ENTREVISTA

Luciano Cunha, o herói improvável dos quadrinhos

Paulo Briguet · 10 de Outubro de 2020 às 15:18

Criador de O Doutrinador e Destro fala ao BSM sobre o sucesso de seus personagens e sobre o impacto do conservadorismo na cultura pop

“Sempre houve e sempre haverá heróis, pois enquanto houver covardia,
haverá também bravura; enquanto houver maldade, haverá também virtude;
enquanto houver mesquinhez, haverá também grandiosidade.
O mal gera o bem, assim como o inverno traz a primavera.”

(Menelaos Stephanides)

 


 


Ao contrário do que dizia Brecht, todo país precisa de heróis. Nenhuma nação pode prescindir daquelas figuras que, contra tudo e contra todos, ousam realizar o que até então parecia impossível. Nesse sentido, podemos dizer, sem medo de errar, que Luciano Cunha é um herói. Mais do que isso: ele é um herói que cria super-heróis. Esse quadrinista de 48 anos, que desenha desde os 6 e teve seu primeiro emprego aos 16 (na revista “O Menino Maluquinho”, de Ziraldo), deu vida a dois personagens tão improváveis quanto ele: O Doutrinador e Destro. No mundo da cultura pop, quase que absolutamente dominado pela esquerda, esses dois guerreiros são ícones do conservadorismo, cuja missão é combater o mal e proteger tudo aquilo que dá sentido à vida, mesmo nas condições mais adversas. O Doutrinador, criado em 2008, surgiu como história em quadrinhos, após ser recusado por 14 (!) editoras, temerosas de que o herói poderia lhes render problemas. (Se O Doutrinador tivesse RG e CPF, estaria no inquérito do Cabeça de Ovo.) Quando finalmente publicado, fez tanto sucesso que virou série e longa-metragem. Depois, surgiu Destro, um herói que luta pela liberdade numa sociedade comunista do futuro e que agora será transformado em série pela INVI Filmes, do cineasta Mauro Ventura.

 

Há algumas semanas, Luciano Cunha, enviou um exemplar de Destro para o lendário Chuck Dixon, autor do Batman nos anos 90 e 2000. A resposta foi a seguinte:


Eu amei loucamente isso!
IMPRESSIONANTE trabalho!
Ágil, inteligente e envolvente!

 

É o equivalente a um músico ser elogiado por Arvo Pärt, ou um cineasta ser elogiado por Terrence Malick. E quer saber? Eu concordo plenamente com o Dixon: Destro é sensacional.


Leia a seguir a entrevista que Luciano Cunha concedeu ao BSM:

Paulo Briguet: Como você se tornou esse herói improvável: um quadrinista conservador? Convenhamos, é um milagre.
Luciano Cunha: Foi um processo natural. Como já deixei claro em algumas entrevistas, eu já fui de esquerda. Muito de esquerda! Daqueles de usar camisa do Che e achar Cuba o máximo. Minha formação se deu em duas cadeiras de humanas, Artes e Comunicação, então é praticamente impossível você escapar da doutrinação. Mas desde 2005, com o mensalão, meu processo de “desligamento”, ou como Flavio Gordon gosta de chamar meu “momento Kronstadt” foi se acentuando. Em 2008, quando criei o Doutrinador, já era um grito contra a hipocrisia esquerdista. Todos os vilões das HQs do Doutrinador eram progressistas. O curioso é que a galera de esquerda não notou isso. Nessa época eu já lia autores conservadores, tinha descoberto Sowell e Scruton. O processo se consumou quando me tornei pai, há sete anos. Eu amadureci bastante ao ser pai e não dá para ser adulto, ter responsabilidade plena e maioridade emocional e intelectual, e defender Marx e todos os seus asseclas assassinos. Enfim, foi um processo longo e natural de emancipação e redescoberta de valores e princípios que me são muito caros hoje em dia. Espiritualmente também foi uma emancipação maravilhosa, que só me trouxe mais paz e equilíbrio.

 

Paulo Briguet: Fale sobre o processo de criação de seus dois principais personagens (até agora): Destro e Doutrinador.
Luciano Cunha: São dois momentos bem diferentes. Como mencionei, o Doutrinador foi um desabafo. Eu precisava colocar para fora toda minha revolta contra a classe política brasileira. Por isso, o personagem sempre teve muita identificação com a maioria das pessoas que tinham contato com ele, pois a maioria dos brasileiros é indignada com nossos políticos. Então, expressar aquilo era o principal. Destro é como uma evolução, a maturidade de uma ideia. Eu já me sentia realizado com o Doutrinador, sabe? Não é que não pretenda avançar com o personagem ou deixá-lo de lado, não é isso. Mas eu já tinha o adaptado para o cinema e série de TV, o filme já tinha sido indicado a prêmios, esgotado todas as edições, estreado no Japão e Coréia do Sul, enfim, eram várias conquistas para um personagem brasileiro. Mas eu queria deixar uma espécie de legado, ser um mensageiro para gerações futuras. Por isso eu dobrei a aposta com Destro. Eu acredito que essa hq tem uma missão didática. Parece presunçoso, mas é o que eu acredito: eu quero que os leitores que compraram deixem a obra para que seus filhos ou netos leiam e conheçam os horrores que o marxismo produziu no século XX e continua produzindo hoje. Não é à toa que a edição abre com os posters de todos os genocidas da esquerda. Essa é a mensagem.


 

Paulo Briguet: Como é o dia a dia de um autor de HQ?
Luciano Cunha:
Nossa! É a coisa mais normal do mundo! Rsrsrs. Na verdade, como sou editor na empresa que criei junto aos meus sócios, tenho tido pouquíssimo tempo para escrever ou desenhar. Mas geralmente escrevo à noite, depois que meus filhos dormem. Durante o dia, resolvo problemas como contato com artistas que trabalham conosco e fornecedores e cuido pessoalmente das 6 redes sociais da editora.

 

Paulo Briguet: Quais são as suas principais referências intelectuais na alta cultura e na cultura pop?
Luciano Cunha: São muitas, mas vou escolher alguns nomes. Roger Scruton, Theodore Dalrymple, Horowitz, Voegelin. Cultura pop é mais fácil: Jack Kirby, Stan Lee e Will Eisner, sempre!

 

Paulo Briguet: Como tem sido o feedback do público e da crítica? Você tem conseguido atingir o público jovem?
Luciano Cunha: Caramba, o feedback tem sido o melhor possível. Isso é muito gratificante. Todos os dias recebo dezenas de e-mails e mensagens nas nossas redes nos parabenizando pela coragem e pelo papel importante que começamos a desempenhar dentro do cenário cultural brasileiro. É tudo muito novo, certo? Não tínhamos voz, nem espaço, não tínhamos nada e agora estamos construindo isso, abrindo a clareira no mato. É complicado e perigoso, mas me dá muito prazer ao mesmo tempo. Quanto aos jovens, simplesmente 75% das pessoas que nos seguem em nossas redes têm entre 18 e 44 anos. Não é maravilhoso? É exatamente por isso que me sinto motivado: estamos contribuindo para acabar com o discurso hegemônico progressista entre nossa juventude. Isso é fundamental.

 

Paulo Briguet: Como você avalia a adaptação de O Doutrinador para os formatos de longa-metragem e minissérie?
Luciano Cunha: Sou suspeito para opinar, mas gosto muito do resultado final. Muito mesmo. Principalmente da série, onde os arcos dos personagens se tornam mais profundos por causa do tempo maior para explorar todas as camadas de cada um. Foi um projeto pioneiro em todos os sentidos.

 

 

Paulo Briguet: Fale sobre o projeto de Destro em parceria com a IVIN (produtora de filmes).
Luciano Cunha: Conheci o Mauro Ventura (da IVIN) há quase um ano e a convergência de valores, de pensamentos e energia foi instantânea. Quando contei a ele sobre o quadrinho Destro, partir para uma parceria audiovisual também foi uma ação mais do que natural. Como há muita computação gráfica no projeto, pois é uma história que se passa em 2045, não é uma coisa de fácil execução. Mas o Mauro recrutou uma equipe de extrema competência e engajadíssima e o teaser que lançamos ficou muito bonito. Tenho mostrado a parceiros internacionais e todos ficam admirados como foi feito com tão poucos recursos. Estamos com a campanha de financiamento coletivo no site da Ivin e espero o apoio de todos os conservadores que desejam ter uma série de ação com a cara do Brasil e com a bandeira de nossos valores tão bem empunhada.

 

Paulo Briguet: Você já foi patrulhado, perseguido ou “cancelado” por ser conservador?
Luciano Cunha: Totalmente. Eu vivia em todas as páginas de cultura dos jornais mainstream, todo mês tinha uma matéria sobre meus personagens e sobre a “Marvel brasileira”. Nunca mais! Rsrsrs. Engraçado, não sinto falta nenhuma disso. E explico o porquê: era tudo muito frio. Os jornalistas dificilmente entendiam do que estavam escrevendo, pouquíssimos eram especialistas em quadrinhos. E o retorno que esses cadernos me davam, em audiência e seguidores para minhas páginas, era praticamente zero. Eu conseguia medir isso facilmente pelas minhas redes sociais. Agora, que fui “cancelado” e só estou me relacionando com veículos conservadores, se dá exatamente o contrário: o retorno é imediato e caloroso, não importa o tamanho do veículo com qual eu falo. Já fiz lives com “pequenos influenciadores” que me retornaram em mais de 3 mil curtidas em minha página, logo após a live. Isso era inimaginável com os grandes jornais há dois anos. Ou seja, em que momento eu perdi alguma coisa? Nunca me senti tão abraçado.

 

 

Paulo Briguet: Quando se usa a Jornada do Herói, as possibilidades de criação se tornam incalculáveis. Você tem planos de novos heróis ou spin-offs do Destro e do Doutrinador?
Luciano Cunha: Sim, claro. Na minha atual editora, a Super Prumo, tenho 12 novos personagens, todos com um perfil “super-heroístico”. Aqueles super-heróis de verdade, sabe? Como antigamente, que traziam histórias de auto sacrifício, família, justiça e honra. São 12 propriedades intelectuais prontas para se tornar marcas de sucesso. Convido a todos para conhecer esse cosmos tão brasileiro, mas ao mesmo tempo tão universal, nas nossas redes.


Para adquirir a HQ do Destro, acesse este link.

 


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