CINEMA

Um Tapa sobre o tapa

Brás Oscar · 28 de Março de 2022 às 16:49

O Oscar se tornou irrelevante culturalmente, assim como os filmes de Hollywood. É a morte da sétima arte?

Sejamos sinceros: você só se lembrou do Oscar porque o Will Smith resolveu bancar o maluco do pedaço e provar que todo mundo odeia o Chris. Confesso: eu também não tinha a menor ideia de que já havia ocorrido a premiação e, sim, eu ri da piada do Chris Rock.

Logo pela manhã eu percebi que não conseguia entender os memes - entrar nas redes sociais logo cedinho é parte dos ossos do ofício – além de notar uma conversa estranha sobre “a doença da mulher do Will Smith”. Fui vencido pela curiosidade e resolvi ver o que estava perdendo.

Vamos começar pela premiação do Oscar. Eu realmente não tinha sequer ouvido falar de quase nenhum daqueles filmes, com exceção dos remakes de Duna e West Side Story.

Duna é um remake de um filme que já é adaptação de um livro de ficção científica anterior, e West Side Story é originalmente um musical da Broadway dos anos 1950, que já havia sido adaptado para o cinema nos anos 1960. Por sua vez, o musical é uma livre adaptação (bem livre mesmo) de Romeu e Julieta de Shakespeare.

Hollywood vive de reciclar boas ideias de autores clássicos do teatro e literatura, isso nunca foi segredo. Se você prestar um pouco de atenção, perceberá que até comédias despretensiosas como Um Príncipe em Nova York, de 1988, com o Eddie Murphy, é inspirado na ópera O Barbeiro de Sevilha, de Rossini (que na verdade é uma adaptação da peça Le Barbier de Séville, do Beaumarchais… nada se cria, tudo se copia).

O problema não é reciclar, inspirar-se no clássico ou adaptar um roteiro, mas é que há décadas estas recriações vão ficando cada vez mais rasas, pois a arte precisou dar espaço a agenda política. Eu realmente não recrimino posições políticas dissolvidas em meio a uma obra de arte, o que não dá para aguentar, porém, é arte dissolvida em meio a um panfleto por direitos de alguma minoria ou qualquer causa, seja ela justa ou injusta, de direita ou de esquerda.

E tudo vai ficando assim: uma diluição da diluição anterior, pasteurizada e estandardizada, feita na medida para um público que se pressupõe ter menos de 90 de pontos de QI ou sequelas de um AVC. O cinema de Hollywood – que só tem audiência de verdade em filme da Marvel – atualmente está para a arte tal qual um café ralo de garrafa térmica está para um espresso.

Quanto a piada do Chris Rock: quem já assistiu qualquer cerimônia do Oscar sabe que vai ter um comediante fazendo piadas provocativas e constrangedoras com quase todos que são importantes na plateia. Eu não quero realmente discutir limites do humor e estou mesmo me lixando para a “honra” da mulher do Will Smith ou para o tapa no comediante. Eu não levo atores a sério; são pessoas pagas para fingirem sentimentos e a gente nunca sabe até onde vai o fingimento com a missão de saciar o vício em holofotes e aplausos.

Eu ri da piada. Para quem não viu, ele perguntou quando a mulher do Will Smith iria estrelar “Até o Limite da Honra 2”.

Explicar piada é chato, mas vamos nessa: Não existe um “2” do filme “Até o Limite da Honra”. A referência é ao filme estreado por Demi Moore em 1997, onde ela interpreta uma militar que entra para um grupo de operações especiais e passa o filme todo de cabeça rapada, porque… sei lá… é um lance militar. Na época, eu realmente me lembro disso, a gente só comentava que era o filme com Demi Moore de cabeça rapada, ninguém deu muita bola para a propaganda feminista chata do roteiro.

É o filme com a Demi Moore careca, para diferenciar do outro com Demi Moore pelada (Striptease, de 1996).

A mulher do Will Smith é tipo o filme da Demi Moore careca, ou pelada; a gente só se lembra dela porque é mulher do Will Smith e, a partir de agora, porque ela tá careca. Careca que já foi transformada em “doença” pela galera.

“Ela teve de raspar o cabelo porque tem uma doença auto-imune”… sim, uma “doença” chamada calvície; o mesmo problema capilar do Xandão.

O Brasil tá igual ao Oscar: Ninguém sabe o que tá rolando, mas se fizer piada com calvície a gente leva porrada.

O programa TAPA CULTURAL desta segunda-feira (28) chamou a nossa colunista Juliana Gurgel, doutora em artes cênicas e apaixonada por filmes (bons e ruins, famosos e uns que só ela conhece) para bater um papo sobre este assunto.

Assista aqui.

 

 


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