FALA, ARTISTA

Honda, o pintor da vida como ela é

Fábio Gonçalves · 19 de Setembro de 2021 às 12:09

Uma entrevista de Fábio Gonçalves com Rodrigo Yudi Honda, cuja arte revela a surpreendente beleza no cotidiano da cidade

 


 

Comentando a obra de Homero, o crítico literário Otto Maria Carpeaux destaca que, em grande medida, a genialidade do pai dos poetas se acha na sua inimitável capacidade de elevar, de imortalizar nas alturas da grande arte, o banal, o corriqueiro.

Não que os enredos de Ilíada e Odisseia narrem trivialidades. Não obstante, quem é que vê do mesmo jeito o nascer do sol, uma das coisas mais velhas e manjadas que há no mundo, depois de ler o poeta, em inesgotável expressão de assombro contemplativo, anunciando o “despontar da aurora de róseos dedos”.

“[…] tudo parece dignificado, nobre, e não pela escolha de eufemismos, mas pelo emprego de adjetivos e comparações estereotipados. A monotonia aparente dessas repetições parece dizer-nos: vejam, a vida humana é sempre assim, é eternamente assim; e esse aspecto das coisas sub specie aeternitatis dignifica tudo, sem desfigurar jamais a verdade”.

É isso o que faz Homero.

Ao longo da história, há artistas que se notabilizaram, ao contrário, por dar forma trabalhada a eventos de altíssima importância, a personalidades nobres e badaladas.

Escrevo, por exemplo, diante de uma réplica d’A Morte de Sócrates de Jacques-Louis David, homem a que o apetite só se saciava com pinturas de Napoleões — galopantes ou coroados — e de rebeldias imensas, dessas com que transfiguram as nações e os tempos.

Há, por outro lado, aqueles que, nos passos do velho rapsodo, preferem o retrato do comum, da paisagem que está ali, diante do João e da Maria, mas que eles, estuporados pela azáfama dos dias, terminam ignorando, ou enxergando muito mal.

O Terraço do Café, de Van Gogh, está aí para todos vermos, em qualquer noite quente de qualquer cidadezinha que tenha lá seu punhado de boêmios. E dentro desse café vangoghiano, podíamos muito bem encontrar, melancólica e absorta, a mulher retratada por Hopper.   

Em resumo: nessa mesma noite, é muito possível que cruzássemos com o desesperado do Munch, mas não com a Vênus do Caravaggio — a menos que a generosidade que a beberagem nos confere nos fizesse admitir a beleza da deusa num traveco da Augusta.

Pois temos no Brasil contemporâneo essa casta de pintores do trivial, do rés-do-chão.

Há alguns meses, fiz matéria sobre Alfredo Vieira, artista mineiro que retrata como se com máquina de alta resolução paisagens do Brasil profundo, rural, quase intocado, idílico.

Agora puxo conversa com outro artista da mesma cepa: o Rodrigo Yudi Honda.

Rodrigo é meu vizinho de região, o ABCD Paulista; e é, como recomendava Tolstói, pintor de sua aldeia, que também é a minha. Daí eu e muita gente — basta ver o sucesso que faz nas redes sociais — acharmos em suas telas as nossas vidas, os nossos momentos no bairro, no colégio, no boteco, no barraco, na infância.

Honda, com efeito, tem realizado a antiga magia grega de tornar em arte de escol as paisagens, coisas e pessoas vulgares, miúdas. E faz isso, produz beleza e deslumbramento, com base em matéria-prima feia e caótica: as favelas paulistanas.

É justamente para conhecer um pouco mais sobre sua vida e obra desse artista que fizemos a entrevista que agora se segue.  

 


 

Brasil Sem Medo: Conte um pouco de sua biografia e de sua trajetória artística.

Honda: Gosto muito de desenhar desde a infância, então resolvi cursar Arquitetura e Urbanismo para aliar esse meu interesse a uma profissão socialmente vista como “séria” (preocupação de um jovem tolo). Depois de formado, atuei como arquiteto por algum tempo. Larguei a profissão principalmente por não saber trabalhar em equipe e não ter paciência com burocracias. Sem muito rumo na vida, vislumbrei na arte a possibilidade de trabalhar solitariamente e, de quebra, reencontrar minha antiga paixão pelo desenho. Buscando fundamentos técnicos e um norte para minha prática artística, passei a estudar desenho e pintura com o Maurício Takiguthi e com o Carmelo Gentil, mestres por quem tenho imensa gratidão. Então criei uma página no Facebook para mostrar meus trabalhos, até que um dia fui surpreendido com uma avalanche de novos seguidores: Uma das minhas pinturas, o “Feriado Nacional”, estava viralizando, primeiro no Reddit e depois no Facebook. Essa crescente visibilidade na internet me ajudou do ponto de vista comercial. Comecei a ganhar um dinheirinho vendendo minhas pinturas e daí fui ficando mais seguro de que seria possível “viver de arte”. E hoje estou aqui, feliz por poder pintar sossegado no fundo do meu quintal e mostrar meus trabalhos nas redes sociais. Relembrando essas coisas, acho curioso como as circunstâncias da vida foram me puxando de volta aos trilhos da minha real vocação. Já pensou se eu insistisse em ser arquiteto? Acho que já teria desabado algum prédio por aí…

 

 

BSM: Você retrata temas urbanos e, mais que isso, trivialidades da vida urbana: paisagens, produtos, personagens, situações. Por que enveredou a essa temática? Inspira-se em algum autor em especial? E como se prepara para compor suas telas?

Honda: Essa é uma pergunta que me fazem com certa frequência. Acho interessante como a iniciativa de retratar coisas cotidianas causa estranhamento nas pessoas a ponto de suscitar-lhes essa dúvida. As pessoas se acostumaram tanto com a ideia de que a arte contemporânea é extravagante, excêntrica, nonsense, incompreensível – ou seja, deslocada das experiências da vida comum –, que ser esquisito se tornou normal e ser normal se tornou esquisito… Também acontece que as pessoas costumam associar a pintura figurativa a temas rurais, bucólicos e antigos. Se eu pintasse uma cachoeira, provavelmente ninguém ficaria perguntando: “Por que você pinta cachoeiras?”. Mas se eu pinto um poste de luz com fiação exposta – algo que se vê a cada vinte metros por aqui –, as pessoas acham estranho! Eu prefiro pintar postes não por ser uma temática nobre, mas por essa ser uma visão mais compatível com alguém que vive numa cidade repleta de muros, pichações, lixo e fumaça. Retratar essas coisas é uma forma de dar sentido às circunstâncias mundanas – e às vezes indigestas – que me cercam e as quais eu não escolhi. Há o seguinte poema do Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), que, para mim, representa muito bem o sentimento de se viver numa cidade grande, sentimento esse que muito influencia meus retratos urbanos:

 O Guardador de Rebanhos – Canto VII

 

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura...

 

Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,

Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,

Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
 


 

BSM: Então você não gosta da vida urbana e só a retrata por uma espécie de aceitação dócil à circunstância que lhe foi imposta?

Honda: Apesar de eu não escolher as circunstâncias que me cercam, posso escolher o que faço dessas circunstâncias. Diante delas, abdico de muitas opiniões pessoais para poder retratar a vida o mais fidedignamente possível. Se eu pinto um monturo de lixo na calçada não é porque eu gosto de lixo, é porque isso tem um sentido simbólico que torna o cenário mais verossímil. Na arte realista, opinião é vaidade. O que tem que aparecer é o objeto retratado e não a minha opinião acerca dele. Lucian Freud dizia que “um artista deve aparecer na sua obra não mais que Deus aparece na natureza”. Sob esse prisma, abandonar o egotismo não se trata de uma “aceitação dócil”, e sim de um assertivo gesto de “renúncia de si” em nome de algo mais importante que é a verdade artística. Em outras palavras, o artista precisa ser corajosamente humilde para assumir essa verdade, e não covardemente ególatra para negá-la.



 

BSM: Você se vê enquadrado em alguma escola ou estilo?

Honda: Não me preocupo com ideários. Quando estou pintando, minha única diretriz é: “Dê o melhor de si”. Creio que essa seja a forma mais simples e honesta de se encarar o ofício, como fazem o bom engraxate e o bom ourives. Mas, analisando a posteriori, vejo que o tipo de trabalho que eu faço surge como uma resposta – consciente ou inconsciente – ao estado de coisas atual. A banalização da imagem fomentada pelas câmeras portáteis, a cansativa verborragia na arte contemporânea, o afastamento da arte das experiências da vida comum, a falta de olhar contemplativo na sociedade moderna… todas essas questões prementes acabam norteando minhas ações como artista. E, em especial, a internet é um assunto que me instiga bastante, pois ela tem sido responsável por interessantes mudanças de paradigma na sociedade. Por exemplo: você já reparou como os artistas de televisão, com toda aquela pose ensaiada, parecem ridículos e robóticos diante da espontaneidade das redes sociais? Diante dessa demanda por posturas mais autênticas, tem ocorrido uma nítida transformação na estética do entretenimento, da política, do jornalismo, do marketing, do humorismo, etc. De forma análoga, creio que a internet também induzirá transformações no campo da arte. Os artistas perceberão que não dá mais para viver em bolhas esnobes isoladas das pessoas comuns e o quanto suas empulhações rebuscadas pseudo-cults os fazem parecer patéticos e afetados. Além disso, a internet abre novas possibilidades comerciais aos artistas, que passam a não depender tanto do lobby de galerias e instituições culturais, o que tende a descentralizar o mercado da arte e diminuir o poder dos curadores e críticos. Enfim, não dá para saber se, nas próximas décadas, diante dessas novas circunstâncias, surgirá alguma linha em comum que caracterize um “movimento”, mas sem dúvidas os paradigmas da chamada “arte contemporânea” passarão por transformações irrefreáveis; e esse futuro em aberto me deixa muito animado.

 


BSM: Como tem sido a recepção do público?

Honda: Três anos atrás, eu jamais imaginaria que teria tanta gente acompanhando meus trabalhos como tenho hoje. Acho que isso se deve principalmente a essa carência das pessoas por artistas que representem experiências da vida comum. Eu não sou o melhor pintor tecnicamente, minhas pinturas não são as mais belas e bem-resolvidas, mas acho que meu trabalho conquista as pessoas por essa identificação simbólica. Não vou negar que esse apelo popular me traz vantagens do ponto de vista do “marketing”, mas não quero que isso vire uma muleta. Eu sou um pintor, e o que realmente me importa é resolver problemas técnicos e formais, mesmo que ninguém se importe com isso (e geralmente ninguém se importa mesmo!). Nesse sentido, procuro encarar o “apelo popular” como um pretexto e não como uma finalidade em si. 

BSM: Mas você aspira a outro tipo de arte? Digo: pretende pintar outros cenários, outras pessoas?

Honda: É difícil saber os temas que vão me interessar amanhã. Mas quero destacar o seguinte: o que importa não é tanto “o que” se pinta, e sim “como” se pinta. Um tema banal pode gerar um ótimo quadro enquanto um tema nobre pode resultar num quadro ruim. Ou seja, numa obra de arte, a forma – e não o assunto – é o que determina sua qualidade; e acho curioso que, em geral, o público e os próprios artistas não se dão conta disso. As pessoas, mesmo as mais habituadas às discussões artísticas, costumam se apegar às interpretações simbólicas e acreditam que o valor da arte está nisso, quando, na verdade, é a forma dada que qualifica a imagem como boa ou ruim. Por conta dessa inversão, o que se tornou muito comum nos dias de hoje são artistas muito preocupados com a qualidade do discurso e pouco – ou nada – preocupados com a qualidade da forma.


 

BSM: Onde você pretende chegar com sua arte?

Honda: Eu não caminho em frente para chegar a algum lugar. Eu caminho em frente pois é nesse movimento que acontece a vida.


Conheça as obras de Rodrigo Yudi Honda: https://www.rodrigoyudihonda.com/

 


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