VÍTIMAS DO SOCIALISMO

Os anjos assassinados do Muro de Berlim

Especial para o BSM · 11 de Agosto de 2022 às 18:24

A trágica história de duas crianças que não conseguiram atravessar o muro construído pelo regime socialista alemão

Muro de Berlim (1961-1989). No detalhe, mausoléu das crianças assassinadas


Pacelli Luckwü
Especial para o BSM

 

Leon chegou para a irmãzinha e prometeu que traria para ela um belo presente. Ele ia buscar lá do outro lado, do lado onde os brinquedos são melhores, do lado onde a generosa tia Hertha mora. Mas só se Lia não falasse nada para os pais. Era um segredinho deles.

Com seus 10 aninhos, Leon era encantado com as histórias da tia, de como as coisas eram bonitas do outro lado. Tudo muito cheio de luz e brilhante. Tudo um pouco mais barulhento, é verdade. Mas luz e barulho são sinais de vida.

Toda vez que tia Hertha ia embora, depois de uns dias de intensas e longas conversas com a mãe de Leon, ele pedia para ir com ela. Queria ver as luzes, ouvir os barulhos.

Era março de 1966. Ainda estava frio. Leon sentia falta de brincar no parque de Treptow, ao lado de casa. Adorava fazer piquenique, comer salsichas grelhadas e ver os barcos de turismo que passavam pelo rio Spree no verão.

Vez ou outra andava até o muro, ficava ao lado do parque. Ele não gostava do muro, era muito cinza. Não tinha brilho, não tinha luz e era silencioso demais.

Mas ainda faltavam três meses para o início do verão. Teria que se contentar com os curtos passeios de bicicleta com seu amigo Georg.

Georg era daqueles meninos bem resolvidos. Mais velho, treze anos, mais alto e mais forte. Gostava da companhia de Leon exatamente pra se sentir assim. E como ambos gostavam de aventuras, ficaram mais próximos do que de outros meninos.

Durante um desses breves passeios de bicicleta, margearam o muro cinza. Pararam para olhar. O muro não era legal, mas os guardas até que eram. Vez ou outra, Siegfried, um dos guardas, abria um sorrisinho e ensaiava um tchau. Fora que os meninos gostavam de ver os uniformes dos soldados. As roupas ali não eram interessantes e coloridas como as roupas da tia Hertha. Mas os uniformes eram bonitos.

As duas crianças pedalaram por mais uns trezentos metros. Leon teve uma ideia.

“Você não viu? Os guardas não fariam nada contra a gente. Somos crianças. Eles até falam com a gente.”

Georg está louco para tentar. Mas ele é o mais velho e tem que fazer o papel de responsável.

“Então tá. A gente se encontra no parque de Treptow pouco antes de escurecer e atravessa no sentido Neukölln. É mais fácil por lá. E quando a gente chegar do outro lado, sua tia Hertha vai ter que me dar algo muito legal.”

Cada um foi para sua casa.

Leon chegou para a irmãzinha e prometeu que traria para ela um belo presente. Ele ia buscar lá do outro lado, do lado onde os brinquedos são melhores, do lado onde a generosa tia Hertha mora. Mas só se Lia não falasse nada para os pais. Era um segredinho deles.

O brilho do sol foi baixando no céu, a escuridão começou a tomar conta. Era hora de sair e encontrar Georg.Marcaram perto da entrada do memorial soviético. Levavam pouco mais do que casacos e uma lanterna.

Num ponto conhecido como Grenzknick, eles começaram a travessia. Aproveitaram que estava escuro e pularam o primeiro obstáculo, uma cerca de arame entrelaçado.

Dali já dava pra Leon ver que quem estava na torre de guarda era o conhecido Siegfried, o guarda simpático. Isso o encheu de certeza que nada de mau ocorreria.

Arrastaram-se por alguns metros na areia da passagem de inspeção e os postes estavam logo na frente. Os guardas da torre dificilmente veriam eles, era uma curva, já tinha anoitecido e escuridão tomava conta.

Esperaram os guardas olhar para o outro lado e chegaram até a trincheira antiveículo. Encolheram-se ali por um tempo.

Siegfried percebeu algo. Uma sombra lá embaixo. Estalou com a boca num sorriso, piscou um olho para seu colega e apontou a Kalashnikov.

“Saiam de mãos para cima ou abrirei fogo.”

Repetiu.

Sem respostas, Siegfried puxou o gatilho de sua arma soviética e disparou quarenta e duas vezes.

Leon, no meio daquela escuridão, só queria ver as luzes e ouvir o barulho do outro lado, do lado da tia Hertha, trazer um presente pra irmãzinha Lia.

No meio daquela escuridão, ele viu o brilho do fogo da arma e o barulho dos disparos. Tudo ficou escuro novamente.


*******

 

Lothar Schleusener




Os nomes foram trocados, menos o nome do guarda. Ele é identificado na Alemanha como Siegfried B. Os meninos são Jörg e Lothar Schleusener.

Os pais das crianças foram informados que um morreu de descarga elétrica e outro morreu afogado.

A Stasi falsificou os atestados de óbito e os corpos foram cremados.

Apenas trinta anos depois é que os pais descobriram o que de fato aconteceu.

Siegfried, em julgamento trinta anos depois, não demonstrou arrependimento. Disse em juízo que queria ser um professor socialista e que, portanto, deveria estar disposto a pegar em armas e defender as fronteiras de sua pátria socialista.

Nas fronteiras entre as duas Alemanhas cerca de quarenta crianças foram alvejadas. Só no Muro de Berlim, pelo menos nove morreram.

Nós ainda temos a chance de afastar esse mal de nossas crianças.

Acompanhe o trabalho de Pacelli Luckwü no Agenda Berlim.

 


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