FORÇA-TAREFA

Filme faz justiça aos heróis de Manaus

Paulo Briguet · 16 de Maio de 2022 às 11:03

Em entrevista ao BSM, a médica Mayra Ribeiro fala sobre o documentário Missão Manaus e a força-tarefa para salvar vidas durante a crise de oxigênio na capital amazonense, em janeiro de 2021


O filme Missão Manaus tem estreia marcada para o próximo dia 1º de junho. No documentário, os brasileiros vão conhecer uma nova e impactante versão sobre o que aconteceu no mês de janeiro de 2021, quando a cidade de Manaus viveu dias caóticos em uma crise de falta oxigênio para pacientes internados nos hospitais locais, vítimas da variante amazônica do covid-19. Enquanto a mídia e a esquerda atacavam ferozmente o governo federal, tentando imputar a responsabilidade pela crise ao presidente Jair Bolsonaro, um grupo de profissionais e gestores da saúde montou uma extraordinária força-tarefa que salvou inúmeras vidas e reestruturou completamente o serviço de saúde na capital do Amazonas. Uma das principais personagens dessa história é a médica pediatra cearense Mayra Pinheiro, que à época chefiava a Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde. Leia a seguir a entrevista que a Dra. Mayra – alvo de toda sorte de perseguições pela mídia e por políticos de oposição – concedeu ao editor-chefe do BSM, Paulo Briguet:


BSM: Por que fazer um documentário sobre a crise de Manaus?

Mayra Pinheiro: Nós fomos procurados por uma produtora de cinema, a Blackjack Films, para contar esta história. Eles têm produções próprias no Netflix e Globoplay, são muito bons e são de Fortaleza, que é minha terra. Bom, eles me conhecem de trabalhos que fizemos juntos, quando eu era presidente do Sindicato dos Médicos, e ficaram indignados com o tratamento que recebi na pandemia, em especial na CPI. Então é uma demanda que parte da sociedade. As pessoas sabem que a narrativa imposta pela CPI é mentira, mas não sabem precisamente o que ocorreu. O Brasil só conheceu as narrativas da imprensa militante e dos políticos que tentaram se utilizar de forma inescrupulosa de uma tragédia. A ideia do documentário, mais do que desarmar a farsa, é fazer justiça às centenas de heróis que arriscaram a vida para salvar milhares de outras vidas.

 

BSM: Quais foram as causas da crise?

Mayra Pinheiro: Gestão incompetente e ineficiente do sistema de saúde do estado de Amazonas e da cidade de Manaus, que já trazia problemas históricos, graves e crônicos, e que, de súbito, é submetido a uma pressão aguda produzida por um vírus letal e de alta transmissibilidade. O resultado não poderia ser outro que não o colapso desse sistema. Esta é a principal causa. Mas um problema complexo assim não tem só uma origem. Houve falha das empresas de abastecimento de oxigênio, houve uma campanha de desinformação com recomendações absurdas feitas por jornalistas descomprometidos com a verdade. Houve boicote das Big Pharmas internacionais a tratamentos e medicamentos simples e acessíveis. O filme trata de tudo isso.

 

BSM: Na sua opinião, quais foram os principais personagens – heróis e vilões – nesse episódio?

Mayra Pinheiro: Os maiores heróis foram os profissionais da saúde que trabalharam em condições precárias, com alta carga de trabalho e pressão. É gente que não teve nenhum tipo de reconhecimento, e o pior: que foi perseguida por tentar ajudar. Os maiores vilões: políticos inescrupulosos que tentaram se utilizar da situação e da comoção popular para obter dividendos eleitoreiros. É inacreditável o que se faz por uns minutos de televisão.

 

BSM: Como se montou a estratégia para socorrer a cidade? Quantas vidas foram salvas?

Mayra Pinheiro:  Foram várias as estratégias. Em tempo recorde, foi montada uma operação de guerra. Para mim, o mais simbólico foi o transporte de oxigênio líquido em aviões, inédito na aviação mundial. É algo tão arriscado, perigoso, que nunca havia sido feito. Só conseguimos realizar este transporte porque utilizamos aeronaves das forças armadas. Imagine a logística montada em 24, 48 horas, para executar esta tarefa? Agora, some a isso o envio de medicamentos para intubação, ampliação da oferta de médicos através do programa mais médicos, treinamento dos agentes de saúde para monitoramento domiciliar de casos suspeitos, abertura de novos leitos, envio de mais de 300 profissionais de saúde treinados e custeados pelo governo federal para possibilitar a abertura de novos leitos, remoção aérea de pacientes etc. e você pode ter alguma noção do que foi a crise em Manaus.


"Em tempo recorde, foi montada uma operação de guerra. Para mim, o mais simbólico foi o transporte de oxigênio líquido em aviões, inédito na aviação mundial".


BSM: Fale sobre seu envolvimento pessoal com a Missão Manaus.

Mayra Pinheiro: Fui a primeira secretária designada pelo então ministro da Saúde Eduardo Pazuello para fazer a avaliação da situação. Além de ser médica, fui escolhida por já ter participado das ações de socorro a Manaus no primeiro surto da doença. Desembarquei em Manaus para ver tudo de perto: atenção primária de saúde e da rede secundária e terciária. Esta análise era necessária para a construção de um plano de ação. A ação posterior foi recrutar e treinar os recursos humanos que foram deslocados para lá visando socorrer a população. Então, ninguém me contou o que estava acontecendo. Eu vi. Eu lutei.


BSM: Naqueles dias, quais foram as passagens mais marcantes para a sra.?

Mayra Pinheiro: Cada um de nós tem dezenas de histórias emocionantes e inesquecíveis. Visitar postos de saúde e constatar que muitos se encontravam fechados até com correntes e cadeados, enquanto as pessoas morriam em casa sem assistência, é chocante. Mas, para mim, dois momentos foram incrivelmente emocionantes. A operação de guerra organizada para o transporte aéreo de centenas de pacientes adultos. Não vou esquecer o rosto dos familiares, que se ajoelhavam e imploravam para que cuidássemos bem de seus entes queridos. Também vou guardar para sempre a realização da delicada operação para remoção de mais de 40 recém-nascidos das unidades de terapia intensiva neonatal. Em 30 anos de exercício da profissão médica, jamais vi algo parecido.

 

BSM: O Amazonas também foi palco de uma desastrosa experiência com superdoses de hidroxicloroquina. Esse caso também será abordado no filme?

Mayra Pinheiro: Este problema é gravíssimo e merece ser investigado a fundo, até o fim. No entanto, o filme tem a intenção de mostrar os heróis de Manaus e por isso a temática não foi abordada. Vamos torcer para que a Justiça investigue o caso.

"Vou guardar para sempre a realização da delicada operação para remoção de mais de 40 recém-nascidos das unidades de terapia intensiva neonatal. Em 30 anos de exercício da profissão médica, jamais vi algo parecido."


BSM: Como a sra. avalia o oportunismo político e midiático em torno da crise de Manaus?

Mayra Pinheiro: É algo deplorável. A gente nunca se acostuma ao mal. Eu vivi muita coisa nesta pandemia, lutei contra interesses econômicos diversos. Mas confesso que não imaginava que se chegaria à total falta de humanidade pelo poder. Por outro lado, também vi o melhor do ser humano, a entrega, o heroísmo completo, de gente simples. Vi o extremo mal e o extremo bem lado a lado.


BSM: Um dos piores malefícios da pandemia foi elevar o medo à categoria de virtude e a consequente criminalização da coragem. Em que medida esse filme pode corrigir essa terrível inversão moral?

Mayra Pinheiro: O documentário vai mostrar o trabalho de inúmeros profissionais cuja coragem foi infinitamente maior que o medo da doença e da perseguição que sofreram por tentarem simplesmente realizar seu trabalho. Estes heróis não estavam preocupados com reconhecimento, carreira, dinheiro, fama. Eles só pensavam em salvar vidas. Houve muita gente que pegava a doença, cumpria a quarentena e voltava para o front. Para essas pessoas o medo de deixar suas famílias, o medo da doença, o medo de adoecer e até de perder a própria vida diante de uma doença grave e de desfecho incerto foi superado por sentimentos maiores como a empatia, solidariedade e fé. Não pensávamos na fome e no sono, que chegava após horas ininterruptas de trabalho sob intensa pressão, no isolamento, nas críticas e nos ataques. A única pergunta que nos fazíamos sempre ao final do dia era: o que mais podemos fazer?

 


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