REUNIÃO MINISTERIAL

Moro, o Elo Fraco do governo Bolsonaro

Especial para o BSM · 24 de Maio de 2020 às 17:13

Só quem não conhece o mundo da gestão ou quem está mal intencionado se escandalizou com a reunião ministerial

Fabiano Zanzin

Quando assisti ao tão esperado vídeo da reunião ministerial, me deparei com algo muito comum e que vejo acontecer todo santo dia dentro das empresas. Foi uma reunião de gestão corriqueira, onde seu “CEO” principal, no caso o presidente Bolsonaro, apresentou sua insatisfação com os resultados e cobrava de seus “executivos”, no caso os ministros, os devidos resultados e respostas. Acredito que o que causa espanto em muita gente, é que em uma reunião de gestão profissionalizada, o papo é reto, direto, sem rodeios e sem politicagem, como de fato vimos ali, e acredito que muita gente esperava uma reunião politicamente correta. O mundo real da gestão não é assim. Aliás, todas as empresas que tentam fazer gestão com a politicagem a tiracolo sempre se dão mal com seus resultados.

Só quem realmente não é do mundo da gestão se escandalizou ou ficou perplexo com o conteúdo e a forma daquela reunião. Parece-me que muitos políticos — e inclusive uma parte dos jornalistas do nosso país — não sabem bem o significado da palavra gerenciamento, o que é no mínimo uma incoerência com as funções que exercem.

Pois bem, há 20 anos eu estudo profundamente o tema Liderança e Gerenciamento, já trabalhei com alguns dos melhores executivos do país e perdi as contas de quantos CEOS de empresas e líderes empresariais já treinei nesse nosso Brasil. Tive a oportunidade de trabalhar com o instituto EQUIPE que foi fundado por John Maxwell, simplesmente uma das maiores autoridades em liderança no mundo e conselheiro de vários governos — inclusive dos EUA, seu país de origem, onde auxiliou alguns dos últimos presidentes daquela nação, tais como Bush pai e Bush filho.

Aprendi com John Maxwell e depois pude confirmar na prática que numa equipe existem três tipos de executivos: o Elo Fraco, a Maçã Podre e o Catalisador.

O Elo Fraco é aquele executivo que tem muito conhecimento técnico, possui uma boa formação, de certa forma parece leal, porém não consegue transformar seu conhecimento em resultados. Isso porque para chegar ao resultado necessário acontecer é preciso desenvolver habilidades que não se aprende na faculdade, tais como liderança, relacionamento interpessoal, senso de urgência e principalmente, atitude. O Elo Fraco não é um caso para demissão, mas sim para desenvolvimento, desde que o Elo permita e tenha a humildade de ser desenvolvido e queira aprender. Na minha opinião, o Elo Fraco naquela reunião era o Sérgio Moro, que estava sendo cobrado pelo presidente por algumas providências e posturas e não estava conseguindo desempenhá-las adequadamente. A prepotência e altivez de Moro o impediram de aprender a desempenhar o papel de gestor: uma coisa é ser juiz, outra coisa é ser o ministro. É muito comum dentro das empresas ocorrerem erros como o que o presidente Bolsonaro cometeu: acreditar que o melhor vendedor da equipe pode ser o gerente de vendas. Isso quase sempre não dá certo. O que o Brasil assistiu foi um excelente juiz se transformar em um péssimo gestor (ministro). Outra característica do Elo Fraco é transferir os resultados de sua incompetência para um terceiro, ou seja, vitimizar-se e terceirizar sua responsabilidade, o que vimos em sua entrevista de desligamento.

Outro personagem comum das empresas é o executivo Maçã Podre. Sua competência é notável, ele entrega todos os resultados, joga o jogo que a empresa precisa, faz os resultados acontecerem, normalmente tem um discurso polido e coerente, sabe se colocar nos momentos certos, é politicamente correto e “parece” o executivo perfeito. Porém, seu nome é Maçã Podre por questões óbvias: seu desvio é a falta de caráter. Mais cedo ou mais tarde ele vai trair a empresa e seu CEO, e vai colocar todos da equipe contra seu líder, ou vai sair e montar uma empresa concorrente, ou de alguma forma as consequências do seu caráter vão aparecer. Eu acredito que este personagem não estava na reunião em Brasília e muito menos faz parte do governo de Bolsonaro. No cenário atual este personagem fica em São Paulo: o histórico do governador deste estado já mostrou sua voracidade em conseguir aquilo que almeja. Vide o que ele fez com seu padrinho Alckmin.

Por último, temos o Catalisador. É aquele executivo que tem competência necessária para cuidar de sua área e ainda consegue contribuir para os outros colegas, sabe se comunicar, não se preocupa muito com a opinião dos outros, é comprometido com o propósito pelo qual foi contratado, não fica fazendo jogos, seus dois principais atributos é caráter e competência. Para mim este personagem é Paulo Guedes.

Por último, me lembro de uma frase que ouvi do John Maxwell em um evento que na ocasião aconteceu em Brasília:

“Um líder não precisa ser o melhor de todos, precisa se cercar de pessoas melhores e mais competentes do que ele”.

Acredito que a intenção do presidente ao montar seu ministério foi exatamente essa, a de ter pessoas mais competentes e preparadas do que ele. Porém, o que alguns de sua equipe talvez se esqueceram é que quem comanda, dá a direção e a palavra final é o Presidente, e é assim que acontece todos os dias dentro das empresas. O Gestor emite seu parecer, dá sua opinião, gerencia os recursos, mas que tem a decisão final e o poder de decisão é o CEO.

Um CEO precisa saber exatamente tudo que acontece nos setores cruciais da empresa, precisa fazer gestão olhando para seus indicadores de desempenho, e seus executivos fazem a conexão entre suas decisões e a execução de sua estratégia junto aos departamentos.

Tirando os palavrões, vejo todos os dias reuniões como aquela acontecendo dentro das empresas, e olha que todos os dias estou dentro de uma empresa diferente. Ver o líder cobrando e esperando respostas de seus executivos faz parte de uma boa gestão de resultados.

Fabiano Zanzin é consultor empresarial e fundador do Instituto Brasileiro de Gestão e LIderança.


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