GUERRA POLÍTICA

O conservadorismo brasileiro como projeto político

Especial para o BSM · 23 de Junho de 2020 às 15:01

Em artigo especial para o BSM, Eduardo Matos de Alencar explica por que o bolsonarismo ainda não tem uma base e por que necessita de uma


Eduardo Matos de Alencar
Especial para o BSM

 

“Política eleitoral é só teatro, vocês não entenderam ainda? A verdadeira disputa pelo poder trava-se em zonas mais fundas e discretas, no controle ideológico dos órgãos da sociedade civil, do sistema judiciário, do funcionalismo público, da polícia, da mídia e da educação. O esquema comunopetista arraigou-se de tal modo, em todos esses setores, que já não pode ser desalojado nem por uma derrota eleitoral nem por um golpe militar — só por um vasto e longo processo de ‘desocupação de espaços’, que é impossível de realizar sem uma organização anti-revolucionária disciplinada, disposta a perseverar na luta por muitas décadas e decidida não a ‘derrotar’ o inimigo aqui e ali, mas a expeli-lo da vida pública para sempre. Essa organização não existe.”
(Olavo de Carvalho, 2014)



Este artigo é parte de um esforço para dar sentido inteligível a um projeto político ainda sequestrado por certa ingenuidade da parte das pessoas envolvidas naquilo que se convencionou chamar “nova direita”, ou, mais recentemente, “bolsonarismo”.

Por ingenuidade quero dizer um sentimento de fideísmo que se abateu sobre muitos após a eleição de Jair Bolsonaro, de que bastaria prestar apoio incondicional ao Presidente, atacar os inimigos de ocasião ou simplesmente apostar “nas ruas” para que o governo avançasse de fato uma agenda verdadeiramente conservadora.

Em diversos momentos, esse ímpeto revolucionário, que procurava realizar promessas de futuro messiânico como a derrota do establishment e do comunismo, o fim da corrupção e o abandono de práticas políticas pouco republicanas, engolfou um sem-número de pessoas em mobilizações e batalhas de vida ou morte que supostamente precipitariam eventos decisivos.

Esses eventos, a bem dizer, nunca chegavam a um término real, visto que faziam parte de disputas políticas bem mais complexas, marcadas por negociações, avanços e recuos, intrigas, trocas, acordos, aproximações sucessivas e outras coisas próprias da atividade de governo. O resultado final disso: o desânimo, seguido de novos rachas entre bolsonaristas e reiterados esforços de reencantamento para lutas que pareciam, estas sim, as decisivas, definitivas, terminais.

Algumas dessas arengas eram motivadas por questões reais, outras, fatalmente imaginárias. Ninguém duvida que houve de fato movimentos de boicote e conspirações reais contra o governo estabelecido e seus apoiadores. Em alguns momentos, a mobilização contra isso foi absolutamente necessária. Em outros, só terminou compondo parte das moedas de negociação de um sistema político que tem se reorganizado constantemente na base de acordos precários.

Até aqui, acreditava-se que tudo não passava de investidas para “esticar a corda”, como se estivesse se aproximando uma ruptura ou momento redentor, depois do qual não seria preciso fazer mais nada além de assistir à instauração da chamada Revolução Brasileira. Porém, a corda parecia sempre passível de ser esticada mais um pouco e novas acomodações e frustações se sucediam. Enquanto isso, aquilo que jamais chegou a ser uma base ia se enfraquecendo a olhos vistos.

O auge desse processo ocorreu durante os últimos dois meses, com a crise provocada pela pandemia, as disputas entre o Presidente e os governadores e o avanço do STF no chamado inquérito das fake news. Não me cabe aqui uma análise sobre erros e acertos de parte a parte porque isso inevitavelmente levaria a mais bate-boca sobre opinião, novas expressões de ingenuidade e declarações apaixonadas.

A questão aqui é dar início a um debate mais amplo sobre as possibilidades e limitações de construção do conservadorismo como projeto político nacional de fato, algo que dependerá, de um jeito ou de outro, da figura do Presidente, mas que só poderá agir nesse sentido se houver algo como uma base, de fato, para a ação política efetiva, possibilitando, inclusive, pensar na ação política para além de um mandato, governo e tempo de vida das personagens envolvidas. 

É claro que cumpre ter em mente que os termos utilizados aqui não descrevem essencialidades. Ainda que os inimigos insistam em ver o contrário, o bolsonarismo não existe de fato, mas como um conjunto instável de relações. Não há uma organização coesa por trás, nem mesmo unidade de pensamento e valores. Não existe uma militância doutrinada e disciplinada, nem instituições bem estabelecidas. Não se pode nem mesmo falar de um programa político consolidado. Existem, de fato, alguns pontos de ordem e coesão. Porém, no mais, o que se vê ainda é um quadro pouco coerente. 

Na procura por uma definição, talvez se pudesse dizer que o bolsonarismo hoje se resume a uma rede ou sistema frouxamente articulado, que se organiza e troca informações, recursos e tecnologias, tendo como principais polos de gravitação a figura de Jair Bolsonaro, no campo político, e do filósofo Olavo de Carvalho, no campo intelectual. No meio disso tudo, há constelações mais ou menos integradas de intermediários, isto é, políticos, intelectuais, influenciadores digitais, movimentos de rua, empresários, sacerdotes, professores, militares, policiais, representantes de entidades de classe e outras pessoas que gravitam nessa rede, com capacidade de transmissão na rede e de influenciar a ação e o pensamento de muitas outras.

Para os que conhecem o sistema minimamente por dentro, a imagem é de desordem, com momentos fugazes de convergência. Exercer governança constante sobre ele como um todo é um desafio que muitos diriam inalcançável ou cada vez mais distante. Esse sistema não funciona como o que regula a iluminação de uma casa, onde basta ligar o interruptor, para haver uma lâmpada acesa. Existem momentos em que um estímulo vindo de uma das pontas do sistema produz o resultado esperado na outra ponta. Em outros, simplesmente nada acontece.

Não é à toa que os instantes de maior convergência apareçam nos ataques a inimigos comuns. É mais do que espasmo revolucionário em operação ou necessidade política real. Agir sobre um inimigo comum é o mínimo que uma rede com identidade mais ou menos articulada é capaz de fazer. E no caso dos ataques que foram produzidos contra indivíduos isolados, a reação dessas mesmas pessoas muitas vezes funcionou como combustível para a continuidade mesma dos ataques.

Daí o ceticismo no bolsonarismo sobre a capacidade que opositores ou mesmo instituições coercitivas tem de desmobilizar a coisa toda, ou encontrar uma organização bem estabelecida. A expressão Gabinete do Ódio se transformou em motivo de piada exatamente por causa do caráter pouco organizado da coisa toda. O máximo que um inquérito como os que têm sido conduzidos no STF consegue é produzir dano sobre algum ponto específico da rede.

Acredito mesmo que até a queda do Presidente ou outro baque maior não seria o suficiente para destruir o sistema como um todo. O bolsonarismo tem elementos de cultura política pujante e resulta de um longo processo de crise do sistema político brasileiro e de quebra da hegemonia de uma cultura marcada por ação e aparelhamento da esquerda. Entretanto, a sua força é também fraqueza, na medida em que permanece enquanto programa político conservador eternamente em gérmen, pouco capaz de se desdobrar em ações reais, ocupação de espaços e avanço de uma agenda definida.

No governo, isso se reflete na falta de objetivos claros para atuar em áreas estratégicas, como educação, cultura, desenvolvimento social, saúde e mesmo segurança pública. O conservadorismo brasileiro hoje incorpora valores comuns, almeja objetivos genéricos e tem pontos de crítica forte ao status quo. Ele não sabe, porém, nem o que fazer, nem muito menos como fazer para que isso se materialize de fato.

Ora, não dá para esperar que aquilo que não foi gestado no plano intelectual e amadurecido no plano da práxis política saia da cabeça de um burocrata, deputado eleito, ministro ou até do Presidente da República. O sonho de um governo de técnicos é tolo na sua raiz quando os técnicos em questão precisam pensar para além do cumprimento de metas e regras burocráticas estabelecidas com outras finalidades que as que presentemente se procura.

Por isso, o conservadorismo reiteradamente tropeça, é incapaz de ocupar espaços de maneira efetiva, não disputa de fato. Assim, acaba cedendo terreno para forças que atuam quase que somente na base da intriga e da conquista progressiva de posições, com objetivo de administrar os complexos e ineficazes sistemas que compõem o Estado brasileiro segundo as regras estabelecidas ou simplesmente usando da máquina para adquirir recursos, prestígio e vantagens conspícuas.

O que se procura, portanto, não é uma tecnocracia isenta de política. É um projeto político reformista no sentido original da palavra. E isso não se faz da noite para o dia. E nem virá, de modo algum, da ação de um homem só. Porém, demanda uma reorganização do bolsonarismo numa outra base, e seguindo uma outra lógica, diferente da que vem até aqui produzindo muito barulho, mas pouco resultado, além de vitórias momentâneas e desgaste progressivo. 

 

O que fazer

Por muito tempo, estive entre os que viam a absoluta necessidade de disciplinamento dessa massa informe. Daí a esperança de que o partido Aliança fosse capaz de se constituir como organização moderna, burocrática, centralizada, com espaços de discussão, critérios de seleção de lideranças, metodologias para o treinamento da militância, etc. O fato de ter avançado muito pouco, entretanto, parece denotar algo para além da incompetência das pessoas alocadas para construir a organização.

Antes, parece-me haver um problema de carro adiante dos bois. O fato é que não há colheita madura ainda e o máximo que se pode esperar do Aliança por ora é uma nova corte em torno da família presidencial, para produzir novas decepções como as que se viram em 2018. Afinal, a formação de um partido que seja mais do que uma maquininha para disputar eleições, capaz realmente de se consolidar como força política, é o momento culminante de institucionalização de práticas políticas, debates, redes de lealdade, lideranças estratégicas, referências intelectuais e organizações que atuavam de maneira mais ou menos dispersa antes. Necessita, sobretudo, de acúmulo.

Mais ainda, na medida em que se institui como burocracia hierarquizada, governada por elites com interesses próprios, capaz de distribuir e angariar recursos, o partido já inicia sua vida perdendo em liberdade criativa. Ele pode alijar, portanto, uma cultura de seu elemento de vanguarda por excelência, que, se tem algo de infantil em termos de maturidade política, carrega consigo capacidade inventiva e agregadora tremenda.

Quando esse processo se consolida antes do surgimento de instituições consolidadas, a tendência é que a máquina burocrática produza resultados indesejados. Em vez de formar uma elite política sólida, torna-se propriedade de uns quantos caciques, com seus apaniguados e curralinhos. Em vez de se tornar um canal para a expressão de demandas da sociedade, que variam conforme os contextos em que o partido se estabelece, torna-se instrumento de cooptação pelo clientelismo e pela demagogia rasteira.   

Ademais, cumpre relativizar a importância de organizações partidárias no atual contexto. Partidos têm sido durante mais de um século instituições centrais em sistemas de mediação e governança que constituem o cerne da política moderna. Porém, as redes sociais instituíram uma esfera pública diferente, onde novos esquemas de mediação ainda estão se consolidando. Existe todo um mundo em gestação, que ninguém sabe dizer como funciona muito bem. Bolsonaro se elegeu sem um partido sério em 2018 e pode ser que esse tipo de fenômeno continue se disseminando na política local, exatamente por causa dessas novas relações que estão se estabelecendo.

O bolsonarismo ainda é ação difusa e descentralizada. Atualmente, persegue uma fantasmagoria, isto é, a “Revolução Brasileira”, que não se traduz numa agenda efetiva de reformas e intervenções. Porém, tem em si mesmo o gérmen de vanguarda, que associa a defesa de símbolos nacionais, a crítica permanente, a revolta contra o establishment, o uso eficaz da Internet e das redes sociais e um discurso acessível para a maior parte da população.

O objeto genérico, ao contrário do que se pode pensar, não precisa ser abandonado. A Revolução Brasileira é elemento que precisa em si mesmo de mais elaboração no seio do conservadorismo. Inclusive pelo que tem de aparentemente contraditório pelo que se entende pela palavra em círculos intelectuais limpinhos demais para entender os limites de suas próprias matrizes anglo-saxãs. Como símbolo agregador, no entanto, tem se provado útil em vários aspectos. Mas precisa de corpo, substância, processo. E tudo isso vem na forma de um projeto, que preencha o meio do caminho entre um ideal e a ação política cotidiana, para direcionar as forças dispersas do bolsonarismo em prol de objetivos comuns.

Em vez da submissão a uma máquina política centralizada, as forças intermediárias citadas neste artigo precisam evoluir nas suas preocupações, escopos de atuação e campos de interesse, mas sem perder de vista um ideal comum. É justamente na força de uma ação descentralizada, com avanços intermitentes, trocas incessantes de experiências e até o mínimo de concorrência interna, que reside seu potencial de transformação enquanto cultura propriamente dita. Enquanto todos estiverem alinhados no mesmo objetivo final, a coerência interna das ações importa muito pouco. Em breve, vou apresentar algumas ideias que os intermediários em cada campo de atuação podem ter em mente para superar os atuais impasses.

Eduardo Matos de Alencar é escritor, sociólogo e analista político. Autor do livro “De quem é o comando? — O desafio de governar uma prisão no Brasil”.

 


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