NARCOTERRORISMO

O filho de José e o tráfico

Especial para o BSM · 10 de Maio de 2021 às 15:26

Roberto Motta conta uma história real sobre a vida numa favela dominada por criminosos
 

Por Roberto Motta


Maria e José moravam em uma favela – uma “comunidade” – que era, como quase todas, controlada por um grupo de narcoterrorismo – uma “facção”.

O casal vivia sua vida sob o regime de terror dos traficantes. Tiveram um filho, o menino virou um rapaz e o casal se separou. O pai foi morar em outra “comunidade”, controlada por uma “facção” diferente.

É rotina no Brasil. Vida que segue.

Um dia, o rapaz vai visitar o pai. Sentados na sala, José e o filho assistem um jogo na TV quando alguém bate na porta. São traficantes armados – “comerciantes varejistas de drogas ilícitas”, como dizem alguns intelectuais (*).

(*como Vera Malaguti Batista, em seu livro “Introdução Crítica à Criminologia Brasileira”, um texto exigido na prova de ingresso no mestrado de direito da UERJ.)

José é obrigado assistir ao martírio de seu filho. Primeiro, o rapaz é amarrado em um carro e arrastado por toda a favela. Depois é levado para uma praça. Os traficantes chamam os moradores. À vista de todos, o filho de José é assassinado com tiros de fuzil. Para que sirva de exemplo.

Morador de território de outra facção não entra aqui.

Essa é a lei daquela terra. Essa é a Constituição que vigora nas “comunidades”. Essa é a “justiça social” do narcoterrorismo, construída em cima dos pilares gêmeos da ideologia, da corrupção e do hedonismo de indivíduos anestesiados por maconha, cocaína e crack.

Uma sociedade que confunde liberdade com vício.

Os traficantes foram presos e processados. Na fase inicial do processo, o pai foi convocado como testemunha. No tribunal, José se disse incapaz de reconhecer os assassinos do seu filho. Os criminosos foram soltos.

José voltou ao gabinete do juiz, após a audiência. Ele se aproximou do promotor de justiça. Trêmulo, olhos vermelhos, voz de desespero profundo, ele disse: “Doutor, eu tive que mentir. Se falasse a verdade seria um homem morto”.

Por isso eu digo a você, cidadão comum, que vive com medo de ser vítima do crime.

Você, que anda desprotegido pelas ruas do nosso país.

Você que escuta, incrédulo, pessoas defendendo a “liberação” das drogas e chamando traficantes de vítimas: a próxima vez que você sentir o cheiro de maconha no ar, lembre-se de José.

***

O relato é de um caso real. Os nomes foram mudados.


Roberto Motta é engenheiro, executivo, autor de 3 livros, suplente de deputado federal e de vereador, ex-consultor do Banco Mundial e ex-secretário de Estado.


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