TENSÃO NO ORIENTE

Ditadura chinesa, tecnologia alemã

Especial para o BSM · 18 de Julho de 2022 às 12:25

Empresas da Alemanha fornecem alta tecnologia para o regime comunista e contribuem para os planos expansionistas de Pequim. Leste Asiático pode ser a nova Ucrânia

 

Pacelli Luckwü
Especial para o BSM

 

O vídeo de Trump, à mesa com Stoltenberg, secretário-geral da OTAN, alertando para a dependência alemã do gás russo, viralizou nas redes sociais nas últimas semanas.

Nele, Trump diz que é triste que os membros da OTAN se comprometam na defesa contra a Rússia enquanto a Alemanha paga bilhões e bilhões de dólares à Rússia todos os anos.

Outro vídeo que vale a pena ser visto é de seu discurso na ONU em 2018. Em sua fala, o ex-presidente americano enfatiza que a Alemanha ficaria totalmente dependente da energia russa se não mudasse de curso imediatamente. Enquanto isso, vemos nas imagens os diplomatas alemães presentes caindo na risada em claro sinal de desprezo.

O desdém de como o governo alemão reage aos alertas de seu principal aliado militar é de chamar atenção.

Essa questão levantada pelo ex-presidente Trump já é bem conhecida. Hoje sabemos das duras consequências econômicas para a Alemanha e as consequências para a segurança de toda a OTAN com a Rússia dispondo de bilhões a mais vindos de uma Berlim sem alternativa energética.

Mas há outro ponto muito menos conhecido do grande público. Pouco conhecido até mesmo na Alemanha: são as exportações alemãs de alta tecnologia para uso militar chinês.

Pesquisas realizadas pelo jornal alemão Welt revelam que há anos os EUA tentam convencer o país europeu a limitar o fornecimento de material de potencial bélico para a China.

A China vem investindo pesado em suas forças armadas e já se configura entre as três maiores potências bélicas. E o país asiático parece não se satisfazer apenas com a disponibilidade de seu arsenal. O governo chinês tem intimidado seus vizinhos com frequência, seja com navio de guerra apontando lasers para uma embarcação de reconhecimento australiana, seja com seus caças invadindo o espaço aéreo de Taiwan, entre diversas outras demonstrações de força.

O primeiro-ministro japonês, Fumio Kishida, alertou que o Leste Asiático pode ser a Ucrânia de amanhã. Ele está certo.  Poucos que conhecem a realidade do Mar do Sul da China e do expansionismo chinês discordam. Mas Kishida pode estar mais certo do que ele mesmo pensa no que se refere ao papel da Alemanha em ambos os casos.

Alguns dos navios de guerra chineses que atormentam os mares do Pacífico operam com o motor Tipo 956 da empresa MTU de Friedrichshafen, no Bodensee, sul da Alemanha.

As tentativas americanas de barrar ou diminuir esse tipo de exportação até agora têm dado pouco resultado. A Alemanha se baseia no conceito de Bens Dual-Use, bens que podem ter função militar, mas também civil, como é o caso dos motores operados pela marinha chinesa.

E todo esse negócio parece ser muito lucrativo mesmo num momento em que temos uma China aliada da Rússia, país que está sob fortes sanções da Alemanha. Em março de 2022 a marinha chinesa encomendou dois Destroyers Tipo Luyang III.

O SIPRI, instituto de pesquisa para a paz de Estocolmo, tem aberto em seu site as tabelas de envio de materiais bélicos, ou de uso dual, da Alemanha para a marinha chinesa. É algo que ocorre regularmente. Hans-Martin Tillack, chefe de reportagem investigativa do Welt, divulgou que, segundo o SIPRI, os novos Destroyers Luyang III também dispõem do motor alemão MTU 956. Em sua reportagem, ele afirma que a empresa nunca negou as afirmações.

E não só os poderosos Destroyers chineses estão muito bem equipados com motores alemães de última geração. De acordo com o SIPRI, até o ano passado, 70 corvetas Jiangdao operavam com o motor PA6. E aqui temos mais uma empresa alemão como fornecedora regular de materiais bélicos de ponta para a China.

Quem fabrica o motor PA6 é na verdade uma firma francesa, mas que pertence à MAN, uma empresa alemã.

Para piorar toda a situação, há um tipo de motor específico, usado pelos submarinos chineses que também vêm da Alemanha. É um motor diesel-elétrico tão silencioso que os sonares americanos não o detectam.

Graças à tecnologia alemã, um submarino chinês, indetectável pela marinha dos EUA, emergiu assustadoramente próximo de um navio de guerra americano no pacífico.

Isso significa que, em caso de guerra, a Alemanha oferecerá uma vantagem sensível para os chineses contra os americanos, seus maiores protetores em termos militares.

Os EUA tentam há anos interromper essas exportações. A Alemanha faz pouco caso. Tudo está parecido demais com a situação dos alertas de Trump e do descaso alemão quanto à Rússia.

E não parece que haverá mudança de rumo, assim como não houve depois do discurso de Trump na ONU. Annalena Baerbock, ministra das Relações Exteriores da Alemanha, não dá sinais de correção de curso, considera novas restrições como desnecessárias.

A cereja do bolo é, no entanto, um assunto tangencial. E se você descobrisse que a quarta maior economia do mundo doasse 473 milhões de euros por ano para a segunda maior economia, para o fomento econômico.

É exatamente isso que ocorre. Todos os anos a Alemanha doa centenas de milhões de euros para que a China possa se desenvolver.

De que lado o governo alemão está?

 


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