebraico, e todos eles cantaram comigo, dançaram, deram-se as mãos, foi um momento especial. Em termos filosóficos, li as obras de Platão e Aristóteles. Mas a minha experiência em educação foi na lida mesmo, quando fiquei 12 anos no board do Mackenzie, sendo dois anos e meio como vice-reitor. No meu doutorado, tive a orientação da professora Roseli Fischmann, que tem uma linha mais voltada à promoção de minorias, mas me acolheu porque eu sou protestante. Minha experiência na educação portanto, foi heterogênea, mas com bases sólidas na matriz judaico-cristã.

 

Paulo Briguet: Como a sua visão educacional se coaduna com a visão do presidente Jair Bolsonaro, vitoriosa nas eleições de 2018?

Milton Ribeiro: Nossas visões são muito próximas. Creio mesmo que a opção do presidente por meu nome se deu pelos valores e princípios que temos em comum. Por razões políticas, é que não foi — porque eu nem sequer tenho filiação partidária. Tive contato com o presidente por quatro ou cinco vezes, quando ele me convidou para integrar a Comissão de Ética da Presidência. Na época, certamente teve notícia dos meus posicionamentos. Sou liberal, no sentido clássico do termo, e defendo a economia de mercado. Mas, na defesa dos valores da família, sou bem alinhado ao conservadorismo. Quando o presidente me chamou para assumir o desafio do MEC, ele me diz claramente: “Cuide das crianças e do ensino profissionalizante”.

 

Paulo Briguet: O sr. acredita que as fragilidades na educação básica brasileira estão ligadas à herança de Paulo Freire?

Milton Ribeiro: Com a equipe do ministério — inclusive o professor Carlos Nadalim  —, temos feito um diagnóstico das fragilidades na nossa educação básica. Nossas crianças de 9 anos não sabem ler! Então não é possível glorificar o Paulo Freire. Dizem que o tempo dele não chegou... Mas vou lhe dizer uma coisa. Antes de vir para cá, eu tive a pachorra de fazer uma leitura atenta do celebrado “Pedagogia da Oprimido”. Eu desafio os defensores do Freire a me explicarem o que ele quis dizer com aquilo. Ele pega valores, categorias e metáforas do marxismo e tenta encaixar na pedagogia da relação professor-aluno.

 

Paulo Briguet: É como dizia o Millôr Fernandes, ministro: “O marxista é um alfaiate que, quando a roupa não fica bem, faz ajustes no cliente”.

Milton Ribeiro: É bem isso. Eu lia duas, três vezes cada página do Freire... e até agora não sei o que ele quis dizer. Veja, eu tive um treinamento filosófico: li “A República” de Platão, li as “Categorias”, de Aristóteles, o “Discurso do Método”, de Descartes... Como leitor experiente, só posso concluir que o método Paulo Freire é um mito de valores. É um negócio etéreo, que nos preocupa muito. Por isso quis manter na equipe o MEC o professor Carlos Nadalim. Como você sabe, ele defende a alfabetização baseada em evidências científicas. E eu sei que esse é o caminho, até por experiência própria. Tenho duas filhas — uma delas é juíza, e a outra é profissional de TI numa multinacional. Quando eram pequenas, estudavam numa escola “construtivista”. Mas queriam aprender a ler. Eu e minha sogra resolvemos ensiná-las usando a cartilha “Caminho Suave”. Em pouquíssimo tempo, elas aprenderam. Os resultados do Pisa estão aí para mostrar que toda essa filosofia que os defensores de Freire tentaram implantar não deu certo. 

 

Os resultados do Pisa estão aí para mostrar que toda essa filosofia que os defensores de Freire tentaram implantar não deu certo.

Diego Costa/MEC


Paulo Briguet: Como resgatar a qualidade da educação básica no Brasil?

Milton Ribeiro: Se a educação do Brasil tivesse melhorado nas últimas décadas, a gente estenderia a mão a todos os métodos modernos e construtivistas. Mas a educação piorou, e os números mostram isso. Há 20 anos, a escola era melhor do que é hoje. Há 30 anos, era melhor ainda. Quando eu estudei, quem ia para escola particular era o aluno que não tinha capacidade de ser aprovado na escola pública. Na minha infância e adolescência, eu sempre estudei em escolas públicas, e eram as melhores. Mas nos últimos anos escola pública foi se deteriorando, foi deixando de ser referência. Meu sonho é que no futuro os professores da escola pública sejam as referências de vida para os alunos, como foram os meus. Por isso, eu quero tirar o protagonismo do método e da estrutura para resgatar o protagonismo do professor na educação. Treinar o professor. Dar a ele as ferramentas para que ele faça a diferença na vida dos alunos. Veja o programa Tempo de Aprender. Em pouco tempo, já teve 3,5 milhões de acessos! Mais de 70% dos entes federativos já aderiram ao programa. O programa Conta Pra Mim, também vinculado à Secretaria de Alfabetização, é mais um grande avanço, porque resgata nossas melhores tradições culturais. É um conteúdo de alta qualidade.


Paulo Briguet: Em relação ao homeschooling (educação domiciliar), qual é a sua posição, ministro?

Milton Ribeiro: Abraço essa causa. Sempre fui favorável ao homeschooling. Por uma ironia do destino, o homeschooling se provou factível com a pandemia. É evidente que precisamos pensar nos diversos aspectos da questão. Por exemplo, a população de baixa renda pode não ter tempo e condições para se sentar com o filho e ensiná-lo. E mais: para muitas famílias, escola é o lugar em que o filho come. É preciso encontrar a modulação certa para a implantação do homeschooling. No entanto, não podemos cair na obsessão pelo controle estatal do processo. Se você quer fazer o homeschooling, ótimo: seu filho vai ter uma escola como referência, haverá um relatório anual de atividades, mas a avaliação principal será o Enem. Se o seu filho fez homeschooling e foi aprovado no Enem, o Estado não precisa interferir nisso. Não será possível fazer o homeschooling com excesso de monitoração. Não vou tirar professor de sala de aula para cuidar de aluno que está aprendendo em casa.


Tempo de Aprender já teve 3,5 milhões de acessos e mais de 70% dos entes federativos já aderiram ao programa.


Paulo Briguet: O sr. vê uma relação de continuidade entre a sua gestão e a do ex-ministro Abraham Weintraub?

Milton Ribeiro: Eu não estou administrando o MEC para olhar no retrovisor. Não estou aqui para criticar o meu antecessor. O Abraham teve diversos pontos positivos e fez o diagnóstico de uma série de problemas. Talvez tenha se equivocado na estratégia que escolheu, a do embate direto. Tenho um estilo diferente, mas sei exatamente onde quero chegar. Por exemplo, no caso das listas tríplices das universidades, vamos seguir exatamente o que diz a lei: a palavra final é do presidente da República. Se ele escolhe sempre o nome mais alinhado com o governo, é isso que nós vamos defender.

 

Paulo Briguet: A propósito, como o sr. vê a nova formação do Conselho Nacional de Educação, que teve indicações do ex-ministro Weintraub?

Milton Ribeiro: Fiz uma análise dos nomes indicados pelo Weintraub, e constatei que são pessoas qualificadas, com uma visão muito próxima à minha. No futuro próximo, teremos dentro do CNE um amálgama de visões educacionais muito coerentes com a visão do presidente Bolsonaro. É o que nós queremos para o MEC. Uma outra boa herança da gestão anterior — além do já mencionado trabalho do professor Nadalim — é que pela primeira vez teremos uma Política Nacional do Livro Didático (PNLD) que contempla a educação infantil, com títulos de excelente qualidade. 


Paulo Briguet: O sr. se considera um pacificador? Lembrando que esse era o título do Duque de Caxias, um guerreiro...

Milton Ribeiro: Na verdade, eu quero pacificar no sentido de ouvir a todos. Apanhei muito porque recebi a deputada Tabata Amaral... O presidente me ligou perguntando por quê. No dia seguinte, fomos almoçar e eu mostrei a ele que a deputada participa de uma comissão externa da Câmara que tem por objetivo fiscalizar o Executivo. Eu não posso simplesmente ignorar isso; se alguém dessa comissão faz um pedido de informação, eu tenho que responder em trinta dias, por força de lei. A deputada Margarida Salomão (PT) veio aqui também, falou mais de uma hora. Ela queria ser ouvida. Por que não recebê-la? Quando digo que não sou o dono da verdade, acredito nisso. O nosso roteiro está traçado: e foi traçado com a vitória do presidente Jair Bolsonaro em 2018. É o roteiro que a maioria da população escolheu para conduzir o Brasil. Digo isso sempre, em todos os lugares a que vou. Na minha visita à Lemann, comecei dizendo: ‘Estou aqui para ouvi-los, mas lembro que ouvir é uma coisa e ser influenciado é outra’. Visita não é acordo.

 

Paulo Briguet: O sr. se considera um conservador?

Milton Ribeiro: Sim, principalmente se considerarmos o nosso objetivo principal. Não adianta encher o Brasil de universidades e esquecer a educação básica; meu grande objetivo é investir nos primeiros anos da educação de nossas crianças e retirar da educação infantil essas coisas acessórias, ideológicas, que pertencem ao âmbito e à responsabilidade da família, não da escola. É um constrangimento total, são ideias desequilibradas que nós precisamos retirar da escola pública. Peguei uma tese em que a autora defende que as crianças recebam ao nascer um nome neutro, nem masculino, nem feminino. Outra tese fala sobre “o papel dos go-go boys na sociedade hodierna”. São teses pagas com dinheiro público! Isso não pode continuar, e será enfrentando a seu tempo. Se um jovem de 18 anos decide trocar de sexo, o Estado não pode interferir. Agora, impor mudança de sexo a uma criança de 8 anos é uma agressão, uma covardia. Nessas questões, eu sou totalmente conservador. Em termos de princípios e valores, eu sou tão conservador quanto o Abraham Weintraub.

 

Paulo Briguet: Sei que seu tempo é escasso, ministro, então gostaria de terminar falando sobre uma “joia da coroa” do governo Bolsonaro: as escolas cívico-militares. O que sr. acha delas?

Milton Ribeiro: Esse é um tema que me entusiasma. Até porque sou militar — tenente do Exército. Sou militar raiz, não Nutella. (Risos.) Servi em 1976, no 2º Batalhão de Caçadores de São Vicente, pouco depois da guerrilha do Araguaia. Aos 19 anos, andava com uma Beretta, por que me diziam: “Os guerrilheiros querem matar você”. Felizmente, estou aqui...

 

Paulo Briguet: Podemos fazer uma foto juntos, ministro?

Milton Ribeiro: Sem problemas. Mas a Tabata é mais bonita que você. (Risos.)

 

Nosso roteiro está traçado: e foi traçado com a vitória do presidente Jair Bolsonaro em 2018.

 


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