FILOSOFIA

Animais Metafísicos III: The Good Place e as filósofas de Oxford

Braulia Ribeiro · 4 de Agosto de 2022 às 16:39

Existe algo em comum entre o seriado da Netflix e as quatro admiráveis mulheres que mudaram a face da filosofia moral em nosso tempo

 


 

Uma das comédias mais engraçadas da Netflix é The Good Place. Em meio à aridez intelectual televisiva, o show tem uma proposta inteligente: imaginar uma versão de céu e inferno segundo a filosofia moral utilitarista. Não vou contar a história para não estragar o show de quem ainda não assistiu. Mas imagine comigo uma das cenas da primeira temporada. A protagonista (Kristen Bell), uma garota americana comum, criada numa família quebrada e indiferente, viveu sua vida de acordo com a ética do “venha a nós o vosso reino e que se dane o resto”, e de repente morre ainda jovem e se vê diante do juízo final. Diante de uma tela gigante, um burocrata gerente do Céu explica como se escolhe quem vai para o Céu ou para o Inferno.  Se você estranha a palavra burocrata, acostume-se, porque nesse universo não existe Deus, apenas burocratas organizados numa hierarquia semelhante à de um departamento do governo. Como acontece nas sociedades socialistas, mérito e caráter nada significam neste céu utilitarista. Tudo é substituído pela “virtude” da lealdade ao sistema. O chefe do departamento projeta imagens de pessoas em um caixão e exibe a respectiva contagem de efeitos positivos que as ações desempenhadas por elas ao longo de sua vida lograram. Ele explica:  

“Se vocês estão aqui é porque foram pessoas boas na Terra – mas como sabemos que vocês foram mesmo bons? Durante seu tempo na Terra cada uma de suas ações recebeu um valor positivo ou negativo de acordo com quanto ‘bem’ ou quanto ‘mal’ cada ação iniciou no universo. Cada ato praticado por você teve um efeito em cascata que cria coisas boas ou más. Quando seu tempo na Terra termina nós calculamos o valor total conforme o número de ‘bem’ ou ‘mal’ causado por seus atos”.

Esse discurso proferido no “Céu” pelo suposto anjo representa o mais próximo que a ética consequencialista pode chegar de estabelecer a ideia do Bem.  Ou seja, “Bem” é aquilo que tem repercussões práticas positivas. Essa é a ideia de bem e mal que se tornou senso comum hoje em dia. Praticamente a única ética admitida nos meios da bioética hoje em dia é a consequencialista. Apesar de muitos ainda usarem a linguagem que se refere à “dignidade humana”, este conceito fica vazio se a ideia de Deus como Criador não está presente.  

Foi esse o problema levantado por Elizabeth Anscombe contra a filosofia cultivada em Oxford em meados do século XX.  Ao mesmo tempo que o Reino Unido se mobilizava sob o comando de Churchill para enfrentar Hitler, ela e suas colegas, na época ainda alunas da graduação, descobriram que não podiam discutir os males da guerra dentro do tipo de filosofia que lhes era ensinada. Seus professores insistiam que a ideia de Bem e Mal havia morrido, e que só se podia discutir moral como uma questão de opinião – nunca em termos absolutos.

Mas quis a providência (divina? – fica a seu critério) que esses professores fossem convocados para servir na guerra.  Ficaram em Oxford apenas as poucas mulheres estudantes e alguns refugiados judeus que haviam escapado do nazismo.  Debaixo do terrível stress da guerra, com as bombas de Hitler voando sobre as cabeças dos ingleses, a Coroa perseguindo suspeitos de conspiração, comida racionada, e todos se esforçando ao máximo para ajudar as forças aliadas, as aulas em Oxford continuavam. E quanto mais o mundo desenvolvia a consciência do mal, mais cresciam as alunas em sua capacidade de refutar os “deuses” da academia de então, que tinham declarado mortos os conceitos de bem e mal objetivos.  Ajudadas pelos filósofos judeus refugiados, elas voltaram a estudar a metafísica que A. J. Ayer, J. L. Austin e outros haviam declarado morta e enterrada. Graças aos refugiados de guerra, reestabeleceu-se em Oxford o ensino de Platão, e as perguntas existenciais profundas não pareciam mais tão antiquadas. Recuperados o platonismo, o idealismo alemão e os clássicos, a filosofia deixava de ser a mera análise da eficiência lógica das sentenças para se tornar de novo a busca de respostas para a existência. A ausência das mentes brilhantes e dos lógico-positivistas permitiu a estas mulheres – Elizabeth Anscombe, Iris Murdoch, Mary Midgley e Philipa Foot –desenvolverem sua própria filosofia dentro de um escopo muito mais amplo. E assim elas desempenharam seu papel no estudo da filosofia moral na segunda metade do século XX, recuperando a noção de que sem a transcendência, o amor, a beleza e o Divino, toda a conversação sobre moral é vazia.

Voltemos ao consequencialismo e à série The Good Place. Philipa Foot, a mais conhecida das quatro filósofas, autora de muitos livros sobre filosofia moral, foi quem criou o famoso Dilema do Bonde, hoje explorado em muitas versões mais para confundir do que para esclarecer. Exemplos artificiais de situações morais específicas como o Dilema do Bonde reduzem questões complexas a um modelo simples, ajudam a isolar problemas. Foot não era cristã, era ateísta, mas é dela uma das formulações mais convincentes do problema ético que é o aborto. É uma formulação do Dilema  do Bonde que ela usa para ilustrar a questão.

Um trem avança pelos trilhos numa ravina estreita. Existe uma bifurcação à frente, e o motorista perde o freio e vê nos dois desvios um problema sério. No trilho da direita cinco pessoas seriam mortas pelo trem se ele seguisse por lá, e no outro trilho uma pessoa. Qual é a decisão moralmente mais correta? Ambas a decisões vão produzir consequências nefastas... Nessa situação a escolha parece clara, para deixar de matar cinco, o motorista tem que cometer a infelicidade de matar uma.

E se a situação fosse outra? Uma pessoa chega ao hospital com um problema mínimo. Mas na mesma hora cinco pacientes estão em estado grave e morrerão em poucas horas se não receberem um transplante de órgãos. É correto para o cirurgião extrair os órgãos do primeiro paciente para salvar os outros que precisam deles?

Qual é a diferença entre os exemplos? Nos dois casos uma pessoa morre para salvar cinco. Mas a intuição moral da maioria de nós aponta para uma diferença entre os dois casos. Apesar de a morte acontecer devido a uma ação direta nos dois casos, existe uma diferença moral entre as duas situações.

No primeiro exemplo, o condutor do bonde não tinha a intenção de matar. A morte da pessoa no trilho foi apenas uma consequência inevitável da escolha que o condutor tinha que fazer para salvar as cinco. No segundo caso, o cirurgião mata intencionalmente a primeira pessoa. Sua morte se torna o meio para o fim seja obtido. Foot faz duas distinções entre os casos, esclarecendo o que está subentendido nos exemplos. É o que ela chama de teoria do efeito-duplo: cada ação que fazemos pode ter dois efeitos, um intencionado e o outro previsto mas não intencionado. Pode parecer pouca coisa, mas não é. É essa diferença crucial de intenção que está por trás da defesa do aborto, da bomba de Hiroshima e de quase todo avanço tirânico de poderes políticos que causaram a morte de milhares ou milhões de pessoas. O fim não pode justificar os meios. No primeiro caso, não existe a intenção de matar para se obter o fim X. No segundo caso, a morte de Y é essencial para se salve X.  O caso de Hiroshima e do aborto é o segundo. A morte de inocentes acaba sendo o meio pelo qual se obtém o fim desejado – seja a rendição incondicional dos japoneses ou a “libertação do peso” que o bebê que vai ser morto representa para a mãe.

A importância dessa diferença de intencionalidade se torna ainda mais clara quando entendemos que intuímos naturalmente uma hierarquia entre direitos negativos e positivos. Os direitos negativos – o de não ter um mal causado a você – são reconhecidos como direitos naturais – e são moralmente superiores aos direitos positivos. Por exemplo, o direito à vida – de não ser morto por alguém – é superior ao direito ao voto. O primeiro é um direito negativo e o segundo, positivo. Para Philipa Foot, no cenário B, o ser humano moral reconhece o mal que é tornar a morte de um inocente um meio para um suposto bem. O bem da vida é um valor transcendente comunicado a nós pela realidade divina é um valor a ser defendido acima de outros “bens” positivos, por mais difícil que isso seja.

Na série The Good Place, Chidi, um professor de filosofia, tenta discutir o “Dilema do Bonde” com seus alunos, entre eles Michael, o burocrata/demônio, que está tentando aprender com Chidi a pensar moralmente como os humanos. Depois que Chidi apresenta a primeira versão do problema, Michael apresenta um desenho, como um trem cheio de lâminas para ensinar os humanos como atingir o resultado ideal. Para ele, esse resultado seria matar todas as seis pessoas! Chidi, furioso, faz com ele escreva no quadro cem vezes, a frase: “A vida humana é um bem” – coisa que o diabo não era capaz de intuir “naturalmente”. Risadas à parte, o fato é que muitos defensores do aborto, e do consequencialismo que prioriza o fim “positivo” – que é a eliminação do bebê – não consideram a vida como um Bem intrínseco. As frases escritas por Michael no quadro da sala de aula flutuam no vazio. Não existe como defender o Bem essencial dentro da ética consequencialista. Só em análises com as de Foot, Anscombe, Murdoch e Midgley, que apontam para realidade do que é sagrado, o Bem passa a existir como essência.

Concluo essa pequena série aqui. Nestes três artigos, procurei demonstrar como essas quatro mulheres admiráveis, dando novo vigor aos conceitos de amor, espiritualidade e fé, deram contribuições fundamentais para o cenário filosófico do Ocidente. Como estudiosa da área, eu posso afirmar com segurança ao leitor que a filosofia moral não seria a mesma coisa hoje se essas mulheres não tivessem insistido em divergir do status quo. Mas a conclusão que quero deixar não é um apelo banal para que mais mulheres se envolvam na filosofia. O que elas tinham em comum além do gênero continua nos unindo a todos os que desejamos um mundo diferente do inferno consequencialista: a fé de que existe algo além de nós.


Leia os dois primeiros artigos da série:
Animais Metafísicos I: O utilitarismo mata e a filosofia moral nos traz de volta à vida
Animais Metafísicos II: Hiroshima, Nagazaki e o Bem Substantivo

 

 

 

 


"Por apenas R$ 29/mês você acessa o conteúdo exclusivo do Brasil Sem Medo e financia o jornalismo sério, independente e alinhado com os seus valores. Torne-se membro assinante agora mesmo!"