ESTADOS UNIDOS

O povo não foi convidado para a posse de Joe Biden

Fábio Gonçalves · 20 de Janeiro de 2021 às 17:36

Na posse do novo presidente dos EUA, o rito de passagem da democracia americana serviu para esconder o abismo entre as elites e os cidadãos comuns 

O rito é a atualização simbólica de um ato fundador.

Os antigos pagãos tinham ritos para fazer o povo recordar a gênese de um bocado de coisas: do sol, da lua, do homem, do fogo, da planta medicinal, do vinho, de uma montanha, da música. O rito cristão, consumação de todos os outros, põe, dia após dia, em pleno ato, a Vida e Paixão do próprio Deus.  

A ritualística tem, portanto, o seu papel: ela relembra e reorienta, dá senso de ordem, de continuidade temporal, de sentido existencial. Por isso há também os ritos políticos.

O ato de fundação de uma sociedade guarda uma natureza mítica. Os homens envolvidos no processo, por muito que a historiografia os tente rebaixar à banalidade, tornam-se qualquer coisa imortais, supra-humanos; o que disseram os Pais Fundadores no dia decisivo ganha timbre de mandamento; seus gestos, aparentemente triviais, ganham fama de sagrados, de modo que o povo precise imitá-los, de tempos em tempos, sob pena de regressar ao caos primordial, à cizânia, à anarquia que estava posta antes de se fundar a comunidade.

No entanto, pode ser, e é muito comum, que se utilize do prestígio histórico do rito político para enfeitar com túnica, cetro e coroa um corpo social moribundo, já pela hora da morte.

Aposto que no ano da Queroneia foram celebrados em Atenas, tim-tim por tim-tim, todos os cultos em honra a Palas, a Dionísio, a Perseu e a quem mais o costume houvesse elevado à condição de santo da pólis. Decerto Roma comemorou cada um dos seus festivais cívicos, invocando os míticos ancestrais fundadores, pouco antes de Alarico devassar a Cidade.

Fez-se exatamente isso hoje, diante do Capitólio da maior nação do mundo moderno.

Impressiona a ritualística republicana da América. Há a Invocação do Reverendo, Juramentos Solenes, Rezas, Discursos, Hinos e Canções. Há a pompa militar. Há a reunião de toda a elite, os ex-presidentes, senadores, juízes da Corte Suprema. E há toda uma coreografia, uma ordem, uma precisão, um asseio. Liturgia excelente.

Hoje, na posse de Joe Biden, houve tudo isso. E toda a tônica dos discursos foi no sentido justamente de destacar a perfeição da democracia americana inaugurada em 1776 por Jefferson e outros Fathers.

Falou-se, ademais, em união, em recompor a sociedade, em retomar o diálogo.

Mas, desde o palco, na frente do Capitólio, as eminências políticas encenavam esse rito e diziam essas palavras místicas para um povo ausente, fantasmagórico. A elite falando consigo, trocando sorrisos, abraços, aplaudindo-se a si mesma.

A elite contra o povo: eis a ferida real, o lanho profundo no pescoço do corpo político que as vestes luxuosas do rito quiseram esconder.

Desde o púlpito, o novo presidente e a primeira-dama acenaram para uma plateia de poderosos, para as poucas centenas de homens e mulheres olímpicos que governam a vida de milhões e milhões, que mudam os rumos das nações, que abalam o mundo.

E talvez daqui para diante seja este o rito. Talvez, tenhamos assistido ao ato fundador de uma nova ordem americana e mundial.     


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