ENTREVISTA

“Tragédia não teve nada a ver com política”

Paulo Briguet · 13 de Julho de 2022 às 18:44

Uma festa, uma música, uma briga, um bebê de dois meses. Em entrevista ao BSM, esposa de policial penal federal Jorge Guaranho conta a sua versão sobre o confronto que resultou na morte do guarda municipal Marcelo Arruda

A esposa do policial penal federal Jorge Guaranho concedeu entrevista ao BSM e deu a sua versão sobre o confronto que terminou com a morte do guarda civil Marcelo Arruda durante uma festa de aniversário em Foz do Iguaçu, na noite do último sábado (9). Para a mulher do atirador, que também foi baleado e está na UTI, o caso não teve motivação política. Segundo ela, Guaranho fazia uma costumeira ronda na região em que residia quando deparou com a festa e o conflito se iniciou. A esposa do policial penal também falou sobre os momentos de desespero que viveu tentando proteger seu filho de dois meses naquela noite. E informa que a arma de Guaranho disparou quatro vezes; a de Arruda, 17.

BSM: Como começou essa noite fatídica?
Nós não conhecíamos o aniversariante nem as outras pessoas que estavam na festa em que tudo aconteceu. Eu e meu marido (Jorge Guaranho) estávamos em um clube próximo ao local da festa, a Assemib (Associação dos Empregados da Itaipu Binacional Brasil), onde um tio meu estava participando de um campeonato de futebol e pediu ao Guaranho que acendesse a churrasqueira e colocasse a carne para assar até que o jogo terminasse. Guaranho saiu de casa, acendeu a churrasqueira e colocou a carne para assar. Ele fez isso, depois voltou para casa, veio me buscar para que eu fosse com ele ao churrasco, levando nosso filhinho de dois meses de idade. Nós ficamos no churrasco da Assemib das oito e meia até onze horas, porque estava começando a ficar frio demais para o bebê. Saímos de carro.

BSM: Quando se deu a briga com os participantes da festa?
Meu marido é de direita, embora não seja fanático. Ele apoia o Bolsonaro. Dentro do carro, colocou para tocar a música “O Mito Chegou”. Perto da Assemib, fica a Aresf, um clube frequentado por policiais da região, onde meu marido jogava futebol todas as segundas-feiras. Era lá que estava acontecendo a festa de aniversário, mas meu marido não sabia disso. Nós moramos perto dos dois clubes, e o Guaranho fez o que costuma fazer sempre: uma ronda para verificar se tudo estava seguro, porque já houve furtos nas redondezas. Eu estava no banco de trás, com meu filho no bebê-conforto. O local em que estava se realizando a festa fica no meio de um bosque, numa descida. Eu vi uma luz acesa e comentei com meu marido: “Acho que está acontecendo alguma coisa”. Quando chegamos ao local da festa, percebemos que era um aniversário temático do PT. Quando as pessoas que estavam na festa ouviram o som da música que vinha do nosso carro, se sentiram ofendidas e começaram a gritar. Meu marido fez a volta com o carro, botou a cabeça para fora e gritou: “Bolsonaro mito!” Nesse momento, o aniversariante pegou um punhado de pedras e terra que arrancou de uma floreira e jogou no meu marido, chegando a acertar em mim, que usei o corpo para proteger o bebê. Eles começaram a gritar que era uma festa de policiais. Meu marido então levantou a arma e disse: “Eu também sou polícia”. Fiquei desesperada, saí do carro e disse: “Por favor, moço, eu estou com meu filho aqui!” Isso está registrado em vídeo. Voltei ao carro e meu marido acelerou. Mas ele estava muito transtornado pelas ameaças e pelas brigas. Ao contrário do que disseram, em nenhum momento ele ameaçou voltar e “matar todo mundo”. Se ele estivesse com intenção de matar alguém, poderia ter aproveitado o momento em que estava dentro do carro para atirar nas pessoas e fugir.

BSM: Por que seu marido voltou ao local da festa?
O maior erro do meu marido foi voltar àquele lugar. Ele se sentiu ofendido demais por ser atacado no clube que ele costumava frequentar por pessoas que ele não conhecia. Ele ficou ofendido por eu me ver obrigada a proteger nosso filho de dois meses. Pedi ao Guaranho para não voltar, mas ele insistiu, queria tirar satisfação. Afinal, ouvir uma música e gritar “Bolsonaro mito” não é crime, até onde se saiba.

BSM: Houve motivação política para o crime?
A situação que ocorreu não tem nada a ver com política. Meu marido gosta do Bolsonaro, mas nunca se envolveu com campanhas, nunca participou de uma carreata ou motociata, embora nada disso seja crime também. Ele não é um fanático. Minha mãe e meu padrasto já votaram no PT e a relação de amizade deles com o Guaranho é muito forte, nós vivemos juntos. Ele convive normalmente com várias pessoas que não gostam do Bolsonaro. O que aconteceu não tem nada a ver com política. Foi uma situação infeliz e trágica.

BSM: Quem começou a atirar? Quem sacou a arma primeiro?
Eu não sei quem atirou primeiro, porque não estava presente nessa hora, mas se você analisar o vídeo cronometrado (ver abaixo), você poderá perceber quem saca a arma primeiro, como meu marido vai se esquivando, várias vezes pede para pessoa abaixar a arma. As imagens falam por si. O vídeo exibe em tempo real a câmera interna e a externa. A verdade é que as pessoas que estavam na festa deduziram que meu marido poderia voltar e ficaram esperando por ele. Volto a dizer: as imagens falam por si.

BSM: As imagens também mostram o Guaranho sendo espancado quando já estava caído.
Foi uma crueldade o que fizeram com meu marido, que estava baleado e caído e levou vários chutes. Nem gosto de falar nisso, fico transtornada. Isso não se faz com um cachorro, que dirá um ser humano.

BSM: Desde o começo, era difícil aceitar que o crime foi cometido friamente, tendo em vista a sua presença e a da criança no local. Qual é o assassino que leva a mulher e o filho bebê para a cena do crime?
Você acha que uma pessoa instruída, que já foi policial, já foi bombeiro, já tem doze anos de policial penal federal e acabou de ser pai – iria jogar a vida dele fora por causa de política? Que ele iria arriscar a vida do filho e da esposa por causa de PT? Se ele quisesse realmente matar a pessoa, teria feito isso na primeira oportunidade.

BSM: Há outras informações sobre o episódio que não têm sido divulgadas pela mídia?
A história infelizmente foi mal contada. As pessoas dizem que ele entrou atirando na festa como um maluco, e isso não é verdade. Se você analisar, meu marido tinha uma pistola .40 com 15 munições, e 11 cartuchos estavam intactos – ou seja, ele disparou apenas quatro vezes, sendo que a primeira foi de contenção, na perna do atirador. Marcelo estava com uma pistola 380 com 20 munições, e só sobraram três cartuchos intactos. Isso quer dizer que ele disparou dezessete vezes. Os números também falam por si.

BSM: E agora, o que você espera?
Quero dizer que eu sinto muito pela família do Marcelo Arruda. Sinto muito por essa morte, e não quero dizer aqui que meu marido estava certo. Ele errou. Mas tenho direito de dar a minha versão dos fatos, pois estou muito abalada com tudo isso. Afinal, duas famílias saíram destruídas dessa história.

Veja o vídeo da briga

 

 


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