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Sangue nas mãos da mídia: como Intercept e Fantástico distorceram a história da menina que abortou aos 7 meses

Letícia Alves · 28 de Junho de 2022 às 15:52

Primeiro, escolheram quais dados expor e quais esconder; depois, quem entrevistar; e, por último, evocaram a figura inexistente do "aborto legal" — essa foi a receita que resultou no assassinato de um bebê prematuro de sete meses

A reportagem do Fantástico sobre o caso da menina de 11 anos que abortou sua filha de sete meses de idade gestacional, que foi ar no último domingo (26), mente, distorce, engana e, por fim, faz uma defesa escancarada e desavergonhada do assassinato intrauterino independentemente da idade e do tamanho do bebê. Não é jornalismo, é panfleto — apesar de a Rede Globo continuar evocando (ou tentando evocar) para si a imagem de imparcialidade e independência.

Assim também agiu o site The Intercept Brasil, que vazou a história da menina com o claro intuito de promover a agenda abortista. Conseguiu. Está com as mãos sujas de sangue, assim como o Ministério Público Federal (MPF), a equipe médica que promoveu o feticídio e toda a velha imprensa que repetiu o caso sem questionar.

Os dois veículos manipularam a informação e perverteram princípios básicos do jornalismo para entregar ao público não a verdade, mas uma narrativa capaz de influenciar o público a defender o indefensável. A seguir, explico como isso foi feito, na prática:

1. O recorte da "verdade"

O primeiro passo foi dado na reunião de pauta. Com os documentos e vídeos em mãos, os "jornalistas" discutiram quais "verdades" iriam divulgar.

Intercept decidiu focar na atitude da juíza Joana Zimmer, que tentou proteger o bebê do aborto. Para isso, escolheu trechos cortados e descontextualizados do todo, para construir uma personalidade fria e insensível com a vida e realidade da menina.

"Em audiência, juíza de SC induz menina de 11 anos grávida após estupro a desistir de aborto legal", diz o título do texto que pautou toda a imprensa nacional na semana passada. A esta altura, mesmo quem não leu a reportagem completa já consegue vislumbrar os principais pontos da história e até mesmo formar uma opinião parcial: se uma criança indefesa foi estuprada e a lei brasileira permite o aborto, a juíza errou. 

Perceba que, ao escolher quais informações já seriam dadas no título, o editor admite quais fatos considera mais relevantes em detrimento de outros. O tempo de gestação da criança, por exemplo, não é informado de primeira — o leitor só descobre esse dado se estender a leitura até o terceiro parágrafo.

As condições em que o suposto abuso sexual foi cometido também não são mencionadas. O site repete, mais de uma vez, que houve estupro, mas não cita nada sobre o agressor, apesar de esse dado ser provavelmente o mais relevante do caso. Afinal, se uma menina de 10 anos é estuprada, um crime foi cometido, e é interesse do público saber se o abusador fora preso ou se haveria mais um pedófilo à solta nas ruas. O Intercept, no entanto, decide esconder a informação de que o suposto abusador, na verdade, era um adolescente de 13 anos, que vivia na mesma casa que a menina.

Já a reportagem do Fantástico, que foi ao ar depois de o aborto já ter sido realizado, decidiu focar na versão da mãe. "Mãe de menina vítima de estupro de vulnerável fala sobre audiência com juíza: 'Eu deveria responder por ela, não ela'", diz o título. A matéria é construída com base em duas premissas principais: o aborto em caso de estupro é um direito inviolável independentemente das circunstâncias; e a mãe da menina está falando a verdade.

A primeira premissa dá o tom de toda a reportagem, pois todos os dados apresentados e as fontes e especialistas consultados têm o objetivo de corroborá-la. Já a segunda premissa, a de que a mãe é uma vítima e fala a verdade, fez com que os experientes jornalistas da Globo se esquecessem de um pré-requisito básico na apuração de qualquer notícia — a tal da desconfiança.

Não estou aqui dizendo que a mãe da menina esteja mentindo ou que seja culpada de qualquer coisa que seja, mas, ao se entrevistar um personagem, um jornalista nunca deve aceitar a sua versão docilmente, sem questionar ou buscar incongruências.

Apesar da delicadeza da situação, os fatos são de que dois menores de idade mantiveram relação sexual dentro de casa, enquanto deveriam estar sendo protegidos pelos seus responsáveis. Sabendo dessa informação, a repórter tinha a obrigação de questionar a mãe sobre a situação. Afinal de contas, os dois eram "namorados"? A mãe sabia ou desconfiava de alguma relação entre ambos? O menino agiu com violência contra sua filha? A menina contou à mãe o que ocorreu? E por aí vai. Todos esses questionamentos foram deixados de lado, pois o foco da reportagem era também, assim como fez o Intercept, condenar a atitude da juíza.

A reportagem também mostra um trecho da audiência da juíza com a mãe, num momento em que esta se desespera e pede para que sua filha continue em casa com ela. A jornalista não questiona a mãe em nenhum momento se a juíza teria algum motivo para querer afastar a menina de casa, por exemplo.

2. A escolha dos entrevistados

De modo geral, tanto o Intercept quanto o Fantástico só entrevistam pessoas que eram favoráveis ao aborto da criança. O contraditório, ou seja, o "outro lado", não aparece de fato nas reportagens. Ele está ali apenas para cumprir tabela e responder um ou outro ponto muito rapidamente, sem muito espaço para explicar porque o aborto não seria a melhor opção em um caso como esse, com idade gestacional tão avançada.

Os dois veículos buscam advogados, procuradores, médicos, psicólogos e até mesmo representantes de organizações pró-aborto que constroem, em uníssono, a versão de que o que a juíza fez foi "tortura" contra a menina. Nenhum entrevistado fala sobre as consequências psicológicas de um aborto; nenhum menciona como o procedimento é realizado e quais os sofrimentos a criança passaria ao parir um bebê morto; ninguém menciona que centenas de pessoas se ofereceram pessoalmente para adotar o bebê.

O Fantástico, ao final, ainda cita o menino de 13 anos, pai do bebê, mas apenas para explicar que, segundo a lei brasileira, o caso continua sendo considerado estupro de vulnerável e, por isso, o aborto seria "legal".

3. A mentira do aborto legal

As duas reportagens afirmam que a menina tinha direito a um "aborto legal", independente da idade gestacional avançada. Na prática, os veículos defenderam que, em caso de estupro, há aborto legal presumido no Brasil até os nove meses de gravidez.

Isso é mentira. 

A verdade é o exato oposto disso: não há aborto legal no Brasil. O que existem são excludentes de ilicitude em três casos específicos: risco de vida da mãe, feto anencéfalo e gravidez decorrente de estupro.

No início do mês, uma nota técnica do Ministério da Saúde relembrou a todos disso. "Todo aborto é um crime, mas quando comprovadas as situações de excludente de ilicitude após investigação policial, ele deixa de ser punido", diz o documento.

Há também um consenso, criado a partir de outra nota técnica, de que o procedimento, nesses três casos, deve ser realizado no máximo em até 21 semanas de gestação, até mesmo por uma questão de segurança da mãe. Foi por este motivo que o Hospital Universitário de Santa Catarina, ao receber a menina gestante de 22 semanas, se negou a realizar o aborto, levando o caso à Justiça.

Conclusão

É evidente a importância da imprensa no debate público de um país. Uma história mal contada, seja por incompetência ou por interesse, pode influenciar a política nacional, sobretudo se ela for repetida por todos os grandes jornais, como aconteceu.

É provável que o aborto de um bebê de sete meses, com grandes chances de já sobreviver fora da barriga como milhares de prematuros que nascem todos os dias neste país, não tivesse sido realizado se o Intercept não tivesse vazado um caso que corria em segredo de justiça e manipulado as informações a seu favor.

Não se engane. Todos os jornais têm um lado, mas a verdade não. Não existem fatos de direita ou de esquerda — existem fatos, que devem ser contados com o máximo de responsabilidade possível por jornalistas sérios e que cumprem o dever de sua profissão acima de interesses políticos ou de ganhos pessoais. Quando toda a imprensa, cujo trabalho deveria contar a verdade, repete em uníssono uma mentira, desconfie: provavelmente há alguém muito poderoso lucrando com isso.

 

 


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