O MÍNIMO

Ao mestre: breve perfil do filósofo Olavo de Carvalho

Fábio Gonçalves · 25 de Janeiro de 2022 às 14:29

Quem foi Olavo de Carvalho, homem cuja morte deixou órfã toda uma geração?

“E aqueles que por obras valerosas,
Se vão da lei da morte libertando...”

(Camões)

 

"A imortalidade é a nossa verdadeira condição e o plano da realidade no qual efetivamente existimos".

(Olavo)

 

Escrevo diante de uma réplica de A Morte de Sócrates. O sábio aceita o cálice funesto ao mesmo tempo em que aponta firmemente para sua nova morada. Em redor de seu catre, discípulos choram. Acabrunhado, Platão evita assistir ao momento fatal.

Para o aluno, a morte do mestre é causa de um tipo especial e superior de orfandade. Pois se o pai empresta a matéria com que se faz o corpo e dá o alimento com que sustentá-lo, é o mestre quem lhe anima a alma e nutre o seu espírito.

O filósofo é para o aprendiz um outro pai. Lembro-me de quando tomei as primeiras lições do Olavo. Numa noite, após a aula, sonhei que ele era um avô a me contar histórias e me ensinar cada um dos segredos da vida. Avô, pai do pai. Foi neste sonho a última vez que o abracei, grato como pupilo e como filho.

Mas quis Deus que, assim como os pais, os sábios também morressem, deixando o mundo cheio de filhos e pupilos desamparados. Pois que seja essa a lei: tal como morreu Sócrates, morreu Olavo.

No entanto é possível que os sábios morram menos que os pais. A voz do sábio não deixa de ecoar naqueles e por aqueles que lhe prestaram verdadeira atenção. Platão, mesmo o mestre falecido, meteu-o a vagar pelas ruas e casas de Atenas ensinando os cobiçosos de saber, corrigindo os enganados, emendando os arrogantes. Pelo aluno conhecemos o mestre. Em matéria espiritual, o mestre vive no discípulo — assim como o pai vive no filho, em matéria de corpo.

Infelizmente não há Platões que possam recolocar Olavo atrás de sua mesa, diante de sua infinidade de livros, a refutar e humilhar pedagogicamente os embusteiros da opinião pública nacional e internacional. Ao nosso alcance está dizer, em linhas breves e mal escritas, quem foi este homem cuja morte pôs hoje uma multidão de filhos a chorar.

***

Olavo nasceu em 1947, num outro país. Como o próprio gostava de dizer, seu nome já indica um fato central de sua biografia: ele era sobrevivente de uma era em que ainda havia escritores de popa e intelectuais honestos nesta terra que hoje só produz charlatães, arrivistas e capachos. Estava esse campinense destinado a ensinar a essa geração moribunda os remédios que lhe restituísse a saúde de décadas passadas, dos tempos em que ele nascera e crescera.

Mas antes vir à vida pública, o homem foi cumprir o que São Paulo recomendava aos Tessalonicenses: omnia autem probate, quod bonum est tenete. Examinai tudo; abraçai o que for bom. Assim Olavo se forjou intelectualmente: esteve ligado a conspirações comunistas, meteu-se em organizações iniciáticas multirreligiosas, estudou ciências tradicionais, assimilou o legado filosófico do Ocidente e do Oriente. E saiu dessa amalgama um pensador completo, capaz de explicar tudo, a todos, com a vivacidade de quem não apenas leu, mas viu e sentiu. E nos ficou o que é bom.

Na década de 80, Olavo deu lições de artes liberais e religião comparada para turmas pequenas e discretas. No decênio seguinte, veio à cena pública, e entrou no debate nacional para mudá-lo definitivamente.

Começou com a publicação de A Nova Era e a Revolução Cultural, em 1994, primeira vez que colocava em livro seus ensinamentos sobre as raízes dos frutos venenosos que estavam a adoecer o país — e o mundo. No ano seguinte, saiu sua magnum opus, O Jardim das Aflições, livro que explica as origens culturais e filosóficas da crise do mundo moderno e localiza o Brasil no quadro tétrico da destruição da civilização ocidental. Na sequência, veio seu primeiro best-seller, O Imbecil Coletivo, obra em que ele desanca os embrulhões universitários e midiáticos e consagra-se como exímio polemista e invencível debatedor. Ainda nessa época, ele nos deu Aristóteles em Nova Perspectiva, na qual se encontra possivelmente sua contribuição mais valiosa para a história do pensamento, a Teoria dos Quatro Discursos, chave interpretativa da obra aristotélica que por tabela nos vale uma gnoseologia, uma teoria da linguagem e uma história cultural.

Entrementes, Olavo se firmou como articulista em jornais e revistas de grande alcance, como O Globo, a Folha e a Bravo, se tornando, já aí, um dos intelectuais mais influentes do país. E não só pelo diferente de seu pensamento, mas também pelo apuro de sua escrita, coisa que naqueles tempos já se tornara artigo raríssimo. Em Olavo sobreviveu não só as boas ideias antigas, mas também as belas letras da língua portuguesa. Foi, inapelavelmente, o maior escritor de nossa geração.

Mas o sucesso maior começaria na década de 2000. Perseguido na academia e na imprensa, muito por sua diligência em denunciar, qual pregador no deserto, o movimento revolucionário esquerdista, em 2006, já nos EUA, para onde foi como correspondente do Jornal do Commercio, Olavo criou seu programa de rádio, o True Outspeak. Ali, com a liberdade que lhe era recusada na mídia comunista e nas panelinhas dos benpensantes, o scholar dos livros e cursos dava espaço ao comunicador popular, um dos mais bem-sucedidos da nossa história.

Nas suas apresentações, que logo caíram no gosto de jovens e adultos ávidos por um conhecimento que a escola e a universidade, por incompetência ou malandragem, lhes sonegavam, Olavo partia de acontecimentos da semana para dar aulas de religião, filosofia, sociologia, história, literatura e crítica cultural. Tudo num tom não raro humorístico e numa linguagem acessível até para os menos talentosos e mais desinformados.

Dois anos mais tarde, em 2008, aproveitando as facilidades e liberdades do mundo digital, Olavo, desde sua casa na Virgínia, iniciou o mais importante curso de filosofia que jamais houve nesse Brasil.

Mais importante pelo professor, que nunca se propôs a ser desses acadêmicos cujo maior mérito, se é que o alcançam, é inculcar nos alunos doutrinas de apostila, mas que, de outro modo, sempre se postou como um filósofo verdadeiro dando no ato da aula o modelo mesmo de como se faz filosofia. Mais importante, ainda, pela amplitude e difusão, tendo ele somado, ao longo desses anos, cerca de 20 mil estudantes — o que causa urticárias, úlceras e hemorroidas nos tais acadêmicos apostilares.

O COF, Curso Online de Filosofia, foi segundo o próprio Olavo seu maior feito intelectual e pedagógico. Ali, afirma ele, está seu legado principal, tesouro ainda pouco explorado e que há de dar preciosidades, filosóficas e artísticas, ao Brasil e ao mundo.

Apesar disso, muita gente só conhece o Olavo pelo seu estrondoso impacto no cenário político mais imediato. Na verdade, foi na década de 2010 que o professor alçou o auge da fama e da influência. Mais especificamente a partir de 2013, ano das manifestações que mais tarde culminariam no impeachment de Dilma e na eleição de Bolsonaro; ano da publicação de O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota, coletânea de artigos jornalísticos que se tornou, em disparado, o livro mais vendido do nosso filósofo.

Data dali o surgimento, no nosso país, de algo que muito vagamente se pode chamar direita política. E Olavo, porque sempre foi combatente da hegemonia esquerdista e profundo conhecedor das teses liberais e conservadoras, se transformou numa espécie de farol a quem estivesse perdido naquela barafunda das ruas, dos que, mais por instinto que por prudência, iam na contramão da horda de jovens com bandeiras vermelhas e gritos rebeldes. Olavo era quem, de longe, explicava a situação com maior lucidez. Ele e alguns de seus alunos mais antigos, que iam se destacando no interminável e quase indiscernível falatório das redes sociais.

De repente, temas até então só debatidos por ouvintes do TOS e alunos do COF ganharam as avenidas, os botecos, as salas de aula, o noticiário. Camadas as mais diversas da população estavam a falar em Foro de São Paulo, em gramscismo e Escola de Frankfurt, em tradição Ocidental, em conservadorismo e liberdade. A assim chamada direita brasileira foi ganhando forma em oposição aos inimigos apontados pelo Olavo e em favor das bandeiras que praticamente sozinho ele hasteava.

Resultou disso o movimento que tornou possibilidade e depois fato a eleição de Bolsonaro, o único político que percebeu e rapidamente aprendeu o novo coro das massas, coro sutilmente composto pelo filósofo, palavra por palavra, melodia por melodia, ao longo das duas décadas de intensa e profícua atividade intelectual.

Mas o direitismo, o bolsonarismo e o que mais esteja ligado ao bate-boca político-eleitoral é acidente e não essência da obra olaviana. Muito acima de tudo isso, estão as vidas que suas aulas transformou, os caminhos que endireitou, as almas que levou de volta à Casa de Deus. Fortuna das fortunas, esse nosso Sócrates teve a oportunidade de em vida receber justas homenagens pelos imensos benefícios a toda uma geração. Vocações foram despertadas, famílias foram construídas. E mesmo sem nenhuma pretensão religiosa, o seu exemplo, a sua personalidade e suas palavras converteram pessoas à fé em Cristo Jesus em escala hagiográfica.

O Sobrevivente combateu o bom combate, guardou a fé, e recebeu as honras da Terra. Que agora receba todas as recompensas dos Céus.

 


"Por apenas R$ 29/mês você acessa o conteúdo exclusivo do Brasil Sem Medo e financia o jornalismo sério, independente e alinhado com os seus valores. Torne-se membro assinante agora mesmo!"