DRAGÃO VERMELHO

Xi Jinping, o novo Mao

Eduardo Meira · 6 de Fevereiro de 2021 às 12:18

Eduardo Meira, especialista em política e história da China, traça o perfil do poderoso líder comunista



Nascido em Pequim, em 15 de julho de 1953, Jinping Xi习近平 (apenas para fins didáticos, neste artigo decidimos escrever os nomes próprios sob os padrões ocidentais, onde o prenome precede os sobrenomes. Neste caso, por exemplo, o nome é “Jinping” e o nome familiar é “Xi”), filho mais novo de Zhongxun Xi 习仲勋 – um dos fundadores da guerrilha comunista e camarada de Zedong Mao 毛泽东 (o Mao Tsetung), chegando a vice-primeiro-ministro do País à época; e de Xin Qi 辛琦, hoje com 94 anos, membro do Partido Comunista Chinês que ganhou notoriedade pelos artigos que escrevia (e escreve) sobre seu marido, Zhongxun.

Sua família é natural da província de Shaanxi, na região de Fuping-Weinan 富平-渭南. Foi lá onde seu pai formou a guerrilha e ganhou projeção. Esta província é muito conhecida pelos ocidentais devido à sua capital, Xi’an 西安 – que foi a primeira capital da China, sede do império do primeiro imperador Shihuang Qin 秦世煌 (Tsin Xihuang ), e onde se encontram os famosos Bingmayong 兵马俑 (Exército da Terracota ou, em tradução literal, guerreiros congelados). Jinping acabou por nascer em Pequim justamente porque seu pai mudou-se para lá com sua família para assumir cargos no Partido Comunista.

 

Infância

Quando Jinping nasceu seu pai já era dotado de grande influência dentro do Partido Comunista, que acabara de promover a grande revolução de 1949. Obtinha, então, o cargo de chefe do departamento de propaganda do Partido, sendo logo em breve promovido a vice-presidente do Congresso Nacional do Povo.

Considerando toda essa projeção paterna, seria natural que o pequeno Jinping estivesse fadado a um futuro natural e exitoso na política, não fosse um evento que poderia ter mudado tudo: em 1962, seu pai foi expurgado do Partido e enviado para uma fábrica de trabalhos forçados em Luoyan 洛阳.  Fontes não-oficiais (lembrando que, em se tratando de Partido Comunista Chinês, as fontes não-oficiais tendem a ser mais confiáveis que as fontes oficiais!) relataram que sua irmã fora assassinada pelos jovens recrutas da malfadada Revolução Cultural.

Aos quinze anos, Jinping foi mandado para um reformatório, onde aumentou seu ódio... Sim, é verdade! Em 1966, Mao lançou a Revolução Cultural, um movimento sociopolítico com o objetivo de preservar a “verdadeira” ideologia comunista e eliminar os remanescentes da sociedade capitalista. Xi, que fora recrutado para Shaanxi para guerrilhar no movimento, não conseguiu se adaptar e fugiu de volta para Pequim. Capturado e preso em 1968, o jovem que naquela época cursava o ensino médio teve sua educação formal interrompida ao ser enviado para uma aldeia agrícola de “reeducação” e trabalhos forçados em Liangjiahe 梁家河 e lá ficou por sete anos, fazendo tarefas manuais e se alimentando apenas de mingau de arroz — fato este que moldou sua vida e consciência.

 

Juventude e ingresso no Partido Comunista Chinês

Evidentemente, após sete anos de reclusão, trabalhos forçados e lavagem cerebral, o outrora fraco e passivo menino Xi transformou-se em um homem forte e obstinado a defender os valores da pátria. Durante sua estada na escravidão, em 1971, entrou para a Liga Jovem Comunista e, por várias vezes, tentou entrar para o Partido Comunista, mostrando sempre disciplina e lealdade. No entanto, era sempre recusado, por ser filho de Zhongxun. Foi finalmente aceito em 1974 e, longe de querer vingança do Partido, jurou que faria de tudo para ascender ao topo. Em 1975, aos 22 anos, quando saiu da aldeia, ingressou na Universidade Xinghua 兴化大学 para cursar engenharia química, tornando-se uma espécie de estudante-camponês-soldado (atualmente, Xi tem doutorado em engenharia química e ciência política).

Certa feita, em uma entrevista para a TV estatal chinesa durante uma visita à famigerada aldeia, perguntaram ao líder como ele sentia a respeito daqueles tempos. Sua resposta:

— Foi comovente e emocionante.

 

Carreira

Ao graduar-se, em 1979, Xi começa de fato sua carreira no partido, servindo como “ex-secretário subordinado”. Até 1982, Xi serviu no Comando Militar Central como vice-primeiro-ministro, adquirindo vasta experiência militar. Nessa época, ele se casou com Lingling Ke 可玲玲, filha do embaixador chinês na Grã-Bretanha. Eles se divorciaram pouco anos depois.

De 1983 a 2007, Xi ocupou cargos de liderança em quatro províncias, começando com Hebei 河北省. Durante seu mandato em Hebei, Xi viajou para os Estados Unidos e passou um tempo em Iowa com uma família americana, aprendendo sobre agricultura e turismo. Após seu retorno, serviu como vice-prefeito de Xiamen 厦门 em Fujian 福建, onde em 1987 se casou com a cantora folk Liyuan Peng 彭丽媛, que detém hoje o posto de general do Exército de Libertação do Povo. O casal tem uma filha, Mingze Xi , que estudou na Universidade de Harvard sob pseudônimo.

Xi sempre cresceu de forma firme e discreta dentro do Partido. Chegou a cargos importantes como o de governador das províncias de Fujian e Zhejiang 浙江. Em 2007, viu sua grande chance para surgir como grande líder, quando o famoso escândalo dos fundos de pensão abalou a liderança de Xangai e ele acabou sendo nomeado secretário do partido. A partir de então, ele aproveitou sua visibilidade para discursar em favor da estabilidade e da restauração da imagem financeira da cidade, e no mesmo ano foi escolhido para o Comitê Permanente do Politburo. No início de 2008, tal visibilidade de Xi se tornou ainda maior quando ele foi eleito vice-presidente da República Popular da China e encarregado dos preparativos para os Jogos Olímpicos de 2008 em Pequim.


O Grande Líder

Em 2013, Xi foi eleito Secretário-Geral do Partido Comunista, Presidente da Comissão Militar e Presidente da República Popular da China. Embora tenha recebido críticas por violações dos direitos humanos e regulamentações econômicas perturbadoras, Xi também deu continuidade à ascensão do país como superpotência global. Seu nome e filosofia foram acrescentados à constituição do partido em 2017, e no ano seguinte ele pressionou com sucesso pela abolição dos limites de mandato presidencial, permitindo a manutenção de sua posição pelo resto de sua vida.

Jinping Xi, como grande parte do povo chinês, nutre em sua alma amargor, sentimento de vingança e exacerbado patriotismo. É importante observar que o povo chinês tem várias qualidades; no entanto, para o objetivo deste artigo, importa dar notoriedade a esses sentimentos para que se faça entendido o poder das ambições daquele país e de seu líder.

A China tem uma história marcada por ciclos de grande pujança e limbo. Da ascensão de dinastias até suas quedas, do importante papel regional até as invasões e humilhações sofridas sob agentes internacionais, o patriotismo e a mágoa acabaram por tornarem-se não mais apenas algo poético e abstrato, mas algo pragmático e concreto.

Os principais líderes modernos na China —Zedong Mao, Xiaoping Deng e Jinping Xi — trazem em suas filosofias os mesmos objetivos: uma China forte mas não cíclica, uma China forte para sempre. Zedong criou a política do “Grande passo à frente”. Xiaoping organizou essa política, entendendo que não se vive de sonho, mas de dinheiro. Jingping aliou estas duas filosofias e trouxe à tona o “Sonho Chinês”, com metas e objetivos bem definidos e explorando muito fortemente os sentimentos de amargura, revanchismo e patriotismo do seu povo. A propósito, sentimentos estes que são doutrinados nas mentes de cada criança lá nascida, pelo próprio Partido Comunista Chinês.

O resultado é a China de hoje, transformando-se de fato em uma potência financeira e militar, com metas e ambições – nada impossíveis – de transformar-se na principal potência mundial em todos os aspectos até 2050. O povo chinês obviamente compra a briga e trabalha incansavelmente para tal. São mais de um bilhão de pessoas com o mesmo objetivo, labutando em bancos que não se fecham sequer aos domingos, com raríssimos feriados, sem uma cultura previdenciária (não desejam se aposentar para virar ociosos remunerados) e com relações trabalhistas baseadas em contratos, o que facilita e impulsiona a vida de todos e a dinâmica do mercado de trabalho. E, claro, os objetivos da China.

 

post scriptum

Não se pode deixar de comparar este esforço hercúleo dos chineses, que perseguem metas com afinco, a situação do Ocidente, onde a população ficou “riquinha”, mimada e se dá ao luxo de “lutar” por causas como a mudança do idioma para atender um discurso de gêneros, pelo patrocínio estatal para que seu filho de seis anos troque de sexo, pela liberdade de pintar o cabelo de azul e deixar o cabelo do sovaco crescer e pela liberdade (?) de ser gorda e ir para a praia de biquíni. Em que pese o fato de que tais liberdades jamais foram cerceadas, a “bateção de cabeça” por aqui é, aos olhos dos chineses, patética e, ao mesmo tempo, oportuna, pois contribui notavelmente para que alcancem seus objetivos. Enquanto eles têm um projeto nacional, nós temos um rascunho tribal.

Jinping por lá e Biden por aqui. Enquanto eles perseveram, nós assistimos ao Big Brother.

— Eduardo Alves Meira é administrador de empresas e especialista em geopolítica asiática. Foi coordenador do Departamento de Português da Faculdade de Letras no Instituto de Mídia de Hebei.


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