CULTURA DA MORTE

A pequena Alta e os assassinos de toga e jaleco

Ricardo Gancz · 2 de Setembro de 2021 às 15:49

De como juízes e médicos ingleses se apoderaram do direito de vida ou morte sobre uma criança chamada Alta Fixsler


 

Querem ver como juízes se transformam em assassinos de toga? Médicos que ignoram o juramento de Hipócrates e se tornam assassinos de jaleco? Querem ver um exemplo do mal, puro e simples? Olhem para o drama da pequena guerreira Alta Fixsler e de sua família.

Alta nasceu de uma família de judeus israelenses que moram no Reino Unido desde 2014. Infelizmente, Alta nasceu prematura e sofreu sérios danos ao cérebro, ficando presa a uma cama de hospital durante seus dois anos e meia de vida e precisando de suporte para se manter viva. Ela perdeu boa parte de sua estrutura cerebral, porém ainda mantém parte do córtex, do tálamo e do cerebelo.

Alta não mostra nenhum sinal de consciência, de acordo com os médicos do hospital. Contudo, a família e o rabino que está ajudando a família juram que Alta responde aos toques de maneira diferenciada. Os médicos confirmam que ela tem espasmos após certos tratamentos e que possivelmente ela também sente dor. No caso, os médicos também dizem que são incapazes de dizer com certeza se ela sente dor e, caso ela sinta, qual é sua natureza.

O hospital em que ela está internada é controlado pela Manchester University NHS Foundation Trust. e os médicos do hospital tentaram pressionar a família para que o tratamento que mantém Alta viva fosse terminado ― ou seja, insistiram que ela deveria morrer. É claro que não falaram exatamente nesses termos. Em vez de dizer que ela deveria morrer, falaram em mudá-la para “um tratamento paliativo”. Esse tratamento paliativo, porém, não inclui os equipamentos necessários para que ela sobreviva. É o mesmo que deixá-la morrer.

Diante da negativa da família, o hospital entrou na justiça para que eles possam deixar a criança morrer, mesmo contra a vontade dos pais. Não foi a primeira vez que um hospital tenta assassinar uma criança. O Barts NHS Fundation Trust, que controla o hospital, entrou na justiça para poder suspender o tratamento e causar a morte de Tafida Raqeeb, de apenas cinco aninhos. A família, muçulmanos religiosos, no fim das contas, conseguiu uma autorização para levar a filha para a Itália, onde foi operada para que o tratamento dela continuasse dentro de casa.

Alta não teve a mesma sorte. Diante do desejo do hospital de matar sua filha, a família Fixsler disse que queria retirar a filha do país e levá-la para outro lugar onde pudesse continuar com o seu tratamento. O hospital deu um parecer contrário e entrou na justiça para impedir que os pais levassem a sua filha para continuar o tratamento em outro lugar.

O assassino de toga, verdadeiro meritríssimo, recusou o pedido da família. Os pais queriam inicialmente levá-la para os Estados Unidos e, inclusive, conseguiram apoio formal de congressistas americanos de ambos os partidos, da Casa de Representantes e do Senado. Depois, a família pediu que pudessem fazer o tratamento em Israel ou que ao menos deixassem a família levar a filha para Israel para que ela pudesse falecer e ser enterrada na Terra Santa. Até mesmo o presidente de Israel fez um apelo para que o desejo da família fosse atendido. Ainda assim, o assassino de toga recusou.

Em sua decisão, o assassino togado afirmou:

Alta tem e continuará tendo uma consciência mínima ou nula das relações familiares e sociais, habilidade mínima ou inexistente de responder aos estímulos externos de modo que ela possa receber conforto ou prazer daqueles que a amam ou do mundo à sua volta e expandir seu conhecimento do mundo.

É suficiente para mim que a dificuldade da condição de Alta, que gera uma experiência de dor contínua para ela e a deixa em um estado de perpétua escuridão e silêncio, age para superar os benefícios de mantê-la viva. Nessas circunstâncias, e depois de examinar os melhores interesses de Alta a partir de uma perspectiva ampla, envolvendo considerações médicas, emocionais, sensórias e instintivas e depois de dar o devido, mas não imutável, princípio da santidade da vida, bem como as profundas convicções religiosas dos pais, é com profunda tristeza que seja suficiente para mim que não é o melhor interesse de Alta continuar o tratamento médico que lhe sustenta a vida e é em seu melhor interesse que esse tratamento seja suspenso e que ela seja movida para um regime paliativo.

Sobre a santidade da vida, o assassino togado escreveu:

"A santidade da vida de Alta não é, dentro do contexto das leis seculares que está corte deve aplicar, absoluta. A santidade da vida pode, de acordo com cada caso, dar lugar a fatores que a contrabalancem. Em suma, a presunção a favor de tomar todas as medidas para preservar a vida, enquanto forte, é refutável”.

Finalmente, o meritríssimo disse, sem cerimônias que não poderia autorizá-la a ir para Israel, mesmo ela e os pais sendo cidadãos israelenses, pois a corte não teria como garantir que Alta iria morrer ao invés de continuar com tratamento.

A família recorreu e no apelo trouxe três pareceres de neurologistas americanos e de um israelense. Na apelação, não somente um, mas três foram os assassinos de toga que novamente negaram o pedido. Mantiveram a decisão assassina e falaram que não poderiam aceitar os pareceres dos médicos ao mesmo tempo que colocaram em dúvida se eles seriam bons ou sinceros o suficiente para a corte.

Para os três assassinos, não importa que a família e sua filha sejam israelenses e tenham a possibilidade de fazer um transporte com uma ambulância aérea e que diferentes médicos tenham dito o óbvio ― que não podem matar Alta. A corte estava decidida a recusar qualquer possibilidade que não seja a morte da pequenina.

A família apelou para a Corte de Direitos Humanos da Europa, que disse que não iria mudar a decisão e reforçaram que é melhor que a menina morra.

Os pais novamente entraram na justiça, agora, para que a filha possa morrer dentro da própria casa. A corte permitiu, desde que os assassinos de jaleco concordassem. Porém, eles se negaram e disseram que o único lugar que ela pode morrer é dentro das paredes frias da CTI do hospital ou dentro de um hospício infantil para crianças em estágio terminal da vida.

Os assassinos de toga e de jaleco se apoderaram da família e do próprio direito de viver. E todos estão calados.

Existem momentos na vida que nos vemos diante um problema que nos obriga a tomar uma decisão, não em função do acontecimento por si só e destacado de todo o seu contexto, mas sim em função do próprio contexto. Por vezes, o contexto se impõe de forma tão aguda que a decisão já não é mais sobre um caso particular e não mais pensamos o que fazer em função de um custo-benefício pontualmente limitado.

Quando isso acontece, sentimos nossa alma lacerada pelo medo das conseqüências da nossa decisão e ao mesmo tempo pela obrigação de fazê-la, pois naquele momento há um julgamento da nossa humanidade e da salvação da nossa própria alma. Mesmo diante das piores conseqüências, quando somos verdadeiramente corajosos, sentimos uma felicidade que transcende o tempo. Por um breve instante, temos a inabalável certeza do que estamos fazendo no mundo. 

Nem todos são corajosos. Alguns irão se torturar o resto da vida em face de sua covardia enquanto buscam retificar o erro da forma que podem. Outros só irão reconhecer o erro nos últimos momentos da existência nesse mundo e terão uma hercúlea tarefa de não ter um final de vida amargo. Os últimos continuarão cegos até o último suspiro, sem haver possibilidade de retificação neste mundo.

A humanidade, porém, não é feita somente de corajosos e covardes. Existem pessoas que irão lutar com todas as forças, apesar de todas as conseqüências, em prol do que há de mais desumano. Quando essas pessoas tomam uma decisão, o que está em voga é um desejo de romper com o que há de mais elevado do ser humano. Quem age assim, naquele momento, está sendo o mal encarnado.

Eis o dilema de nossa alma: como você age diante do mal?

 

 


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