GUERRA CULTURAL

Animais metafísicos: O utilitarismo mata e a filosofia moral nos traz de volta à vida

Braulia Ribeiro · 6 de Julho de 2022 às 10:17

Um ensaio sobre o papel das mulheres e da religião na guerra contra a filosofia utilitarista




O recente aborto ilegal de um bebê viável, realizado em Santa Catarina, compelido por um sistema de “justiça” que mais uma vez se revela injusto, arbitrário e inconstitucional, me dá mais uma razão para continuar trabalhando com o leitor do BSM o tema da filosofia moral. Ideias boas ou más geralmente não ficam sozinhas; são mães com muitos e muitos filhos e netos. O bom e velho utilitarismo (ou consequencialismo)  celebrado pelos economistas liberais infelizmente gerou muitos filhos horríveis nascidos sem coração nem cérebro. Esse texto inaugura uma série de três artigos que pretendem desenvolver com o leitor os caminhos da filosofia moral no século XX, baseada no excelente livro de Clare Cumhail e Rachel Wiseman, Animais Metafísicos.

Tenho dois objetivos ao abrir para o leitor essa pequena janela na história da filosofia moral.

O primeiro é provocar uma discussão sobre ética mais profunda do que o bate e bola do “certo e errado” que costumamos fazer. A diferença entre ética e moral é que, enquanto a ética se preocupa com aplicação de regras morais, a filosofia moral, também chama de metaética, ocupa-se com o porquê dos princípios de uma forma mais profunda. Em um momento como o atual, em que mudanças radicais em nossa maneira de ser sociedade batem à nossa porta, entender apenas o que fazer não é suficiente. Temos que conhecer os porquês profundos por trás de nossos questionamentos políticos. A ética utilitarista, mecânica e cruel é prima-irmã do socialismo. Temos que aprender a reconhecê-la para sermos capazes de repeli-la.  

O segundo objetivo é dar uma espiadinha no tempo em que o monopólio do discurso lógico-positivista foi quebrado por um grupo de mulheres. No tempo em que Cambridge ainda nem conferia diplomas a alunas dos sexo feminino, um grupo de filósofas em Oxford, durante e logo após a Segunda Guerra, usando sua sensibilidade feminina que as levou a desconfiar da ética estéril dos homens que dominavam a filosofia de então,  impediram que a disciplina da filosofia moral caísse para sempre na vala comum do positivismo lógico. Elas recuperaram a ideia da transcendência divina, retomando o espaço da  discussão platônica sobre o Bem e da moral cristã na academia. A história das quatro mulheres de Oxford – GEM Anscombe, Philipa Foot, Iris Murdoch e Mary Midgley – é contada por Clare Cumhail and Rachel Wiseman em seu livro.

É possível que alguns leitores atribuam o reconhecimento da contribuição das mulheres ao “feminismo”. A nossa tendência muito humana é sempre combater um extremo com o outro. O feminismo causa repulsa em mim também. Mas não se deve combater o extremo que é o feminismo com outra atitude extrema: ignorar a diferença de experiência social entre homens e mulheres. Ao ignorar a contribuição feita pelas mulheres, por serem quem são, biológica e socialmente diferentes dos homens, você corrobora o discurso woke que nega a importância da diferença de gênero e biologia. Complicado, né? Mas, texto nenhum agrada a todos e esse não pretende ser o primeiro.

No mês de março, participei em Portugal de uma conferência internacional de bioética e numa das apresentações me vi à frente de um debate sobre as medidas de tratamento do covid-19 tomadas pelo governo da Itália em 2020. Dos muitos artigos apresentados na conferência, apenas dois confrontavam as arbitrariedades políticas cometidas em nome de contenções sanitárias ao vírus. O caso da Itália é especialmente aterrador. Assim que a crise do covid-19 se agravou, o grupo responsável nacionalmente pela ética médica limitou o tratamento intensivo requerido aos pacientes graves a pessoas abaixo de 55 anos. Não se importando com o juramento de Hipócrates, ou com qualquer dever moral diante dos pacientes, a grande maioria dos médicos do país, sob as ordens governo, se recusou a tratar as pessoas que ultrapassaram a idade limite. A lógica usada por eles foi a da produtividade social. Salvariam os que tinham mais chances de produzir e servir à coletividade por mais tempo. Não sei se incluíram a sua própria classe ou se fizeram exceção para si mesmos... Essa ética condena também deficientes, incapazes, desempregados. Não sei se os médicos incluíam pessoas nessas categorias que não estavam fora da idade limite entre os que não deveriam receber tratamento, mas o fato é que segundo essa lógica todos tinham a liberdade ética para se recusar a tratar quem não fosse considerado “digno” pelo coletivo. A Itália se transformou naquele ano sombrio em um país em que a dignidade humana é definida pela noção de “produtividade coletiva”.  Milhares de pessoas morreram. A inspiração desses doutores italianos que tomaram para si o direito de decidir quem viveria e quem morreria foi o com e velho consequencialismo – orientação ética em que o bem e mal se definem em análises estatísticas da situação social e não por conceitos substantivos.  

Como foi que a dignidade humana concebida como uma marca divina comum a todos os seres humanos independentemente de status, raça, realizações, por Pico de la Mirandola, se tornou essa nefasta ética do consequencialismo?  Como o Ocidente abandonou a moral, que se refere ao Bem transcendente e a Deus para abraçar essa noção rasteira de bem e mal?  

O caminho foi longo. Talvez a raiz principal do consequencialismo tenha sido plantada pelo filósofo irlandês George Berkeley, que dizia:“(...) a principal regra moral tem que se guiar pelo bem da humanidade, e todas as nossas práticas têm que refletir esse ideal”.

Só que a ideia do bem moral para a humanidade, imaginada por Berkeley, que era além de filósofo, um bispo anglicano, era o bem baseado na ideia do bem transcendente. Berkeley, que viveu entre o final do século XVII e meados do século XVIII, não imaginava que um dia a sua regra sobre o que seria o “bem da humanidade” se esvaziaria do conceito do bem sublime, definido por Deus, e se tornaria uma consideração matemática sobre os males menores ou imediatos que poderiam assolar ou não a sociedade, transformando atos como o ato de  matar um bebê dentro do útero em um “bem”.

O extremo do consequencialismo hoje talvez seja o filósofo Peter Singer, que ficou conhecido por advogar a equivalência do valor da vida humana com a de outros animais. Dizem que ele elevou o status moral dos animais, mas o que fez foi rebaixar o status dos seres humanos. Para ele, galinhas e ratos não podem ser considerados seres inferiores e portanto com menos valor moral do que os humanos. Singer é um dos mais famosos consequencialistas de hoje, e é possível que seja ele quem inspira Leonardo Boff a criar uma teologia em que ele advoga a eliminação do ser humano para produzir o bem maior – o de salvar o planeta e toda a vida supostamente ameaçada por nós.

Foi na Inglaterra, pouco antes da segunda guerra, que a filosofia contraiu a doença que permitiria que o mundo levasse à sério a idiotia moral de Singer décadas depois. Foi através da força dos argumentos de A.J. Ayer, nas primeiras décadas do século XX, que Oxford acabou declarando para o resto do mundo com o peso de seu prestígio que a ideia do Bem e do Mal havia morrido, e que não havia como, de acordo a convincente lógica positivista, diferenciar o bem do mal na forma substantiva.

A.J. Ayer era um jovem rebelde e brilhante. Graduou-se em Oxford, sempre em guerra com a rigidez dos costumes e as tradições do lugar. Depois de formado, decidiu ir a Viena para  beber na fonte o positivismo que florescia na cidade no início do século.  A cidade ser tornou uma referência intelectual e reunia muitos filósofos extraordinários. Jovens de outras partes da Europa disputavam espaço nos cafés e salas de aula. Assim, o pensamento lógico-positivista cultivado pelo famoso “Círculo de Viena” se espalhou pelo continente. O jovem inglês A.J. Ayer em poucos meses encontrou no positivismo lógico uma maneira de se vingar metaforicamente da rigidez das tradições de seus colegas e professores de Oxford das quais se sentia vítima. Ayer foi o primeiro a aplicar a lógica de Viena à teologia moral.

O resultado de seus esforços foi a aniquilação de todo sentimento moral no altar da razão lógica. Segundo Ayer, o que não é possível de se articular em silogismos matemáticos e de ser reduzido à percepção sensorial não existe. O efeito da lógica de A.J. Ayer na filosofia foi devastador. Como não podemos afirmar o que é o Bem em termos matemáticos precisos, o Bem e o Mal não passam de emoções subjetivas. O que existe de objetivo são apenas as consequências das ações. Foi assim que nasceu o “emotivismo” que é a perspectiva moral que ainda ocupa os círculos acadêmicos. Não existe o Bem e o Mal no sentido universal ou metafísico, existe o que é bom e mau para mim, o que me faz me sentir mal – Boo! – ou o que me faz me sentir bem – Hooray!. Daí o apelido da teoria Boo-Hooray.

E foi esse ambiente intelectual, onde era estúpido e anacrônico se falar em Bem, Beleza e, pior ainda, na inspiração divina para a moral, que as quatro mulheres extraordinárias, GEM (Elizabeth) Anscombe, Philipa Foot, Iris Murdoch e Mary Midgley encontraram quando chegaram para estudar em Oxford.

Aguarde a parte dois para ver como as quatro resolveram enfrentar e establishment acadêmico masculino para ressuscitar a filosofia moral.

 


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