DIÁRIO DE UM CRONISTA

D. Pedro e o Coração da Independência

Paulo Briguet · 29 de Agosto de 2022 às 18:16

Uma conversa entre dois amigos sobre o coração do imperador brasileiro, alvo do ódio esquerdista no Bicentenário da Independência







Participação mais do que especial:
Laudelino de Oliveira Lima

 

Um excretor de esquerda, com nome autoexplicativo, publicou neste final de semana um artigo em que afirma: “Precisa-se de um terrorista inventivo e sutil, um terrorista inteligente, que conceba uma maneira mais razoável de tratar o coração pútrido de Dom Pedro I”.

What a fuck?

Paulo Francis diria que a melhor propaganda contra um excretor de esquerda é deixá-lo falar. De fato. Mesmo assim, fiquei curioso para saber a opinião de um escritor de verdade, que estudou a vida do nosso primeiro imperador. Liguei para Laudelino de Oliveira Lima e tive com ele a seguinte conversa:

– Alô, Laudelino? Como vai, meu amigo?

– Grande Briguet! Saudades do amigo. Como estão as coisas?

– Viu o testículo sobre D. Pedro no UOL?

– Quem não viu? Aquilo é subnitrato de pó de muco intestinal puro. Lixo terrorista!

– Na época de D. Pedro, o termo “terrorista” ainda não era utilizado. Mas já havia a experiência histórica do Terror na Revolução Francesa, quando mais de 40 mil pessoas foram democraticamente guilhotinadas em alguns meses, somente em Paris. 

– É meu amigo, não se usava a palavra terrorismo, mas já usavam a expressão “Terror revolucionário”. Quando aconteceu aquela execução das Carmelitas, elas foram para guilhotina cantando o “Veni Creator”. A praça ficou em silêncio. Ouviu-se na multidão uma mulher dizer: “Se isto não é santidade, não sei o que seria”.  Pouco se fala, Briguet, mas muitos foram os convertidos naquele dia. O choque foi tão grande que as pessoas não conseguiam falar sobre o que tinham visto. Choravam. Alguns fizeram as malas e foram embora. Outros entraram para o seminário e se tornaram padres. A Prioresa, Irmã Teresa de Santo Agostinho, a última a subir para a morte, disse para seus executores: “Não é a violência que tudo pode, é o amor que tudo pode.”. Veja Paulo, até diante da barbárie do terror revolucionário, a simples mansidão daquelas freiras transformou milhares de pessoas e ainda estamos séculos depois lembrando disso. Deu tudo errado.

– O que o Pedrão acharia desse “terrorista” que quer destruir o seu coração?

– Ah, eu não tenho dúvidas que ele diria: “Molon labe”. Vem pegar saporra, mermão! Pedrão era porradeiro. Várias foram às vezes em que ele e o seu fiel amigo Chalaça, terminaram a noite envolvidos em alguma pancadaria sem que as pessoas soubessem que batiam ou apanhavam do imperador. 

– Rapaz, dessa eu não sabia.

– Recentemente descobri alguns relatos de que seu avô, d. Pedro III de Portugal, esposo de Maria I, tido como o mais capaz e idôneo, por isso apelidado de “Capacidónio”, curtia um MMA escondido do Marquês de Pombal. O DNA ali é sinistro.

– Por que os excretores de esquerda odeiam tanto assim os heróis nacionais e a memória dos feitos realizados em comum?

– É bem simples. Imagine que estamos conversando sobre futebol e eu digo que o nosso melhor time foi o Brasil da copa de 70.

– E quem discordaria?

– Esse palhaço do UOL acredita que o melhor time do mundo é o Tabajara F.C. Você lembra da escalação do Bussunda?

– Não.

– Era o Águia, Samambaia, Duplex, Pirata, Ruinzinho, Ruinzinho Gaúcho, Múmia, Penico, Wanthuyrson, Marrentinho Carioca e o Vaca.

– Hahahahaha!

– Então, esses caras da esquerda são assim. A realidade está rindo na cara deles, mas eles insistem. A realidade que se adapte. Ele quer que você concorde com a opinião dele. 

– Mas ele nunca vai conseguir que alguém concorde com isso.

– Exato, então eles começam a fazer o que o Olavão nos conta do Schopenhauer. Eles aplicam o argumentum ad hominem, o argumento contra a pessoa. Falar mal ao ponto dessa pessoa deixar de ser uma referência para você. É a única maneira de substituir o Pelé pelo Marrentinho Carioca. Sem falar que ao se afastar das realizações daquela pessoa, você afasta seu interlocutor daquilo que a fez ser uma pessoa notável. Quando você nivela apenas pelo lado humano, pode descobrir que o Pelé tinha uma vida desregrada e o Marrentinho era um pai de família exemplar. O assunto inicial era futebol e termina com a pessoa aceitando o Marrentinho como melhor. Por isso que escutamos e lemos que D. Pedro I teve muitas mulheres. Que D. João VI guardava franguinhos no bolso do casaco e que Leopoldina era uma mulher fraca. Quando isso tudo não causa o efeito esperado, eles partem para outras fases. Que pode ser desde a guilhotina, um paredão ou pedir na internet que algum terrorista ataque um coração guardado em um vidro com formol. O que não se substitui, deve ser destruído. Claro, democraticamente. Terrorismo sim, mas com sutileza.

– Ah, bom você falar da Leopoldina.  Qual foi o papel de D. Leopoldina na nossa história? Dizem que certa vez ela foi buscar o Pedrão na zona – grávida, a cavalo e debaixo de uma tempestade.

– Ah, é mais uma das lendas. Inventam um monte de coisas. Rapaz, pensa numa “muié” foda. Essa era a Leopoldina. Para começar, era uma princesa austríaca, uma Habsburgo. A sua família tinha adotado uma estratégia de não fazer guerras. Queriam resolver as coisas na maciota, na tranquilidade. Esquece esse negócio de tiro, porrada e bomba. Vamos casar nossos filhos e tudo fica bem. Só que para isso funcionar, o país tinha que produzir as melhores princesas do mundo. Leopoldina era uma Ferrari das princesas. Além de toda a formação cultural absurdamente elevada, era uma estadista pronta. Manjava de todos os parangolés do direito e da política. Ela foi preparada para ser uma esposa exemplar, cristã irretocável e uma máquina de fazer príncipes e princesas. 

– Caramba, essa que era a mulher “fraca”?

– Ela fazia outras coisas interessantes. Em Viena ela conheceu um conde chamado Dirk van Hogendorp. Era um milico holandês que foi governador da parte oriental de Java. Ficou conhecido por ser preso em 1798 ao defender os direitos dos nativos. Governou algumas cidades da Alemanha e foi embaixador de Luis Bonaparte, usurpador do trono holandês. Quando Napoleão caiu, ele era o governador de Nantes. Um cabra importante, mas que havia sumido. Você acredita que a Leopoldina estava sozinha a cavalo e caçando dentro da Floresta da Tijuca próxima do Costado do Corcovado, quando ela encontrou o conde no meio do mato?

– Rapaz, que coisa incrível. Eu não imagino como poderia ser chamada de fraca, uma mulher numa floresta fechada, sozinha, a cavalo e caçando! Mas como esse cara foi parar lá?

– Em 1816, após a queda do Napoleão, o conde se empirulitou pro Rio e adquiriu a Fazenda Novo Sião, na Floresta da Tijuca. Tinha uma casinha bacana no alto do costado do corcovado e com uma baita paisagem.

– E ficou só nisso o encontro com a Leopoldina?

– Ah, ela se apresentou e eles acharam aquilo bem inusitado. Leopoldina contou pro Pedrão que zarpou com ela para conhecer o conde. Eles conversavam por horas. Era um liberal conversando com outro liberal. Pedro queria saber sobre as guerras, a política, os países. Estiveram lá muitas vezes. Um dia, o conde foi achado morto. Morte natural. Estava todo comido pelos bichos. Coisa de floresta.

– Agora você criou para mim outra visão da Leopoldina. Eu já a admirava, mas não sabia disso.

– Além de tudo isso, era muito querida pelo povo. Atendia a todos quando saía da igreja, quando entrava e saía da Quinta. Certa vez, descobriu que um funcionário da Quinta estava doente. Apareceu na casa dele com o médico da corte, comida e tudo o mais que fosse possível para ajudá-lo e à família. Quando ela ficou doente e morreu os diplomatas de vários países relataram que nunca tinham visto tamanha comoção na cidade. As procissões eram enormes e as pessoas choravam copiosamente. 

– É verdade que D. Pedro viu a imagem de Nossa Senhora Aparecida durante o caminho para o Ipiranga?

Sim, ele esteve em Aparecida no dia 22 de agosto de 1822. Na época, a santa já era famosa. Está registrado que ele se prostrou em plena oração, pedindo a intercessão de Nossa Senhora da Conceição pelo apaziguamento da política e pelo bem do Brasil. Foi nesse momento que ele prometeu decretá-la como a padroeira do Brasil. Não deu outra. A Independência veio duas semanas depois. O Pedrão foi aclamado Imperador no dia do seu aniversário, 12 de outubro, que também passou a ser o dia da grande festa da Padroeira do Brasil. Seu filho, Pedro II, esteve na igreja por duas vezes com a imperatriz Teresa Cristina e rezou diante da santa. A princesa Isabel e o Conde D’Eu também estiveram lá e com outra demanda. Eles não conseguiam ter filhos. Fizeram uma promessa. Deixaram um manto com vinte e um brilhantes que representavam as províncias e a capital do Brasil. Quando voltaram, já tinham três filhos. Levaram uma coroa feita especialmente para a santa, com 300 gramas de ouro 24 quilates e cravejadas de brilhantes. 

– Que interessante. E gosto tanto desses temas que até esqueci do que estávamos falando.

– Do terrorista do UOL!

– Ah, é isso mesmo.

– Sabe, Briguet, que eu consigo ver uma relação entre as Carmelitas, o terrorista e Aparecida?

– Caramba, agora conta isso!

– Veja, os pescadores acharam a imagem da santa no rio Paraíba em 1717. Um rio enorme, largo e de águas turvas. Eu, como escritor, não tenho dúvidas que aquilo foi um ato de destruição da santinha. Vandalismo. A imagem estava escura, o que poderia ser por conta da água ou de ter sido queimada. Estava até sem a cabeça, achada mais adiante. Imagine a cena: alguém pegou a santa, tacou fogo, se divertiu, arrancou a cabeça e jogou tudo dentro do rio. Se levantou e foi embora com o peito aberto e cabelos balançando ao vento, desfrutando o sabor da vitória. O que aconteceu a seguir? Pescadores estavam sofrendo para conseguir um peixe, acharam a santa. Logo a seguir pegaram mais peixe do que o barco suportava. Colocaram a santa na casa de um dos pescadores. Todos apareciam lá para pedir graças. Construíram uma capelinha, uma igreja, uma cidade e hoje é a Padroeira do Brasil. O que diria hoje o bocó-de-mola que a jogou no rio?

– Verdade. Mal sabia ele que estava ajudando a colocar mais uma pedra no murinho resistente do catolicismo. 

– Veja, Cristo é o maior exemplo de vitória no que parecia uma derrota. A santinha também. As Carmelitas também. Então esse retardadE (tem que respeitar o gênero) não sabe o perigo do que ele propôs. Digamos que alguém chegue lá e dê uma marretada no vidro. Voaria coração e formol para todos os lados. Seria um ato que atingiria os corações de milhões de pessoas. 

– É, meu amigo, as consequências seriam imprevisíveis. 

– Mas não se preocupe. Ele nunca fará nada disso, Briguet. São todos covardes. Veja que ele nem se propôs a fazer. Foi procurar quem o fizesse. Na verdade, como/// disse antes, é tudo inveja. Acho que o que ele queria mesmo era uma exposição com a fimose do Stalin. Estaria lá de cócoras e beijando o pé da mesa.  

– Hahaha! Essa foi boa. Mas e o Pedrão?

– Pedro nasceu sob a ameaça napoleônica na Europa. Era imparável. Adorava levar os cavalos até a sua velocidade máxima. Estou em dúvida agora entre 27 e 36 tombos que ele levou. Se bem que a contagem de 36 inclui as carruagens capotadas. Ele entrou no mato com uns amigos militares e ficaram estupefatos com a paisagem no topo do Corcovado. Voltou lá e deixou um pequeno sofá para usar quando fosse. Ele mantém o recorde de travessia a cavalo entre o Rio de janeiro e São Paulo. Aprendeu capoeira, o ofício de ferreiro e marcenaria. Chegou a parar sua carruagem numa estrada para trocar a roda da carroça de outra pessoa. Esse mesmo cara produziu duas constituições que foram as mais longevas do Brasil e de Portugal. Participou de muitas batalhas. Libertou dois países. Recebeu o rei do Havaí no Rio de janeiro. Colocou um filho no trono do império do Brasil e a filha no trono de Portugal. Recusou a coroa do reino da Grécia e a da Espanha por três vezes. Compôs o nosso hino e o português também. Lutou nas trincheiras da cidade do Porto que ao seu lado, resistiu, sangrou e passou fome. Morrendo, pediu à imperatriz que seu coração ficasse junto àquele povo e seu pedido foi atendido. Seu médico e amigo, um baiano mulato, doutor Tavares, registrou cerca de dois litros de líquidos num pulmão e a quase inoperância do outro. O coração já estava enorme. Fez tudo o que fez, com enorme sacrifício pessoal e material. Um gigante de pouco mais que trinta anos.

– E que agora nos visita após tanto tempo.

– Pois é, Paulo. Esse gigante teve a sua educação iniciada por D. João aos seis anos de idade. Nessa época, ele morava com a avó em Queluz. Teve três amas de leite e enxugava os 6 seios. O primeiro tutor de D. Pedro foi José Monteiro da Rocha, vice-reitor da Universidade de Coimbra, indicado por Domingos Agostinho Vandelli, médico e conselheiro de D. João VI. Ao falecer em 1819, Vandelli deixou sua imensa biblioteca para D. Pedro. Vandelli chegara a Portugal pelas mãos do Marquês de Pombal para reformar a educação portuguesa – e seu principal discípulo era José Bonifácio. A filha de Bonifácio (Carlota Emília), casou-se  com o filho de Vandelli, Alexandre Antônio. E Alexandre Antônio viria a ser professor de botânica e ciências sociais de D. Pedro II."

– D. João VI também é uma figura histórica muito injustiçada.

– Se é! D. João pode ser comparado a Enéias, o herói da Eneida de Virgílio. Acompanhado da esposa (que desaparece), Enéias foi o sobrevivente de Troia que carregou o pai nas costas e o filhos pelas mãos para fundar um novo império após a derrota para os gregos. Criou as condições para tal e deixou a cargo do filho e seus ascendentes que fundaram Roma, que depois retornaram a Tróia. D. João levava a esposa que o deixara, o filho e a mãe (no colo), doente após a invasão de Portugal. Criou as condições para a fundação de um novo império conduzido pelos seus ascendentes.

– E Pedro já estava lá – lendo justamente a Eneida!

– Eugène Garay de Monglave escreve sobre d. Pedro, aos 9 anos de idade, durante a travessia do Atlântico: “O príncipe não demonstrou medo nem preocupação. Passava os dias  misturado aos oficiais e guarda marinhas,  participando das manobras de bordo e dos cálculos de longitude. Podia ser encontrado ao  sentado ao pé do mastro principal, lendo Eneida no original latino. Era visto com livros todos os dias”. Ao chegar, Pedro tocou os pés em solo brasileiro no bairro da Ribeira, Cidade Baixa de Salvador. Festa na cidade. A família real seguiu em uma carruagem até a Sé. Tocaram todos os sinos das igrejas e celebraram um Te Deum em ação de graças pela viagem. Monglave continua:D. João e o filho d. Pedro visitam Itaparica. Ficaram presos por conta de um vento contrário. Dormiram na casa de um ilhéu. Pedro e Miguel eram muito ativos fisicamente: perseguiam cavalos pelas matas, por horas, climas e horários diversos”.

Há algum fundamento em chamar D. Pedro de racista, senhor de escravos e autoritário?

Em 1821, um ano antes da Independência, D. Pedro editou decreto que fundamentava as bases de liberdade individual das “pessoas livres”. Ninguém poderia ser preso sem emissão de ordem escrita por um juiz, a não ser em caso de flagrante delito. Versava também sobre a impossibilidade de  prisão sem culpa formada e exigia que um processo fosse resolvido em 48 horas. Era proibido o uso de correntes, algemas e grilhões para homens ainda não julgados. D. Pedro também mandou publicar um panfleto sob  pseudônimo de Sacristão da Freguesia de S. João de Itaboray, no qual reclama dos que lhe dão atributos de divindade e diz:Eu sei que meu sangue é da mesma cor que o dos negros”. Aos que atribuíram a frase uma mera propaganda para obter a simpatia dos negros, lembro que quase todos os negros eram analfabetos na época. Com o pseudônimo de “O Filantropo”, D. Pedro publicou no jornal “O espelho” um texto pedindo pelo fim da escravidão.

– E o que aconteceu quando ele deixou o Brasil para ir lutar em Portugal?

– D. Pedro se despediu dos filhos que ainda dormiam sabendo que nunca mais os veria. Foi tomado de tal emoção no berço de d. Pedro II, que saiu carregado do quarto. Uma multidão de negros cercou o bote que levava D. Pedro. Não queriam que ele fosse embora e o tinham como um defensor.

– Meu amigo, sabe o que fiquei pensando? Pelo menos o artigo do excretor teve alguma finalidade. Graças a ele, tivemos essa conversa.

– Verdade, Briguet. Até das piores porcarias se pode tirar algo de bom. E que seja bem-vindo o coração do Pedrão, neste momento tão importante para o Brasil!

– Laudelino de Oliveira Lima é escritor e autor de “Submundo Hacker” (Faro Editorial).
Paulo Briguet é escritor, editor-chefe do BSM e autor de “Nossa Senhora dos Ateus” (Sétimo Selo).

 


"Por apenas R$ 29/mês você acessa o conteúdo exclusivo do Brasil Sem Medo e financia o jornalismo sério, independente e alinhado com os seus valores. Torne-se membro assinante agora mesmo!"