BRASIL E ESTADOS UNIDOS

Três lições da América para a nossa Independência

Braulia Ribeiro · 5 de Setembro de 2022 às 17:07

O que a América conservadora pode ensinar aos brasileiros que lutam pela liberdade neste 7 de Setembro




O Brasil vive hoje uma guerra para se tornar independente da elite política que não representa o povo, mas o vampiriza. No taxation without representation (Imposto sem representação, não) foi a ideia mestra que moveu a Revolução Americana (1765-1791). Hoje no Brasil estamos lutando pela mesma coisa. Por muitas décadas, toleramos ser governados por uma elite corrupta que representa apenas seus próprios interesses. Agora basta. Queremos um governo que honre e represente de verdade o povo que o elege. A guerra (no sentido metafórico da palavra) travada hoje no Brasil nas redes sociais, nas mídias independentes e, em breve, nas urnas é uma guerra pela verdade e pela Independência do Brasil de uma oligarquia podre que quer controlar não só nosso dinheiro, nosso estilo de vida, o futuro de nossas crianças, mas até o que pensamos. As consequências da vitória, se ela vier, se farão sentir por muitas gerações. Mas essa vitória não virá por passe de mágica. Vai nos custar tempo, dinheiro, suor. A famosa Guerra da Independência chamada de Revolução Americana foi travada por voluntários, pessoas comuns e milícias que ajudavam o exército mambembe e pobre quando comparado ao Exército Britânico, a maior força militar da época. Mas o povo americano teve a nobreza e desprendimento para pagar o preço necessário para que a vitória se concretizasse.

O mesmo espírito indômito está presente ainda hoje no país. Por isso, ao contrário do que dizem os alarmistas, eu acredito que a América não está morta. Os ideais que construíram a nação americana ainda estão muito vivos para uma grande parte da população. E a estrutura política montada e defendida pela melhor Constituição do planeta continua forte. O país está sempre fazendo ajustes e  travando embates intelectuais para garantir a liberdade idealizada pelos fundadores. Facções sedentas de poder tentam usar as instituições públicas para benefício próprio, políticos podres corrompem o que podem, mas a beleza da estrutura política americana é que ela é transparente. O mal sempre acaba exposto. Hoje, uma grande parte do Partido Republicano está buscando se reformar para enfrentar os novos tempos. A elite dos caros clubes privados está dando lugar a políticos, inspirados por Trump, que sabem falar a língua do chão da fábrica. Do outro lado, muitos liberais clássicos da velha guarda, antes apoiadores do Partido Democrata, já não se alinham com o radicalismo do partido. Alguns estão até juntando forças com a direita para combater a evidente inclinação autoritária de seus antigos pares.

Olhando para a história, fica claro que o povo americano sempre se entendeu livre, e essa visão de si  os torna capaz de lutar quando estão ameaçados. O país está enfrentando uma grave crise, mas um fato subsiste: o povo americano nunca esquivou de pagar um preço alto por seu ideal quando foi necessário.  E esse ideal consiste principalmente num modelo de sociedade em que o cidadão é responsável por si e por seu destino. Inspirada nisso, quero apresentar ao leitor três atitudes que fazem da América uma sociedade especial.
 

Liberdade de expressão é liberdade para falar m...

Os abusos autoritários da suprema corte brasileira não começaram com o grupo de empresários amigos de Luciano Hang. Muitos jornalistas, hoje quase esquecidos até da mídia direitista, sofreram abusos semelhantes. Osvaldo Eustáquio, Sara Winter, Allan dos Santos, Bárbara Te Atualizei, Roberto Jefferson, o diretor de opinião do BSM e muitos outros foram vítimas das arbitrariedades da corte. Eustáquio, Winter, Jefferson e Silveira amargaram longos períodos na cadeia, Allan dos Santos perdeu a sua empresa, o seu ganha-pão e está exilado. Mas até hoje tem jornalista de direita que quando fala do assunto da prisão de Allan, de Roberto Jefferson ou do deputado Daniel Silveira fazem questão de acrescentar o disclaimer de que não concordam com a “maneira” como eles se expressam, e reconhecem o “exagero” agressivo de suas declarações. Essa atitude condescendente, além de desnecessária, acaba servindo como justificativa para os abusos. E daí, se eles foram agressivos, ou se até algum tempo atrás defendiam a esquerda (caso de Sara Winter)? E se fossem da esquerda? Não mereceriam o direito de expressarem com liberdade?  Parece que mesmo na direita entendemos que a liberdade de expressão tem que ser restrita aos que falam com polidez e não rompem a harmonia social. Somos o Homo cordialis acima de tudo. Entendemos a “liberdade de expressão” com sendo um direito restrito ao que é aceitável socialmente. Meus caros, a distância entre o padrão “socialmente adequado” até o – “fale somente o que me agrada” –, é mínima.

Não é assim que se entende a questão na América. Liberdade é liberdade. A única restrição tolerável é esta: “Não se pode gritar fogo num teatro lotado.” O famoso juiz Oliver Wendell Holmes, em um parecer de 1919, declarou indefensáveis, à luz da Primeira Emenda, atos que induzem as pessoas à rebelião em momentos de “clear and present danger.” O caso julgado era o de um grupo que distribuía folhetos incitando jovens a resistirem à convocação militar durante a WWI. À parte disso, não. Não existiam, até pouco tempo atrás, restrições contra “discurso de ódio,” e até agora, nos casos em que o problema foi judicializado, e chegou a máxima instância, a Suprema Corte tendeu na direção da liberdade e não da mordaça.  No Brasil, esse tipo de liberdade plena é uma coisa difícil de entender. Como? Pode falar com ódio? Pode espinafrar? A resposta é pode sim, tem que poder, desde que a fala não represente uma ameaça concreta a ninguém. É o trabalho das partes ofendidas levar o ofensor à Justiça. A lei prevê punição para caluniadores. Mas a ideia de que possa existir um “poder superior” que defina o que o cidadão pode ou não falar é impensável e ofensiva para o americano. Numa sociedade de adultos, ninguém precisa de um “pai sábio e moralmente superior” que lhes defina limites. O problema com o tal “discurso de ódio” é que ele se baseia numa definição subjetiva que depende de um julgamento moral feito pela consciência de cada um. Quem te dita o que é “ódio” vai ditar também seu senso moral. E quando controlam o que você fala controlam também o que você pensa.
  

Todo problema tem uma solução

Outra diferença de atitude entre o brasileiro e o americano é a crença de que problemas têm solução. O brasileiro não se surpreende quando problemas não são resolvidos, ou quando o barco naufraga. Ele espera que as coisas deem errado.  O americano se surpreende com o fracasso. A crença geral é que se planejamos bem, trabalhamos bem, com diligência e afinco, vamos ser bem sucedidos. O americano assume sempre o melhor e não o pior. Se ele faz algo, espera sucesso. Suor tem recompensa.

Na semana que passou, o país examinou chocado os resultados dos testes de educação nacional (NAEP) que mostraram que o fechamento das escolas durante a pandemia infringiu um retrocesso nacional de 30 anos na capacidade de leitura e matemática na educação básica. O caso foi noticiado em todas as redes de TV, educadores e políticos foram convidados a discutir o tema. É claro que existem divergências sobre como o problema pode ser resolvido.  Mas tanto um lado quanto o outro do espectro político cultivam uma mentalidade em comum: se existe um problema, tem que haver uma solução. A sociedade americana não se dá licença para ignorar fracassos, não se acomoda numa mentalidade fatalista, nem pretende que problemas sociais sejam resolvidos por passes de mágica.

Não tenho dúvidas de que muitos estudos serão feitos, muitas pesquisas de institutos especializados, projetos-piloto, iniciativas com dinheiro privado e público, até que o problema do declínio do rendimento escolar seja sanado.  E um dos sinais do protagonismo da sociedade nessa direção foram as eleições para representantes de distrito escolar, que aconteceram recentemente em muitos estados. A esmagadora maioria das posições abertas foi ocupada pelos candidatos que defenderam a autonomia dos pais na discussão do currículo e dos problemas da escola.  Os pais sabem que é seu papel zelar pela integridade da educação recebida por seus filhos.

No Brasil, políticos prometem resolver os problemas da nossa desastrosa educação, que nos acossam há décadas. Mas a sociedade civil faz pouco. Parece que esperamos que apareça algum superministro para o MEC que vai num ato mágico consertar a falência da educação com mais intervenção. Os americanos, por sua vez, nos mostram que só a sociedade pode resolver seus problemas. Políticos são coadjuvantes nesse processo, nunca os atores principais.


Problemas se resolvem com a mão no bolso

Ouvindo J.D. Vance numa entrevista, gravei uma frase porque imediatamente entendi que no Brasil ela não seria nem possível. J.D. Vance é o autor do livro bestseller The Hillbilly Elegy (Uma elegia aos caipiras – Memórias de uma cultura e uma família em crise). O livro virou um filme também de sucesso na Netflix, uma das poucas produções não-woke da rede. O livro conta a história de Vance, menino pobre nascido no submundo das Serras do Apalache, criado sem pai numa cultura imersa no vício de drogas e na pobreza sistêmica. Apesar de todas as circunstâncias de sua vida, Vance conseguiu ser bem-sucedido com a ajuda de sua avó, uma mulher que ainda mantinha os valores da velha geração de brancos apalachianos, que se resumem no apreço ao trabalho duro e à virtude moral.  Ele não só driblou o destino de seus pais, saindo do submundo, mas se formou em direito em Yale e abriu uma firma de advocacia de sucesso. Hoje ele é candidato ao Senado em Ohio pelo Partido Republicano.

Ao comentar o desastroso discurso oficial de Joe Biden no dia 30 de agosto, Vance diz ao espectador:

– Eu não posso terminar sem te mostrar como você pode usar seu cheque para mudar isso.

Na mentalidade de Vance e dos espectadores da Fox, ao observar uma crise, o cidadão também tem o direito de participar para a solução. Ninguém na audiência pensou,  “Ah, aí vem a facada...” ou “Já estão se aproveitando da minha boa vontade”. A cultura em que ela recebida é outra. O que JD Vance e sua audiência enterram foi isso:  É como se Vance estivesse dizendo:

– Não é justo impedir o povo de colocar a mão no bolso para resolver seus problemas.

O espaço aqui seria pequeno para listar todos os institutos, fundações, think-tanks, veículos de mídia de direita que funcionam com dinheiro privado. Não há um problema social americano que não seja cuidadosamente investigado por pesquisadores financiados por essas inúmeras instituições que representam os dois lados do espectro político. A esquerda não fala sozinha, porque as pessoas de bem não permitem.  Nos últimos cinco anos, por exemplo, a rede The Daily Wire, iniciada por Ben Shapiro como um jornal online e um canal para seu podcast, tornou-se um império de mídia, produzindo documentários, filmes para entretenimento, plataforma de podcasts, e virando a “casa” de muitos intelectuais independentes como Andrew Klavan, Candace Owens e Jordan Peterson. The Daily Wire é sustentado unicamente pelo público assinante e empresários de direita. Um deles é Mike Lindell – uma espécie de Luciano Hang americano. Os dois vieram de baixo e construíram uma marca personalizada para vender produtos: Hang tem um império de varejo, Lindell alguns produtos campeões de venda on-line. Os dois são muito abertos no seu apoio à direita. Lindell apoiou Trump ferrenhamente e por isso foi banido das redes sociais.

Mas as semelhanças acabam aí. Não sei se os dólares de Hang sustentam alguma causa de direita. Não se ouve o nome de Hang como promotor das raras mídias livres que temos no país. Pode ser que ele esteja financiando muitos secretamente – e me perdoe, por favor, Sr. Hang, se eu cometo uma injustiça. Mas, ao contrário de Mike Lindell, cujo nome é ouvido como apoiador efetivo de praticamente todos os podcasts e sites de direita, se o Sr. Hang apoia alguém o faz em secreto.

Não seria tempo dos oito empresários injustiçados pelo STF começarem a investir nas vozes que os defendem? Não seria tempo de pagarmos sem reclamar assinaturas das mídias de direita para que conteúdo de qualidade seja produzido? Se há uma coisa que os americanos entendem bem é disso: só se produz qualidade com dinheiro.

Fica a dica.

 


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