SOCIALISMO

A Nicarágua, o Brasil e os cristãos

Eduardo Meira · 27 de Agosto de 2022 às 10:31

Saiba o que a perseguição da ditadura de Daniel Ortega à Igreja tem a ver com as próximas eleições brasileiras

A esquerda tem uma tara inquestionável por ditaduras comunistas, especialmente no capítulo em que os ditadores vermelhos perseguem, prendem, torturam e matam cristãos, além de mandar fechar igrejas e proibir o cristianismo nos países que comandam.

 Marina Silva, na última semana, pronunciou-se a favor de Lula. No momento em que o ditador da Nicarágua, Daniel Ortega, promove uma das mais fortes perseguições institucionalizadas a cristãos no mundo, a ativista que aparece de quatro em quatro anos afirmou que “Lula ficou dois mandatos no poder e jamais mandou fechar igrejas”. Não interessa a ela, obviamente, lembrar que Daniel Ortega está há 15 anos ininterruptos no poder, e 25 anos no total, e apenas recentemente começou a empreender tal perseguição.

O próprio Lula, há nove meses, comparou Ortega a Angela Merkel, ex-premiê alemã. Em entrevista ao periódico El País, ele disse: “Ah, por que a Ângela Merkel pode ficar 16 anos no poder e Daniel Ortega não? Por que o Felipe Gonzales (Espanha) pode 14 catorze anos no poder, qual é a lógica?”. A repórter respondeu, prontamente, que Merkel e Gonzales ficaram todos esses anos no poder mas jamais prenderam opositores políticos.

Fato é que o mundo cristão está consternado, com razão, com o que acontece hoje na Nicarágua. O objetivo deste artigo é trazer conhecimento mais amplo sobre a situação por lá e, principalmente, comparar com o que está acontecendo aqui no Brasil e o que ainda pode vir a acontecer.


Sandinismo

A esquerda latino-americana adora ter um messias para chamar de seu. Perón, Bolívar e Augusto Cesar Sandino, entre outros, são nomes de revolucionários idolatrados e que causam profundo estrago na região até hoje. Daniel Ortega, antes de ser alçado à presidência de seu país, foi guerrilheiro sandinista que liderou, em 1979, a derrubada da ditadura da família Somoza, que estava no poder desde 1936.

Augusto César Sandino (1895-1934) foi um guerrilheiro e general do Exército de Libertação Nicaraguense, criado por ele mesmo, para combater o governo conservador da época, em um episódio conhecido como Guerra Liberal-Conservadora, além de combater também tropas americanas que sitiavam o país desde 1912 por interesses comerciais, como a construção de um canal transoceânico – algo que acabou por não ser feito. O regime do conservador Emiliano Chamorro era apoiado pelos EUA, e Sandino – entusiasta extremo da doutrina marxista – sentiu-se incomodado com aquele governo e com a presença militar americana no país. Tornou-se, assim, líder inconteste das revoltas e batalhas contra o governo e os americanos. O guerrilheiro acabou por ser assassinado em 1934 em emboscada armada pelo coronel Elias Riggs, do Exército norte-americano, e Anastasio Somoza Garcia, apoiado pela Guarda Nacional. Somoza Garcia logo assume, então, a presidência do país, dando início à era da ditadura Somoza.

Sandino tinha uma personalidade controversa e era alvo da desconfiança e estranheza de seus próprios apoiadores. Morou na Costa Rica e depois no México, onde aprendeu com os socialistas a as estratégias de mudança social; endossou a demanda dos comunistas pela revolução proletária e chegou até a mergulhar em doutrinas teológicas que tentavam explicar a relação humana com Deus. Com esta receita, seus discursos eram confusos e muitas vezes sem nexo algum. Este tipo de liderança, quando morre, acaba por ser um alívio para o movimento, que estrategicamente o eleva a condição de mártir, dando aquela motivação simbólica, iconoclasta e messiânica aos seus seguidores.

Em 1961, Carlos Fonseca Amador, Santos López, Tomás Borge e Silvio Mayorga fundaram a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) para empreender a luta contra a ditadura Somoza.


FSLN

Como todo grupo da extrema esquerda latino-americana, a FSLN lançou-se com discurso “anti-imperialista”, sob os ideais de Augusto César Sandino, e tinha como mote a “libertação da América Latina”. Uma espécie de embrião do Foro de São Paulo.

Sua inspiração foi a insurreição cubana, que derrubou Fulgêncio Batista e empossou Fidel Castro em 1959.

O grande triunfo dos sandinistas veio em 1979, quando, sob a liderança de Daniel Ortega, a FSLN finalmente derrubou Anastasio Somoza Debayle (que acabou fugindo do país) e tomou a capital Manágua.

Formou-se então uma junta, a Junta para Reconstrução Nacional, que assumiu a presidência, e era liderada pelo próprio Ortega. Assim se deu o primeiro termo de Ortega como líder da Nicarágua.

Em 1986, houve eleições presidenciais de fato e Ortega saiu vitorioso.


Ortega vs. Chamorro

O mandato de Ortega foi um desastre, com medidas socialistas extremas como expropriação de terras, confisco e estatização de empresas. Não obstante, por se tratar de um governo comunista, foi alvo de embargo dos EUA, sob o comando de Ronald Reagan. Em 1989, a inflação chegara a 1.700% e o desemprego atingira 35% da população economicamente ativa. O nível de produção nos setores primário e secundário, em 1990, não ultrapassava a marca da década de 50. Somente com a posse de Violeta Chamorro os Estados Unidos tirariam a Nicarágua do embargo econômico.

Em 1990, Daniel Ortega perdeu as eleições para Violeta Chamorro – representante da tradicional família ou clã dos Chamorro, que teve alguns presidentes da Nicarágua: Frutos Chamorro, em 1806; Pedro Joaquim Chamorro, que foi o líder das forças na guerra pela independência da Nicarágua; Emiliano Chamorro Vargas, já citado aqui neste artigo, principal nome na guerra contra os liberais; e seu sobrinho Diego Manuel Chamorro (1921 a 1923). Ressalta-se a rivalidade dominante no país à época, entre os Chamorro e os Somozas. Com o poder tomado do poder pelos Somozas, em 1936, a família Chamorro criou o jornal de oposição “La Prensa”, comandado por Pedro Chamorro. Violeta era justamente a esposa de Pedro. Como o jornal fazia críticas à ditadura vigente de Anastasio Somoza, Pedro esteve várias vezes preso ou exilado. Em 1978 foi assassinado por ordens do ditador, deixando Violeta viúva.

Assim, em 1990 Violeta pega a Nicarágua numa situação deplorável e lança mão de um governo aos moldes do que mais décadas mais tarde Mauricio Macri faria na Argentina. A crise se aprofunda e, no fim do seu governo, em 1997, o país já estava em colapso. Em 2001 foi declarado como o segundo país mais pobre das américas de acordo com o PNUD, perdendo apenas para o Haiti.

 


Ditaduras substituídas por ditaduras

Algo bizarramente comum observa-se na história mundial: a substituição de ditaduras. A Revolução Francesa foi movimento que derrubou o absolutismo na França, e o substituiu pela ditadura de Napoleão Bonaparte. Na China o sistema dinástico caiu ante a revolução comunista, liderada por Mao Tsé-Tung que, em seguida, logrou-se ditador. Em Cuba foi a substituição de Batista por Fidel.

Na Nicarágua o líder responsável pela derrubada da ditadura dos Somoza é hoje um dos mais autoritários ditadores do mundo.

Eleito novamente em 2007, Ortega se locupleta no poder até os dias de hoje, após “vencer” 4 eleições. Além de tornar suas medidas socialistas ainda mais radicais, implementou mecanismos de compras de votos de deputados e senadores, impugnou candidaturas e passou a prender opositores políticos, além de ter mandado fechar já mais de 200 ONGs. A fraude e a corrupção são as principais ferramentas de seu governo, que é sabidamente financiado pelo tráfico internacional de drogas.

Em 2018, manifestos eclodiram no país contra o governo de Ortega. O governo respondeu com muita violência e mais de 300 manifestantes foram mortos, inclusive a estudante de medicina brasileira Raynéia Gabrielle Lima.

Agora, em março de 2022, Ortega mandou prender a jornalista Cristiana Chamorro, filha de Violeta Chamorro, ex-candidata à presidência e opositora à ditadura. Logo após mandou prender seu irmão, Pedro Chamorro, e fechar o Jornal “La Prensa”, o mais antigo da Nicarágua e pertencente à família.

 


Repressão aos cristãos, fechamento de igrejas e prisão de padres e bispos

A cristandade certamente nunca se calou ante uma ditadura tão cruel e sanguinária. Embora a Igreja houvesse intermediado a turbulenta passagem de poder entre os Somoza e a FSLN, e alguns membros do clero, como Ernesto Cardenal, tenham chegado a integrar o gabinete de Ortega, a ditadura sandinista sempre recebeu críticas dos cristãos – e tornou-se famosa a cena em que o Papa João Paulo II passa uma descompostura pública em Cardenal. O sacerdote – que também era poeta – mais tarde veio a romper com os sandinistas.

As relações entre a Igreja Católica e o regime sandinistas sempre foram tensas. Mas os assassinatos em 2018 foram a gota d’água, e padres e bispos passaram a criticar com muito mais veemência a ditadura.

Em 2021, Ortega acusou padres e bispos de “conspiração contra a democracia”. Nota-se uma semelhança absurda com o termo “atos antidemocráticos” criado aqui no Brasil pela Suprema Corte. O Governo Ortega criou, então, a “lei das fake news” (coincidência novamente?), que vem sendo usada para calar prender religiosos.

Em julho deste ano, Nicarágua expulsou do país freiras da ordem fundada por Madre Teresa de Calcutá. Dezoito missionárias foram conduzidas pela polícia até a fronteira com a Costa Rica e lá foram deixadas para atravessaram a pé.

Em agosto, o regime, à sombra da “lei das fake news” mandou fechar rádios ligadas ao bispo Rolando Alvarez. No dia 12, ordenou o cancelamento de procissões religiosas; no dia 15, o padre Oscar Benavides foi preso. Em mais uma semelhança com a juristocracia brasileira, ao padre jamais foram informados os motivos de sua prisão e ele segue impedido de contactar seu advogado, familiares e amigos.
 

Lula vs. cristãos

Ante todas as semelhanças entre o regime ditatorial socialista nicaraguense e o regime juristocrata – montado pelo PT e asseclas – no Brasil, causa extremos desconforto e preocupação o discurso do candidato à presidência sobre igrejas e templos, que são reiteradamente chamados por sua campanha de máfia ou facções. Lembrando que até a candidatura de Lula da Silva se deu através de uma montagem judicial, que o soltou da cadeia para que pudesse fazer frente ao atual presidente, Jair Bolsonaro.

Os cristãos sempre foram a principal resistência ao socialismo/comunismo, ideologia esta que prega abertamente contra a religião. Nas palavras de Karl Marx, “A religião é o ópio do povo”. Infere-se daí o ódio dos comunistas, que rejeitam a existência de um líder divino. A estratégia consiste em dar poder divino apenas ao líder da seita vermelha e combater quaisquer outras lideranças. Não pode haver concorrência alguma – nem a de Deus.

 


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