DIÁRIO DE UM CRONISTA

Confissões de um terrorista de direita

Paulo Briguet · 23 de Junho de 2020 às 17:23

A vida de um homem que oferece grande perigo à sociedade

Cabeça de Ovo, eu confesso! Sou um terrorista de direita. Por trás desta máscara que a Saúde Pública me obriga a usar, sob pena de multa, esconde-se um perigoso subversivo.

Desde o momento em que acordo, por volta das 6 da manhã, começo a oferecer perigo para a comunidade. Antes mesmo de me levantar, faço o Sinal da Cruz, cometendo assim o primeiro de muitos atentados ao caráter laico de nosso Estado, que se repetirão durante o dia, na forma de orações clandestinas como o Pai-Nosso, a Ave-Maria, o Glória ao Pai e a Salve Rainha. Como se não bastasse, ainda pronuncio, incontáveis vezes, jaculatórias tais como “Senhor, tem piedade de nós” e “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”. Como diria o seu colega Barroso, é muita falta de iluminismo.

Na chácara dos 300, vocês encontraram aquele perigosíssimo arsenal, composto por camisetas velhas, cartazes feitos à mão, meia dúzia de rojões de festa junina, uma faca sem corte e a terrível máscara do Ursinho Pooh, tudo isso guardado por dois velhinhos. É uma ameaça sem precedentes à ordem democrática. Se ao menos eles fossem como o PCC e o MST, entidades dedicadas unicamente a promover a paz e o entendimento entre os homens... Mas não! Dedicam-se a uma causa criminosa, a de apoiar um presidente eleito por 58 milhões de pessoas. Como diria o Zé Dirceu, é muita falta de dialética.

Aqui em casa, lamento dizer, vocês não vão encontrar muita coisa, não. O Pedro tem um arsenal de armas coloridas, daquelas que lançam balas de isopor, mas eu atiro muito mal. Se levarem meu computador, vão encontrar mais de mil crônicas e um monte de anotações para um livro atrasado. Se quebrarem o meu sigilo do banco, é capaz de encontrarem uns boletos atrasados. Os meus livros? Sim, confesso, eles são subversivos. Por exemplo, acho que vocês não vão gostar de “Arquipélago Gulag”, que conta a história de um homem condenado a 10 anos de prisão e trabalhos forçados por escrever uma carta a um amigo com críticas a um poderoso da época. Sei lá, podem achar que é alguma referência...

Meu terço, minhas imagens de Nossa Senhora, minhas leituras sobre Deus e comunismo — sendo que ambos não existem, segundo vocês —, o livro em que Burke detona a Revolução Francesa (olha aí, Barroso!), o adesivo “Olavo tem razão” pregado na parede, o violão em que eu toco as músicas do Chico Buraco — tudo isso, eu sei, poderá ser usado contra mim no tribunal. Mas nenhuma prova material será mais devastadora do que as minhas piadas, meus memes, os apelidos que eu invento para vocês. O riso é a única arma que vocês não entendem e nunca entenderão.

Eu sei que vocês já devem ter a minha ficha corrida: católico, conservador, olavete, frequentador da Toca do Bode, anticomunista, antiglobalista, pró-vida, pró-armas, contra a ideologia de gênero, contra as cotas, amigo do Bernardo, amigo do Silvio Grimaldo... Já fui duas vezes à casa do Olavo, já fiz perfil da Sara Winter, já tirei foto com o Allan, já entrevistei o Bolsonaro! Podem anotar que também faço parte do movimento pró-missa e pró-comunhão. E que estou muito revoltado com o fechamento de empresas e a perda de empregos na epidemia do vírus chinês. Olha aí outro delito: eu digo “vírus chinês”.

Acho que você nem vai precisar me fazer uma visita, Cabeça de Ovo. Basta usar esta crônica. Soljenítsin pegou dez anos. E eu?

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.

 

           

 


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