CULTURA

A arte do irmão de Van Gogh

Juliana Gurgel · 8 de Fevereiro de 2021 às 15:08

Em homenagem aos 150 anos da morte de Theo Van Gogh, a colunista Juliana Gurgel, do BSM, faz uma reflexão sobre as formas de apoio à criação artística


 

O Vinhedo Vermelho, de Vincent van Gogh (1853-1890)

No último dia 25, completaram-se 130 anos de falecimento de Theodorus van Gogh. O irmão mais novo de Vincent van Gogh morreu aos 33 anos, em decorrência da sífilis, seis meses após a morte de seu irmão. 

Theo, como era chamado, seguiu a tradição de parte da família Van Gogh e tornou-se comerciante de arte. Apesar de Vincent ser o irmão mais conhecido, Theo também ocupa um lugar especial na história da pintura. Ele foi um dos responsáveis por promover o movimento expressionista e divulgar obras de artistas como Claude Monet, Edgar Degas, Paul Gauguin, Henri de Toulouse-Lautrec, Camille Pissarro e Georges Seurat.

Além de ter sido um notável marchand, Theo está diretamente relacionado ao desenvolvimento e trabalho de Vincent, como acompanhamos no livro Cartas a Theo. A obra é uma compilação de centenas de cartas de Vincent ao seu irmão, organizada e editada por Johanna Gezina van Gogh-Bonger, esposa de Theo e uma das maiores responsáveis por divulgar o trabalho de Vincent após a morte do marido e do cunhado.

Theo foi o suporte financeiro e emocional de Vincent desde que o irmão decidiu dedicar-se exclusivamente à pintura. Vincent era uma figura complexa e de grandes paixões, tinha a saúde debilitada, surtos violentos e episódios de epilepsia, o que lhe desgastava muito. O temperamento melancólico culminou no tiro que lhe tirou a vida, algo que contradiz o que ele mesmo escrevera a Theo, em setembro de 1881: “No entanto, se há homens que atentam contra a própria vida, eu direi simplesmente: Não penso ser um homem com tais inclinações”.

Theo era o maior interlocutor de Vincent, trocavam livros, falavam de obras e artistas como Michelângelo, Delacroix, Rembrandt, Vermeer, Shakespeare, Dante, Petrarca, Boccaccio, Giotto, Botticelli, dentre muitos outros artistas e assuntos, como o interesse de Van Gogh pela arte japonesa. A conversa entre os irmãos envolvia ainda, uma prestação de contas que Vincent dava ao seu irmão e mantenedor.

Somando os desenhos, aquarelas e telas em óleo, Vincent produziu mais de duas mil obras em um período de dez anos. O número, notoriamente expressivo, corresponde aos relatos de sua intensa produção. Alguns destes trabalhos foram trocados, presenteados ou deixados como garantia por alguma dívida ou pendência, porém, somente uma única obra, O vinhedo vermelho, foi realmente vendida enquanto ele estava vivo.

A falta de interesse dos compradores pelas obras de Vincent era motivo de frustração e gerou atrito entre os irmãos. Em uma carta, no início de seus estudos, Vincent alega que Theo deveria se dedicar mais em vender seus quadros e reclamava da frequente resposta do irmão sobre suas obras: “Estão quase vendáveis, mas...”

Em outra correspondência, Vincent afirma seu empenho e demonstrava constrangimento pela dependência financeira:

“Sinto em mim a necessidade de produzir até estar moralmente esmagado e fisicamente esvaziado, justamente porque em suma não tenho nenhum outro meio de chegar a participar nas despesas. Não posso fazer nada se meus quadros não vendem. Contudo dia virá em que veremos que eles valem mais que o preço que nos custaram em cores e minha vida, afinal bem pobre.”

Nas cartas de Vincent a seu irmão, não encontramos indícios de que Theo interferisse em seu processo criativo. Havia interesse na pessoa de Vincent e dedicação para que ele ficasse bem e pudesse desenvolver sua técnica e seu trabalho.

Proponho uma reflexão a partir da história dos irmãos Van Gogh. Apesar da qualificação de Theo como marchand em distinguir o valor das obras de Vincent, é possível deduzir que a intensidade e duração do investimento ocorreu por motivos afetivos: eles eram irmãos e melhores amigos. Se Theo agisse exclusivamente como profissional, provavelmente teria diminuído a quantia que enviava à Vincent ou, após alguns anos sem retorno financeiro, teria desistido.

Hoje o valor do trabalho de Van Gogh é evidente, mas não o era naquela época. Foram a confiança de seu irmão e o amor da família que proporcionaram a Van Gogh continuar criando. Isso nos leva a uma questão: “Quem deve financiar o artista?”. Nesse caso, a pergunta é uma provocação. Como conhecemos a obra de Van Gogh, seremos parciais para justificar uma circunstância que o mantenha criador de todo o seu legado.

No entanto, a pergunta é válida para outros casos. A forma mais legítima é a contribuição voluntária. Podemos adquirir a obra, pagar os ingressos e aderir a um crowdfunding, por exemplo. Questiono o procedimento indireto e usual a que somos submetidos à revelia, por meio de impostos. Acabamos financiando projetos milionários, irrelevantes e incompatíveis com o conceito de arte.

Theo optou por investir no trabalho de Vincent, pois, além de amar o irmão, verificava seu talento e dedicação. E Vincent, por enxergar todo o sacrifício de Theo em mantê-lo e apoiá-lo incondicionalmente, reconhecia-o como co-criador de sua obra, como registra em uma das cartas:

“Se um dia eles forem suficientemente bons, você terá sido também seu criador, tanto quanto eu, porque nós os estamos fazendo juntos”.

Ainda que o público não esteja ciente das variáveis que compõem uma criação artística, como o tempo de realização da obra, número de pessoas envolvidas e custo de produção, por exemplo, penso que já exerçam uma função semelhante à de marchands. Ao optar por fruir/ consumir determinada obra e artista, ele está escolhendo em quem investir.

O desafio é discernir obras de qualidade e artistas comprometidos com a arte. Para esta grandiosa tarefa, podemos nos inspirar em uma das cartas de Vincent para Theo: [...] “Tudo o que é verdadeiramente bom e belo, de beleza interior moral, espiritual e sublime nos homens e em suas obras, acredito que vem de Deus, e tudo o que há de ruim e de mau nas obras dos homens e nos homens, não é de Deus e Deus também não o acha bom. Procure entender a fundo o que dizem os grandes artistas, os verdadeiros artistas, em suas obras-primas, e encontrará Deus nelas”.

— Juliana Gurgel é católica, professora e doutora em artes da cena.

 

O marchand Theo van Gogh (1857-1891)

 


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