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Livro conta a saga de herói brasileiro na Segunda Guerra

Paulo Briguet · 12 de Setembro de 2022 às 09:35

Heróis do Castello, primeiro romance do diplomata baiano Cristiano Berbert, faz homenagem aos jovens que deram o sangue pela Pátria na luta contra os nazistas. Leia a entrevista do autor ao BSM



O Brasil precisa de heróis. O Brasil precisa de homens e mulheres que estejam dispostos a sacrificar a própria vida em nome do que é mais importante: Deus, a Pátria, a família, a liberdade. No entanto, os heróis não entram no imaginário de um país por meio da mídia, da universidade ou mesmo das obras historiográficas: eles se fixam no coração da Pátria através de personagens literárias que refletem a condição humana e os feitos realizados em comum pelo povo. Sem a imaginação literária, nunca teremos heróis de verdade. É por esse motivo que o diplomata baiano Cristiano Berbert, de 46 anos, escreveu o romance Heróis de Castello, publicado pela Giostri Editora e um dos concorrentes ao Prêmio Jabuti de 2022. Trabalhando como diplomata no Itamaraty há 22 anos, Cristiano serviu na Suíça, no Paraguai, na Polônia e hoje atua no Consulado Brasileiro em Miami, nos Estados Unidos.

O livro conta a história de André Mendonça, um herói que luta na Segunda Guerra Mundial, pilotando um dos caças que participaram da tomada do Monte Castello, o maior feito brasileiro no conflito. Naquele episódio glorioso, jovens do nosso país enfrentaram de peito aberto as metralhadoras nacional-socialistas e derramaram o próprio sangue para ajudar na libertação do mundo. Combinando aventura, romance e suspense, Heróis do Castello é uma narrativa empolgante, inspirada na saga de personagens reais, como o Tenente Frederico Gustavo dos Santos, militar baiano que foi piloto do grupo de caça da FAB (Força Aérea Brasileira) durante a Segunda Guerra e entregou a própria vida em defesa do seu país. Leia a seguir os principais trechos da entrevista que Cristiano Berbert concedeu ao editor-chefe do BSM, Paulo Briguet:   


BSM: Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes e muitos outros escritores brasileiros serviram na carreira diplomática. Você segue essa tradição?
Cristiano Berbert:
Não tenho a menor pretensão de concorrer com esses grandes escritores. Eu sou apenas um contador de histórias. Levei cerca de dois anos para escrever esse romance. O gancho narrativo surgiu em decorrência de uma das minhas obrigações como diplomata, que é a de visitar brasileiros que estão presos no exterior. Nessa função, você depara com pessoas que estão vivendo situações únicas, às vezes trágicas. Certa vez fui visitar um senhor que estava preso em um lugar horrível, uma prisão construída com contêineres. O calor externo era grande, então havia um ar-condicionado que obrigava os presos a se agasalharem. Fui conhecer esse senhor, já de uma certa idade, cumprindo uma pena que provavelmente o vai deixar na cadeia pelo resto da vida. Conversando com esse senhor pelo interfone, numa cabine como aquelas que aparecem em filmes, perguntei se ele precisava de alguma coisa. Ele me pediu que levasse alguns livros. Perguntei que tipo de livros ele apreciava, ele me respondeu que gostava de ler sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial. Mandei três livros para ele. Quando retornei à prisão, ele me agradeceu pelos livros e comentou: “Meu pai foi pracinha na Segunda Guerra. Cada livro que o sr. mandou eu li três vezes”. Ao se lembrar do pai, ele chorou, e disse: “Os americanos tomaram vários montes naquela região da Itália, mas Monte Castelo foi só do Brasil”. Aquela frase ficou na minha mente. E compreendi que o orgulho pelo heroísmo do pai era o que mantinha aquele homem vivo! A partir disso comecei a me interessar pelo tema da participação do Brasil na Segunda Guerra. Esse foi o gancho narrativo. Diferentemente da história que está no livro, esse homem não estava numa prisão polonesa, não era um preso da Lava Jato, e o pai dele havia lutado na FEB (Força Expedicionária Brasileira) e não na FAB (Força Aérea Brasileira). Alguns amigos chegaram a dizer: “Cristiano, você pode ser processado por mencionar essa construtora UDS”. Mas a construtora não existe, é ficção!


BSM: Qual é a importância de contar essa história?
Cristiano Berbert:
Muitas pessoas já arrancaram um pedaço do país – mas quantos deram um pedaço de si mesmos ao país? Então me surgiu na mente a imagem de um jovem de 19, 20 anos pilotando um avião p-47 Thunderbolt na Itália, com a missão de explodir um prédio usado pelos inimigos nazistas. Se ele jogar a bomba lá de cima, não adianta. Ele tem que descer, raspar a barriga do avião no prédio, soltar a bomba e subir. Lá no prédio estão os nazistas, armados com metralhadoras Flack, uma das armas mais eficientes da Segunda Guerra. Quando a turma entrava na nuvem de Flack, o comandante dizia pelo rádio: “Senta a pua!” E o piloto grita de volta: “Brasil!”  Isso é o heroísmo puro e simples. Aquele jovem estava dando a vida pelo seu país. Foi assim que eu resolvi contar essa história de um garoto que recebe um chamado, aprende a pilotar, entrega a própria vida, passa por muitas tribulações e sai transformado dessa experiência.


BSM: Imagino que você tenha feito um grande trabalho de pesquisa.
Cristiano Berbert:
Sim, eu pesquisei e estudei o tema. Mas lembro que Heróis do Castello é uma obra de ficção. Não tive a preocupação de fazer uma descrição histórica precisa e detalhada, até porque já existem livros sobre o tema: relatos de ex-combatentes, livros de história, o livro de crônicas de Rubem Braga. Tentei escrever um livro que agradasse o aficionado pelo tema (ou pelo menos não encontrasse muitos motivos para criticar) e ao mesmo tempo atingisse o leitor comum. Busquei transmitir a emoção que senti ao conhecer a história do “Senta a pua!”, do que foi o primeiro grupo de aviação de caça, do heroísmo, da beleza. Meu objetivo era dizer aos jovens: Nós temos que honrar o Brasil, pois houve pessoas que deram a vida por ele.


BSM: Como se deu a construção de André, personagem principal do livro?
Cristiano Berbert:
Você já foi a Salvador? Quando você chega à cidade e sai do aeroporto, passa pela Avenida dos Bambuzais. O verdadeiro nome daquela avenida é Tenente Frederico Gustavo dos Santos, um militar baiano, que foi piloto do grupo de caça e veio a morrer em uma missão. A parte física do André, os olhos verdes, o gosto por desenhar aviões na infância – tudo isso foi inspirado no Tenente Frederico. A personalidade do André vive um conflito com o pai – que representa uma outra maneira de ser. É um malandro, uma pessoa que não valoriza o país. Onesino, o tio de André, navegador de cabotagem, cujo barco é atacado pelos nazistas, tem certas características de um tio meu que vivia em Ilhéus e trabalhava no aeroporto da cidade. No começo do livro, depois da morte do tio, André precisa se decidir a parar de viver a vida do tio e seguir sua própria aventura.


BSM: A parte inicial do livro se passa em Sergipe. É interessante como a formação do herói começa no menor estado brasileiro. Isso tem um caráter simbólico?
Cristiano Berbert:
Eu fiz um amigo sergipano, André Cabral, piloto de avião e fascinado pela história da Segunda Guerra. André promoveu um simpósio em agosto, para relembrar os torpedeamentos nazistas na costa brasileira, que começaram em Sergipe. No dia 15 de agosto de 1942, o submarino nazista U-507 chegou à foz do Rio Real, que faz a divisa entre Sergipe e Bahia. Naquela noite, três navios brasileiros foram torpedeados. No dia seguinte, o submarino vai até a altura de Salvador e torpedeia mais dois navios. Em seis dias, cerca de 600 brasileiros morreram nos torpedeamentos nazistas. De onde menos se esperava, a guerra começou. As embarcações atingidas eram navios de cabotagem; os sobreviventes foram arrastados para a praia, depois de passar a noite no mar – e os cadáveres também começaram a chegar. A pedido do Ministério da Aeronáutica, o Aeroclube de Sergipe enviou os primeiros aviõezinhos civis para patrulhar a região. A guerra, para o Brasil, começa ali. E foi nesse Aeroclube que eu coloquei o meu protagonista. Dali ele parte para sua aventura como piloto na Segunda Guerra.


BSM: A sua história também faz uma ligação entre a Polônia e o Brasil, marcada pelas padroeiras dos dois países: Nossa Senhora de Tchenstorrova e Nossa Senhora Aparecida. São as Madonas Negras.
Cristiano Berbert:
No serviço diplomático, fiquei um ano e meio na Polônia. Procurei estudar sobre o país, mas são mil anos de história, uma língua diferente, um povo diferente. Mas vou te falar de uma experiência interessante que eu tive na Polônia. Assim que a gente chegou, fomos até o Santuário de Jasna Gora (que significa Montanha Translúcida). Quando entrei no santuário, senti que não tinha permissão para estar ali. Apesar de ser católico, aquele lugar é muito íntimo da alma polonesa. Se você vai à Igreja do Bonfim, em Salvador, por exemplo, você verá ex-votos (agradecimentos) de indivíduos. Lá, em Tchenstorrova, você vê placas de agradecimento por vitórias em batalhas, pela vitória do Sindicato Solidariedade, pelo fim do comunismo. Então eu percebi que ali não estavam simplesmente indivíduos orando e agradecendo; a nação toda estava naquele lugar. A nação estava ali orando. Depois, eu fiquei pensando muito no sofrimento do povo polonês, que surgiu no ano de 966, a partir da decisão de um rei de se batizar. Tiveram a monarquia, a república, a invasão nazista, o comunismo. Mas a fé na adversidade se manteve ao longo de todo o tempo. Natália, a personagem do meu livro, é a Polônia, essa mulher que passou por todos os sofrimentos e adversidades, mas guardou a fé.
 

BSM: O Papa João Paulo II era um grande devoto da Virgem Negra.
Cristiano Berbert:
Imagine o que os poloneses devem ter sentido com a eleição de um papa polonês em 1978.  Imagine a alegria desse povo. Parece que Deus ouviu as orações daquele país. O Papa João Paulo II não é um polonês ilustre, ele é um herói nacional. Para eles, o papa é o libertador. Eles foram libertados pela fé. Na longa noite que eles passaram durante o período soviético, a única mensagem que contrariava o totalitarismo era a homilia de domingo, porque o clero polonês não se curvou ao regime comunista. Quem sou para falar sobre a história da Polônia? Mas alguns elementos da identidade polonesa eu consegui entender e coloquei no livro. A personagem Natália representa isso. O André sai do Brasil para lutar pela liberdade da Europa e do mundo. Quando ele se casa com a Natália, ele se torna simbolicamente senhor da Europa. A Polônia foi o grande teatro da Segunda Guerra Mundial, onde tudo começou e onde tudo terminou. Os tanques soviéticos saíram da Polônia nos anos 90. Dos seis milhões de judeus mortos no Holocausto, três milhões eram poloneses. Durante o processo de criação do livro, buscando dicas e maneiras de escrever melhor a história, comprei e li O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell. Descobri que estava escrevendo uma jornada do herói e não sabia! O casamento de Natália e André, o conflito final de André com o pai, tudo isso está na jornada do herói. Campbell diz que o bebê só conhece a mãe, que é a terra; muitos heróis, quando sair além das muralhas de sua cidade, precisam da permissão de uma mulher para conhecer outras terras. Ao se casar com Natália na Polônia, ele conquista uma nova terra.


BSM: Por que o Brasil precisa tanto de heróis?
Cristiano Berbert:
Nossa história tem seus heróis, mas nós precisamos conhecê-la melhor. No segundo grau, eu não aprendi uma linha sobre os brasileiros que lutaram na Segunda Guerra Mundial. Nada sobre a FEB, nada sobre a FAB, nada sobre os pracinhas, nada sobre Monte Castello, nada sobre o Senta a Pua! Ninguém, ou quase ninguém, fala sobre esses heróis. Temos heróis como D. Pedro I, D. João VI, Imperatriz Leopoldina, Joaquim Nabuco... O herói se sacrifica por algo que é maior do que ele. Precisamos de bons pais e mães que se sacrifiquem por suas famílias, precisamos de gente que se sacrifique por algo, que esteja disposta a dar a própria vida em nome do que é mais importante. É assim que se constrói uma nação. Se você diz a uma criança que ela não precisa se sacrificar pelo país, ninguém vai ser herói. Por isso eu escrevi esse livro – o primeiro livro que narra a tomada de Monte Castello. Eu queria entender o que aconteceu lá. Um amigo militar então me disse: “É muito fácil de entender, Cristiano. Os alemães estavam em cima do monte, a cavaleiro, atrás das barricadas, com suas metralhadoras apontadas para o inimigo. E o brasileiro subiu, de peito aberto. O brasileiro se ajoelhava, dava um tiro e ia se esconder. E assim, aos poucos, foram subindo”. A tomada de Monte Castello é um exemplo de persistência e de sacrifício, que nós precisamos reconhecer. Mas eu tenho esperança. Uma parte da sociedade brasileira está tomando consciência da história do Brasil. Há algo autêntico e único na nossa decisão de ir à guerra. E o André representa essa decisão. Para compreender algo maior que ele, André passa por pequenas mortes e renascimentos – até descobrir a importância da Pátria. Ele passa até por um momento de desonra, mas, como faz todo herói, conquista a redenção.


O livro Heróis do Castello, de Cristiano Berbert, pode ser adquirido por este link.

 


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