COALIZÃO CONSERVADORA

O preço da liberdade e o desterro dos conservadores

Paulo Briguet · 27 de Setembro de 2021 às 16:47

Lições, legados e desafios do congresso que reuniu nomes de destaque da direita brasileira em Florianópolis

“O acaso é o nome moderno do Espírito Santo”, disse Léon Bloy. Certamente não foi por simples acaso que o congresso O Preço da Liberdade, evento promovido pela Coalizão Conservadora no último dia 25, realizou-se na Praia Brava, em Florianópolis. O antigo nome da capital catarinense, como lembrou um dos principais participantes do evento, o ex-chanceler Ernesto Araújo, era Nossa Senhora do Desterro. A origem dessa devoção mariana encontra-se relatada no Novo Testamento: para fugir da perseguição de Herodes, a Sagrada Família teve que deixar sua terra e se exilar no Egito. A situação de desterro ― uma espécie de exílio interno ― serve para descrever a atual situação dos conservadores no Brasil. Perseguidos pelos Herodes do patronato político, os ativistas e intelectuais da direita nacional tentam se proteger contra os violentos golpes do sistema, enquanto se preparam para as jornadas e combates que os próximos tempos inevitavelmente vão trazer.
 

Enrico Bianco e Lucas Campos, da Coalizão Conservadora (Foto: Guto Kuerten)

O preço da liberdade é a luta. A Praia Brava, situada no Norte da Ilha de Florianópolis, simboliza bem a guerra espiritual que travamos: voltada para o mar aberto, conhecida pela força de suas ondas, não é um balneário para os fracos ou medrosos. Nessa linha, o primeiro painel reuniu três parlamentares do seletíssimo grupo conservador do Congresso Nacional: os deputados federais Carlos Jordy, Caroline De Toni e Filipe Barros. Para entrevistá-los, a Coalizão Conservadora convocou outro guerreiro: o jornalista Allan dos Santos, do Terça Livre, atualmente em desterro nos Estados Unidos, graças aos Herodes supremos. Da conversa entre os deputados conservadores, chegou-se a uma conclusão comum: se há algo positivo a extrair das traições e perseguições ocorridas nos últimos 1.000 dias, é o fato de que o joio foi separado do trigo. A população agora sabe diferenciar muito bem aqueles que realmente defendem os ideais da pátria, da família e da liberdade e os oportunistas que surfaram na onda conservadora para morrer na praia da mediocridade e da vigarice. Convém pensar muitas vezes ― talvez mil ― antes de votar em algum candidato só porque ele fez arminha com a mão. Vigiai e orai.
 

Cristian Derosa (Foto: Guto Kuerten)

O preço da liberdade é a inteligência. Sem cultivar a virtude do entendimento ― um dos sete dons do Espírito Santo ― você se tornará presa fácil para a mídia groucho-marxista brasileira, aquela que vive lançando o mesmo desafio aos incautos: “Você vai acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?” A linha de ação da extrema-imprensa consiste basicamente em bloquear a liberdade de pensamento e expressão para impedir a contemplação da realidade. Como os bombeiros do livro Fahrenheit 451 ― que, em vez de apagar incêndios, ateavam fogo ― os jornalistas da velha mídia pretendem bloquear e cancelar o debate intelectual e científico. Não por acaso ― olha aí León Bloy de novo ― o congresso da Praia Brava aconteceu um dia após a demissão do jornalista Alexandre Garcia pela CNN, por defendido o tratamento precoce contra a covid-19 em um programa chamado... Liberdade de Opinião. Em sua excelente palestra, o escritor e jornalista Cristian Derosa, do BSM, mostrou-nos uma das causas da postura groucho-marxiana da mídia e de sua guarda pretoriana, as agências de checagem: boa parte do financiamento desses órgãos de censura da informação vem da Open Society e de outras entidades globalistas.
 

Silvio Grimaldo (Foto: Guto Kuerten)

O preço da liberdade é a ação. Em sua palestra, o cientista político e diretor de conteúdo do BSM, Silvio Grimaldo, mergulhou fundo nas águas pantanosas do estamento burocrático brasileiro para mostrar a necessidade de organizar o movimento conservador com base na tradicional divisão de castas da sociedade: sacerdotal (intelectuais), político-militar (lideranças), produtora (quadros) e trabalhadora (militantes). Ao fazer a distinção clara entre conservadorismo e o governismo, Silvio aponta a necessidade de que as ações da direita brasileira tenham continuidade temporal, unidade em meio à pluralidade de agentes, intencionalidade e permanentes reavaliações. “O desafio dos conservadores é fazer com que as suas ações tenham caráter histórico, ou seja, que tenham efeito no longo prazo e perdurem para além da existência individual dos agentes.” Silvio também analisou as possibilidades abertas para o movimento conservador na atual configuração partidária, detendo-se com especial atenção no caso do PTB. A questão da criação de um partido de direita brasileiro também foi abordada no painel que reuniu os deputados estaduais catarinenses Ana Campagnolo e Jessé Lopes e o recém-empossado presidente estadual do PTB em São Paulo, empresário Otávio Fakhoury.
 

Paulo Kogos (Foto: Guto Kuerten)

O preço da liberdade é a coragem. Coragem como a do lendário Paulo Kogos, defensor do anarcocapitalismo que encontrou apoio e solidariedade entre o movimento conservador. Ele fez uma palestra-surpresa para os participantes do evento, defendendo com veemência a liberdade de expressão e a autonomia individual diante da ditadura sanitária. “Deus tem paciência com o brasileiro, pois é um povo que, apesar da malandragem, encontra caridade no contato com o próximo”, disse Kogos, numa fala que arrancou aplausos entusiasmados do público com sua combinação de inteligência, cultura e bom humor. Por falar no assunto, o evento contou com uma canja dos Hipócritas, o grupo que tem sido um oásis entre o humorismo brasileiro, resgatando a tradição de Chico Anysio, Agildo Ribeiro, Millôr Fernandes e do Casseta & Planeta.
 

Ludmila Lins Grilo (Foto: Guto Kuerten)

O preço da liberdade é a independência. Abordando o tema da crise no Judiciário brasileiro, a juíza e professora Ludmila Lins Grilo iniciou com uma constatação básica: “Nós não vivemos mais em uma democracia, porque não podemos falar sobre todos os temas”. Nesse contexto, as instituições da Justiça transformam-se em mero instrumentos de uma guerra assimétrica, em que um dos lados pode dizer tudo e usar todas as armas, enquanto o outro lado é progressivamente impedido de ter acesso aos meios de ação e expressão. “Muitos magistrados não concordam com esse estado de coisas, mas deixam de se manifestar por medo de perder o cargo. Mas isso é um risco necessário na luta pela liberdade. O que nós precisamos é de pessoas que mantenham a dignidade e caminhem de cabeça erguida mesmo diante dos ataques, dos cancelamentos e das perseguições.”
 

Bernardo Küster (Foto: Guto Kuerten)

O preço da liberdade é o autodomínio. No dia anterior ao congresso, o diretor de opinião do BSM, Bernardo Küster, foi alvo de uma matéria daquele programa que antigamente todos assistiam ― o Jornal Nacional. Motivo: a CPI da Pandemia criminosamente vazou mensagens privadas de Bernardo, colhidas no âmbito do famigerado Inquérito do Fim do Mundo, em que o jornalista fazia piadas com a expressão “Gabinete do Ódio” e trocava mensagens com críticas a João Doria, Lula e Joice Hasselmann. É bom lembrar que, em 1941, o escritor russo Alexandr Soljenítsin (1918-2008), autor de “Arquipélago Gulag” foi condenado a oito anos de trabalhos forçados na Sibéria por enviar a um amigo uma carta com alusões críticas ao ditador Josef Stálin (1878-1953). Qualquer um aproveitaria o espaço público para se defender das acusações infundadas do JN ― mas Bernardo Küster não é qualquer um. Em vez disso, ele proferiu uma palestra com o tema “A destruição da liberdade pela liberdade”. Em sua fala, Bernardo destacou que a decadência das grandes civilizações se dá quando as pessoas deixam que suas vidas sejam conduzidas pelos vícios morais. Ou, como escreveu Santo Agostinho em A Cidade de Deus: “Um homem bom, ainda que seja escravo, é livre; mas um homem mau, ainda que seja rei, é um escravo. Pois este não serve a um homem somente mas, o que é pior, a tantos senhores quantos forem seus vícios”. Alvo de homens repletos de vícios, Bernardo usou o momento de tribulação vivido pelos conservadores brasileiros para transmitir uma mensagem de esperança, fortaleza e autodomínio ao público do evento ― e a todos nós.
 

Ernesto Araújo (Foto: Guto Kuerten)


O preço da liberdade é a humildade. Durante todo o evento da Praia Brava, por várias horas seguidas, o ex-chanceler Ernesto Araújo, na primeira fileira do auditório lotado, fez inúmeras anotações em seu caderninho de capa vermelha. Quando se levantou para fazer sua palestra, o público do evento ― cerca de 200 pessoas ― levantou-se também, para saudá-lo. Deve ser um caso inédito na história do Brasil: um chefe do Itamaraty comparece ao evento de uma organização independente e relativamente pequena, sem grandes patrocinadores e nenhum vínculo oficial, e se comporta com a atenção de um estudante aplicado. Mas a palestra que ele fez não era de um estudante ― e sim de um mestre. Partindo de uma imagem simples e prosaica ― uma caixa de chocolates recebida por uma criança no aniversário ―, Ernesto descreveu com esmero a atual crise civilizatória. Por trás da caixa em que se lê “chocolates”, podem ser encontradas paçocas, bolachas de água e sal ou, pior, produtos de gosto duvidoso e com data de validade vencida. Na caixa em que se lê “estado democrático de direito”, há prisões políticas, inquéritos ilegais, vazamentos criminosos, censura, desrespeito aos direitos básicos, interferência entre poderes, eleições fraudáveis, perseguições. Na caixa em que se lê “saúde”, há vacinação obrigatória, passaporte sanitário, controle social, fim do direito de ir e vir, desrespeito à fé religiosa, proibição de tratamento médico, prisão de cidadãos comuns. Na caixa em que se lê “equilíbrio ambiental”, há fanatismo ideológico, ataques à liberdade de mercado, pseudociência, tolerância com crimes ambientais de ditaduras, desrespeito à soberania nacional. Na caixa em que se lê “governo Bolsonaro”, começam a surgir coisas que não se parecem nem um pouco com os “chocolates” prometidos na eleição de 2018 ― inclusive conservadores expulsos do governo para dar lugar a políticos que defendem a submissão à China. “As pessoas que gritam ‘Nossa bandeira jamais será vermelha’ precisam se lembrar que essa bandeira não é somente a do PT”, alertou o diplomata. “O sistema tenta manipular a popularidade do presidente Bolsonaro para destruir o conservadorismo”, complementou.

E, no entanto, o conservadorismo segue forte. E há uma razão para isso, segundo Ernesto Araújo: “Além de ser uma ponte entre o povo e o Estado, só o conservadorismo olha para o alto. Só o conservadorismo percebe um Poder acima do poder.” Não foi por acaso ― e por uma terceira voltamos a León Bloy ― que Ernesto Araújo iniciou a palestra mencionando a devoção de sua mãe à Nossa Senhora do Desterro, padroeira e nome original de Florianópolis. “Eu andei muito pelo mundo, como diplomata, e de certa forma estava sempre em um desterro”, disse Ernesto. Talvez seja esse o mesmo desterro, o mesmo exílio, a mesma ilha ao qual os conservadores estão sendo gradualmente confinados. Mas há algo que os nossos perseguidores ignoram: esse desterro nos fará encontrar com nós mesmos ― e com o Espírito que tudo move. Na cidade de Nossa Senhora do Desterro, nós aprendemos algo muito simples: a liberdade não tem preço.

Paulo Briguet é editor-chefe do BSM e esteve no congresso O Preço da Liberdade, em Florianópolis (SC).

 


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