ENTREVISTA BSM

Confisco de armas seria um desastre para o Brasil, diz Marcos Pollon

Paulo Briguet · 17 de Novembro de 2022 às 17:03

Deputado federal eleito e fundador do PROARMAS afirma que “revogaço” causaria perda de 3 milhões de empregos e fechamento de 5 mil empresas

 


 

No início dos anos 30, o ex-ginasta judeu-alemão Alfred Flatow, medalhista de ouro nas Olimpíadas de 1896, registrou três revólveres de sua propriedade por exigência do governo da Alemanha. Quando o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães chegou ao poder, decidiu confiscar todas as armas dos “inimigos do Estado”. Flatow teve suas armas e apreendidas e morreria em 1942, no campo de concentração de Theresienstadt.

O deputado federal eleito Marcos Pollon, fundador da Associação Nacional Movimento PROARMAS, sempre cita a história de Flatow — que abre o livro Hitler e o Desarmamento, de Stephen P. Halbrook, para mostrar que as tiranias invariavelmente desarmam a população civil antes de implementar seus projetos de dominação. Nos últimos dias, membros da alta cúpula esquerdista — inclusive o senador eleito Flávio Dino, cotado para ministro da Justiça de Lula — têm falado abertamente em promover um revogaço nos decretos que regulamentaram a posse de armas durante o governo Bolsonaro. Durante a campanha, o descondenado chegou a dizer que fecharia os clubes de tiro do Brasil e os transformaria em clubes do livro (como se ele tivesse alguma intimidade com o assunto).

Qual será o destino dos CACs brasileiros? Até onde irá a sanha dos desarmamentistas no poder? É o que o BSM perguntou a Pollon.  


BSM: O que os CACs podem esperar a partir de 1º de janeiro?
Marcos Pollon:
Eu acredito que a situação vai ficar mais difícil, mas estamos trabalhando para manter pelo menos os direitos que já temos. Não que o governo federal terá força para impor um revogaço que implique confisco de armas. As duas casas legislativas – a Câmara e o Senado – não veem com bons olhos o confisco.

BSM: Na hipótese de haver um confisco, quantas armas seriam apreendidas e como isso seria colocado em prática?
Marcos Pollon:
Seria bem complicado. Eles teriam que impor sanções às pessoas que têm esses equipamentos. Hoje nós temos aproximadamente 800 mil CACs no Brasil. O que mais me preocupa é que esse setor gera mais de 3 milhões de empregos diretos e movimenta alguns bilhões de reais no comércio por ano. Esse revogaço implicaria, portanto, no desemprego de 3 milhões de pessoas e no fechamento de 5 mil CNPJs. Começaríamos o ano com 3 milhões de desempregados, fechamento de 5 mil empresas e confiscando bens de quase 1 milhão de brasileiros. O impacto que isso causaria na economia do país é gigantesco, para não falar do ataque a direitos fundamentais.

BSM: O senador eleito Flávio Dino (PSB-MA), cotado para o Ministério da Justiça, fala em confiscar “apenas” armas de “grosso calibre”. O que ele pretende dizer com isso?
Marcos Pollon:
Essa é a fala de quem não compreende o assunto e não sabe o que é um grosso calibre. Armas de grosso calibre seriam armas de guerra, como as .50 e as .30, às quais os brasileiros não têm acesso permitido por lei. O fuzil 556, usado em competições, não é uma arma de grosso calibre, é um 22 com mais carga e nos Estados Unidos é usado para caçar coelho, não possuindo uma letalidade tão grande. O fuzil 762 é uma arma fundamental usada para controle da população de javalis, uma praga no campo brasileiro. “Grosso calibre” é a expressão de quem não entende do que está falando. Eles não dizem: “Vamos proibir armas até 12 mil joules”, não estabelecem nenhum critério palpável. Eles não falam tanto em ciência? Sejam objetivos. Grosso calibre, para a esquerda, é o que eles querem que seja. O mesmo acontece com termos como democracia, devido processo legal e liberdade de expressão. Flávio Dino chegou a comparar armas com remédios, mas remédios são bens fungíveis, o equipamento é um bem. Eu adquiri um bem, aí o governo diz que eu não possuo mais o direito de ter aquele bem? Não existe isso!

BSM: Sem citar nenhum dado, Flávio Dino chega a associar os clubes de tiro aos homicídios. Como o sr. vê isso?Marcos Pollon: Não há nada que ligue o tiro esportivo ao cometimento de crimes. As vendas de armas no Brasil cresceram como nunca e os números de homicídio tiveram queda recorde no Brasil. Existe uma fronteira entre a ignorância e a má fé. No caso do Flávio Dino, é má fé e construção de narrativa: eles querem se vingar de um eleitorado majoritariamente bolsonarista.

BSM: E como fica o discurso da “pacificação” feito por parte da esquerda?
Marcos Pollon:
Eles dizem que é importante “pacificar o país”, mas a toda hora fomentam o revanchismo. Perseguição aos atiradores esportivos, perseguição ao agronegócio, fragilização do direito de propriedade, incentivo à invasão de terras... Como querem a pacificação se a todo momento ficam dizendo que vão destruir as pessoas que não votaram no PT? Eles querem criminalizar “nossa existência”, aquilo que eles disseram que o Bolsonaro faria. É o bom e velho “Acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é”.

BSM: Eles também falam em colocar em prática o Estatuto do Desarmamento. Mas nunca mencionam o plebiscito de 2005.
Marcos Pollon:
Colocar em prática o Estatuto do Desarmamento passa por respeitar a decisão do plebiscito de 2005. O segundo ponto é que o Estatuto não especifica o limite de calibres e a quantidade de armas; isso tudo se dá por decreto regulamentar. Existe um projeto de poder de desarmamento, mas o Estatuto do Desarmamento nunca foi desrespeitado. Os decretos se mantiveram nos limites estabelecidos pela lei. O que ocorre é que há o interesse da esquerda em desarmar. Eles não conseguirão transformar isso aqui numa Venezuela antes de desarmar todo mundo. Esse é o projeto do Foro de S. Paulo.

BSM: O momento que estamos vivendo faz você lembrar os exemplos históricos de desarmamento que precederam tiranias?
Marcos Pollon:
Sim. Há o exemplo clássico da Alemanha dos anos 30, quando o desarmamento foi usado como método de dominação e aniquilação das pessoas. O episódio de Pol Pot, no Camboja, também é bem marcante. Todas as ditaduras passam pelo desarmamento civil. Quando os comunistas tomaram o poder em Cuba, desarmaram as pessoas dizendo que o Estado cuidaria da segurança de todos. Na Venezuela, a mesma coisa. A Argentina segue o mesmo caminho. O desarmamento serve como forma de controle social para evitar reações ao recrudescimento do regime e controlar os opositores.

 


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