FÉ E VERDADE

O mundo da ciência e o fim dos contos de fada

Especial para o BSM · 16 de Maio de 2024 às 15:21 ·

Em um dos momentos mais trágicos de nosso país, estão tentando negar a possibilidade da caridade, da boa ação, do sacrifício. Mas ainda é possível acreditar na bondade humana

Por Lucas Fófano

Quem, hoje, ainda acredita no pecado? Quantos de nós não cremos que bom é aquele que não mata e não rouba? Quem nunca ouviu falar da expressão “fulano é bom pois não faz mal pra ninguém” ou “eu não preciso me confessar pois nunca matei e nunca roubei”?

Há uma divisão no pensamento do homem moderno: ele só concebe como “pecado” aquilo que vai contra o código penal e isso porque essa é a camada mais visível da realidade, a pública e material.

Mas a pergunta que deveríamos fazer é: só porque isso é o mais visível quer dizer que é o verdadeiro?

Para respondermos essa pergunta precisamos considerar duas coisas: a possibilidade fantástica e a possibilidade científica e, diante das duas, perguntarmos qual é a ‘mais’ verdadeira.

Usemos a Bíblia, por exemplo: qual livro é mais verdadeiro, o dos Números ou o de Jó? Ou então: qual descrição é mais verdadeira, o mapeamento do genoma humano por Francis Collins ou a descrição de Minas Tirith feita por Tolkien? Ou ainda: que genealogia é mais real: a da evolução do homo sapiens ou a de Aragorn, filho de Arathorn, herdeiro de Isildur? Todas as comparações que propus lidam com a primeira fase de um discurso: o poético – ou, sobre a possibilidade; a parte do discurso humano que se dirige à imaginação.

Mas nossa imaginação, hoje, é totalmente livre? Digo, como receptora, ela ainda é capaz de dar conta do discurso fantástico? Ainda somos capazes de defender castelos de papelão, enfrentar gigantes ou brincar de polícia e ladrão com pedaços de madeira? Ou será que perdemos tudo isso quando depositamos nossa confiança no discurso científico?

Sabemos que as histórias possuem a capacidade mágica de ampliar nosso horizonte de consciência. Quanto mais histórias houver na memória, mais será esse horizonte. Quanto mais histórias, maior a liberdade, pois cada possibilidade funciona como um caminho, um novo caminho aberto para minha própria vida, como bem analisou Szondi e isso porque histórias são capazes de ampliar, são ferramentas com as quais experienciamos aquilo que brotou no coração de um outro homem, maneira de viver mais de uma vida, de se maravilhar, de viver e de sonhar.

Mas o que magos, fadas e elfos têm a ver com isso? Como é que algo tão fantasioso pode falar tanto ao coração do homem? Magia! Sempre magia. É a magia da palavra do Verbo, se Ele me permite dizer assim que permite vermos Jesus Cristo carregando uma humanidade ferida, abatida, cansada e torturada por seus próprios pecados quando Sam carrega Frodo nas costas na montanha da perdição: “Vamos Sr. Frodo, eu não posso carregá-lo pelo senhor, mas posso carregar o senhor!”

É essa magia que nos transmite uma presença sensível, a presença de uma nuvem de testemunhas celestiais das quais fala São Paulo e diante das quais vivemos e morremos. Os detalhes desses contos de fadas são lendários, mas são essas lendas que possuem uma profundidade religiosa incomparável, pois não são outra coisa senão a transferência de verdades sobrenaturais reais em relatos simbólicos. O conto de fadas é a acumulação de verdades de diferentes ordens. Seu resultado é altamente sugestivo e são essas sugestões que nos fazem ver a graça de Deus através do esplendor das histórias. Tudo o que é falso sob o ponto de visto da ciência histórica ou da ciência teórica é a mais pura realidade sobrenatural. Todos os materiais fantásticos estão aqui reunidos não com o objetivo de ensinar, mas sim dispostos para criar um encanto poético, em que o coração, mais do que a mente, é seduzido pelo laço de um enorme encanto sobrenatural. Nisso consiste a ação benéfica da boa fantasia, como nos pode confirmar a Dona Nazaré, amiga do saudoso Pe. Léo.

Mas é essa a magia que estamos perdendo. Se essa arte é capaz de expandir significados, de permitir nos identificarmos, a todos nós, com algum personagem por mais diferentes que possam ser nossas vidas, por mais radicais que possam ser as experiências – se essa arte é capaz de fazer com que crianças ouçam histórias de porcos e aprendam uma lição que não seja a de que elas são animais –, a técnica científica é seu exato oposto. A possibilidade científica é o causo isolado, a experiência individual que não se aproxima em nada com outro semelhante, que não permite transposição alguma, que não deixa que em momento algum possamos ser como Frodo, ou como Sam e foi ele, o cruel matador de histórias, quem surrupiou a possibilidade fantástica, ateando fogo no imaginário ocidental. Não à toa, os orcs de O Senhor dos Anéis são elfos caídos, que passaram do mundo da arte para o mundo da técnica, da magia para o feitiço, da beleza para a feiúra.

Em nosso mudo, porém, a coisa não ocorre pela necromancia, mas pela ciência.

O discurso, de forma geral, é dividido em quatro níveis de credibilidade: 1°. o discurso poético, que lida com o possível. Ele se dirige à imaginação e para o que ela presume; 2°. o discurso retórico, que trata do verossímil. Ele trata daquilo que é mais convincente dentro de um quadro de crenças; 3°. o discurso dialético, que trata da probabilidade de algo ser verdadeiro. Um tipo de teste das crenças postas à prova; 4°. o discurso lógico-analítico, que é a demonstração da veracidade das conclusões. Mas a ciência se apossou dessa estrutura transferindo o legado da autoridade dos causos familiares para um outro grupo, mais esclarecido, mais nobre, mais iluminado: os cientistas.

Perdemos a vontade de contar histórias. Perdemos o gosto pelo causo, pela noite na calçada, pelos pés sujos de asfalto, pelo medo de entrar para beber água e não poder mais voltar para a rua. Perdemos a certeza de que a chuva existe porque a terra precisa de água quando confundiram nossa imaginação trocando os “por quês” pelos “comos”.

Sabe o que mais nós estamos perdendo com tudo isso? A possibilidade do pecado original, da criação, da queda e da redenção, da ressurreição, da transubstanciação, da morte do inocente, da culpa e do pecado. Quase perdemos a capacidade de crer, pois o caminho foi escondido de nós. Quase perdemos capacidade de mudar de vida, pois a verdade foi encoberta. Quase perdemos a capacidade de esperarmos em Deus pois a vida tem sido pintada em tons de morte quando foi empurrada para o reino da impossibilidade.

Nesse cenário estranho que vivemos hoje não é apenas o pecado que deixa de existir. Também desaparece a possibilidade da ação individual. Num dos momentos mais trágicos de nosso país, estão tentando tirar novamente a possibilidade da caridade, da boa ação, do sacrifício. Estão tentando nos vender a mentira de que apenas o governo salva! De que esse monstro cuida de nós. Estão nos tomando, mais uma vez, a possibilidade de existirem pessoas de bem na figura de cada homem comum que deu a própria vida pela salvação de um outro.

Mas tenhamos fé, ainda existem heróis.

Lucas Fófano é professor e editor literário.

 


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