AGRONEGÓCIO

Mundo teme escassez de trigo, mas Brasil pode se tornar autossuficiente

Brás Oscar · 31 de Maio de 2022 às 11:53

Brás Oscar, do BSM, conversa com a equipe da Embrapa Trigo, no Rio Grande do Sul. O cenário nacional é otimista para o setor

Boa parte do mundo já experimenta o início de crescente crise de alimentos provocada pela guerra na Ucrânia. O trigo é um dos itens que pesam nesse cenário, já que Rússia e Ucrânia sozinhas produzem 30% da oferta mundial do cereal. Levando em conta ainda os embargos que suspenderam também o fornecimento de fertilizantes, gás e petróleo para vários países, uma crise no setor energético também se aproxima dos países ricos, principalmente da Europa.

A suspensão das exportações da Índia, como noticiamos no BSM, exacerbou ainda mais o problema.

Nos últimos dias, a mídia europeia passou a especular que a América do Sul, especialmente seus principais produtores de trigo, Brasil e Argentina, poderiam amenizar a situação. Voltaram até a usar o clássico epíteto de “celeiro do mundo” para se referirem ao nosso continente.

A Argentina, referência na produção de trigo sul-americano, além de enfrentar um de seus piores momentos políticos, sofre com condições meteorológicas ruins este ano. Devido a uma seca muito forte, espera-se uma redução de 8% da área plantada de trigo para 2022.

Há ainda outro problema: a Rússia é o maior exportador mundial de fertilizantes, com mais de 12% do mercado global, mas as suas vendas foram praticamente paralisadas por sanções internacionais. Somando isso à crise financeira argentina, os hermanos  usarão menos fertilizantes este ano. O que resultará em menos grãos por hectare para esta safra.

E o Brasil?

Ainda não podemos suprir essa lacuna mundial em 2022, mas parece que estamos trilhando um caminho positivo. Nossa gestão do agro é melhor que a da Argentina tanto no setor privado quanto nas políticas públicas, e é possível que em poucos anos o cenário do trigo nacional seja muito favorável.

O Jornal BSM conversou com o pessoal da Embrapa Trigo, unidade de pesquisa da Embrapa (Empesa brasileira de pesquisa agropecuária) especializada em pesquisas sobre trigo, cevada, triticale, centeio, canola, ervilha forrageira, soja, milho e feijão, com sede em Passo Fundo (RS).

As informações dadas pelo chefe-geral da Embrapa Trigo, Jorge Lemainski, surpreendem. Afinal, se você não vive aqui no Sul, provavelmente não está habituado a associar campos de trigo à paisagem rural brasileira. E, sim, o Brasil produz muito trigo e está em busca de aumentar sua lavoura deste cereal que está na nossa mesa todos os dias e que alimenta tantas bocas mundo a fora.

Confira a entrevista:


Jornal BSM: O Brasil tem um projeto de ampliar a área de ampliação de trigo, certo? Em que pé está o projeto?

Embrapa Trigo: Diversas instituições – do setor produtivo, indústria moageira, indústria de proteína animal, federação de agricultura, associações, cooperativas, empresas de pesquisa, assistência técnica e extensão rural etc. –  tem o foco dos trabalhos voltado ao aumento do cultivo de trigo no Brasil.

Na Embrapa Trigo, nossa meta é promover o aumento de 300 mil hectares nesta safra, um crescimento de 11%.

A expectativa de impacto econômico com o crescimento da produção de trigo em 2022 é a seguinte:

Mais 100 mil hectares no cerrado, o que equivale a 300 mil toneladas trigo. Isto representa R$ 450 milhões na balança comercial.

Mais 200 mil hectares no Sul, que equivalem a 600 mil toneladas de trigo e é igual a R$ 900 milhões.

Ou seja, um aumento de 300 mil hectares de trigo no Brasil, resultando em um aumento de 900 mil toneladas, que são R$ 1,35 bilhão na balança comercial.

Este projeto ao qual você se refere pode ser o Termo de Execução Descentralizada –TED do Trigo Tropical – que a Embrapa Trigo apresentou ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento como uma proposta de agenda para a expansão do cultivo na região tropical.

Oito ações compõem o plano que envolve a organização da produção de sementes, transferência de tecnologia, governança de cadeia, comunicação, zoneamento agrícola, fortalecimento de iniciativas locais, sistema de informações sobre a dinâmica municipal de produção de trigo e ações de pesquisa para brusone (uma doença que ataca o trigo).

Esta Proposta enviada ao MAPA por meio de TED está no aguardo de liberação financeira.

 

BSM: Hoje, qual a nossa dependência de importação de trigo?

Embrapa Trigo: O Brasil é o 8º maior importador de trigo do mundo. Em 2021 nós consumimos 12.7 milhões de toneladas de trigo por ano, e para isso, precisamos importar 6,7 milhões de toneladas, com origem principalmente da Argentina (87% das importações de trigo no Brasil provêm da Argentina).

A previsão é que o consumo anual chegue a 14 milhões toneladas nos próximos anos.



BSM: Há possibilidade nos tornarmos autossuficientes?

Embrapa Trigo: O consumo é de 12,7 milhões toneladas e a produção em 2022 será de 8 milhões de toneladas. Isso será suficiente para atender 62% da demanda nacional

A nossa produção cresce 167 mil toneladas por ano, mas o nosso consumo cresce 162 mil toneladas por ano.

Em 2015, o Brasil colheu 5 milhões de toneladas, já em 2020, a produção chegou a 6,2 milhões de toneladas. Em 2021, atingiu 7,6 milhões de toneladas e como dito anteriormente, para 2022 deve chegar a 8,1 milhões toneladas.  Ou seja, em dez anos, caso a produção de trigo cresça 10% ao ano, passaríamos de 8 milhões de toneladas em 2022 para 20 milhões de toneladas em 2031.

As organizações do setor estão trabalhando para isso.

 


BSM: E quanto a nos tornarmos exportadores de trigo. É uma meta com qual a Embrapa e os produtores trabalham?

Embrapa Trigo: Se chegarmos a 20 milhões toneladas por ano, ficaremos entre os grandes exportadores mundiais, como Canadá e Argentina.

Mas, na verdade, já somos exportadores. A exportação em um país importador pode parecer estranho. Contudo, mesmo países exportadores também importam, como é o caso do Reino Unido. Isso se explica por diversos motivos, como a diferença de tipos de qualidades diferentes do trigo, época de disponibilidade do cereal (quando se colhe), oportunidades de negócios etc.

Ainda, o custo logístico do Brasil é muito alto. Levar os grãos produzidos no Rio Grande do Sul (que produziu 3,4 milhões toneladas em 2021 e consome cerca de 1,5 milhões toneladas por ano) até regiões consumidoras no centro e no Nordeste do Brasil é muito caro. As taxas de cabotagem (transporte marítimo na costa brasileira) são mais altas para navios de bandeira nacional do que para embarcações estrangeiras, o que favorece as importações de trigo. Por via terrestre também é muito caro e demorado, além de facilitar perdas nas estradas.

A saída encontrada pelos agricultores do Rio Grande do Sul foram as exportações. Nesse estado, entre 2014 e 2017, a área do cereal reduziu quase 40%, mas voltou a crescer de 2018 para agora. Parte disso está relacionado ao início das exportações em 2019, numa ação coordenada pela Federação da Cooperativas do Rio Grande do Sul com o apoio técnico da Embrapa Trigo. Ou seja, exportações motivaram produções locais.

Em 2021, o Rio Grande do Sul exportou 2,6 milhões de toneladas para os mercados de 14 países (Indonésia, Vietnã, Arábia Saudita, Marrocos, Paquistão, Israel, Venezuela, Turquia, Uruguai, África do Sul, Egito, China, Sudão e Equador). Isso significa que o trigo também ajuda abrir linhas comerciais com países diversos para outros mercados.

Finalmente, nos primeiros 4 meses de 2022 (janeiro a abril), foram exportados 2,17 milhões toneladas. Até o final da safra de 2022, a previsão é que o Brasil exporte mais de 3 milhões de toneladas de trigo, com origem principalmente do Rio Grande do Sul.


 

BSM: Muita gente associa o trigo a regiões de clima temperado e subtropical. No caso do Brasil, apenas a região Sul está nesta zona climática. A Embrapa tem projetos para a expansão nas demais regiões do Brasil, com clima mais quente?

Embrapa Trigo: O Brasil é um dos raros países do mundo que consegue produzir trigo em ambiente subtropical. No clima árido da Austrália, África ou Oriente Médio, a seca e o calor até afetam a produção – como acontece conosco no Cerrado brasileiro – mas o maior desafio está no clima úmido, sempre presente no inverno/primavera da Região Sul, onde a produção está concentrada 90% no Rio Grande do Sul e Paraná.

A umidade traz muitas doenças com os fungos e bactérias, além das chuvas na primavera que causam germinação na espiga e comprometem a qualidade dos grãos, além da temida giberela, doença causada por fungo que entra na espiga e a contamina com micotoxinas, nocivas para seres humanos e animais.

No trigo tropical/cerrado, o fungo causador da brusone também afeta a espiga e mata as lavouras com perdas de até 100% no rendimento. A pesquisa brasileira tem reconhecimento internacional na comunidade científica por conseguir produzir cereais de inverno no ambiente subtropical. A Embrapa tem parcerias de pesquisa e intercâmbio de germoplasma e pesquisadores com os principais centros de pesquisa agrícola do mundo em busca de vencer essas duas doenças: brusone e giberela, ainda sem solução no mundo, com risco de chegar a outros polos de triticultura mundial.

No clima quente, além da brusone – para a qual as cultivares tem chegado cada vez mais tolerantes, mas ainda sem resistência total à doença, os desafios também são quanto a tolerância ao déficit hídrico que limita o desenvolvimento do trigo em sistema de sequeiro e inviabiliza o cultivo em anos em que falta água para o cultivo sob irrigação.

As cultivares tem apresentado boa tolerância ao calor, o que permitiu estudos exploratórios – além do Cerrado – para o Norte e o Nordeste do Brasil. Novas fronteiras como Alagoas, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Piauí e Roraima estão com estudos prospectivos para avaliar a possibilidade de cultivo de trigo.

Quando falamos de trigo tropical, a área indicada para cultivo – conforme zoneamento agrícola de risco climático – está limitada aos estados da região central do Brasil, como Goiás, Distrito Federal, Bahia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais. Nesta região, foram registrados 260 mil hectares com trigo em 2021, mas o potencial estimado é de 2,7 milhões de hectares aptos ao cultivo de trigo.

Na Região Sul, também existe espaço para crescimento. O cultivo de grãos nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná está concentrado no verão, quando a soja predomina com a crescente redução das áreas de milho. Nos três estados, são contabilizados quase 17,7 milhões de hectares em cultivo de grãos no verão e, aproximadamente, 3,4 milhões de hectares no inverno (dados da Conab2021).

O objetivo da Embrapa junto a lideranças políticas, instituições financeiras, cooperativas, extensão rural, pesquisa, entidades federativas e indústria é aproveitar a área de inverno, que muitas vezes fica em pousio ou com plantas de cobertura, para produzir alimentos base da população, como farinhas, pães, bolos e biscoitos, além de suprir a demanda de matéria-prima para forragem animal ou ração na produção de carnes (bovinos, suínos e aves), ovos, leite e derivados é

De acordo com a FARSUL (2022), somente no Rio Grande do Sul, o aumento da área de inverno resultaria em um incremento de quase R$ 32 bilhões no PIB do Estado, puxados principalmente pelo trigo.

 


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