NA DELEGACIA

Você sabe com quem está falando?

Silvio Grimaldo · 27 de Outubro de 2022 às 11:44

Hoje em dia, denunciar um crime pode se tornar um ato antidemocrático. Leia a crônica de Silvio Grimaldo, diretor do BSM



A mulher chega na delegacia:

— Quero relatar um estupro!

— Quem é a vítima? — pergunta o delegado.

— Eu!

— E o estuprador?

— Não sei bem, era careca, alto, vestia Prada.

— Humm. Você tem provas?

— Sim. Tem as marcas no meu corpo. Tem o vídeo da câmera de segurança do... estacionamento, que mostra o momento em que ele me agarrou. Eu o arranhei, deve dar para fazer exame de DNA com a pele dele nas minhas unhas.

— Isso é ridículo, não prova nada.

— Mas tem o vídeo dele me atacando, olha aí!

— Humm... A senhora chama isso de ataque? No máximo um esbarrão.

— Ele me jogou no banco do carro e rasgou minha roupa.

— É muito vago, isso não é documentação crível. São dados genéricos. Mas falando em roupa, a senhora estava vestida assim?

— Assim como?

— Assim, com essa saia e esse decote?

— Sim. Mas o que iss...

— Humm...

— Humm o quê?

— Mas também, né?

— Oi?

— Sai assim e não quer ser estuprada?

— Agora então é minha culpa?

— De quem mais seria? A senhora saiu com clara finalidade de tumultuar a paz do sujeito. Aliás, vou investigar isso aí, a senhora não pode provocar as pessoas desse jeito.

— Mas ele que me atacou, eu não fiz nada...

— É o que a senhora diz, mas a lei diz outra coisa, a lei diz que a senhora quer confundir a cabeça das pessoas e criar pânico com essa teoria da conspiração de que há um estuprador por aí!

- Mas é você que está dizendo isso!

— Exatamente.

— Absurdo! Você não é a lei, é só um delegado.

— Pelo jeito, além de tumultuar o sossego das pessoas, espalha fakenews. Vou ter que colocá-la no inquérito da...

— Você tá louco! Tá achando que é rei?

— Imperador...

— Como?

— Pelo jeito a senhora não assiste a CNN, né?

— Não, claro que não, trabalho o dia todo.

— Ah, logo vi que era bolsonarista...

— ???

— Me diga, se a senhora foi supostamente estuprada, violentada, como chegou aqui?

— Uma colega da firma me encontrou no estacionamento e me trouxe até a delegacia.

— No carro dela?

— Que isso tem a ver?

— A lei é clara, senhora. No carro dela?

— Não sei, acho que no carro da firma.

— Agora, no meio da tarde, durante o expediente?

— Sim, logo depois dele me...

— Humm.

— ???

— É claro desvio de finalidade, tanto do carro da firma quanto da colega de trabalho. Abusar da função e do cargo para resolver problemas pessoais... Vamos investigar.

— Mas isso é uma loucura.

— A senhora vai continuar com esses ataques?

— Ataques? Eu que fui atacada e vocês não vão fazer nada!

— Isso não é nossa responsabilidade. A senhora que deveria tomar cuidado para não ser estuprada.

— E ainda me acusa! Você é um incompetente.

— É inegável que a senhora põe em dúvida a lisura do nosso trabalho, num ataque ao estado democrático de direito. Será investigada por ataques antidemocráticos.

— Absurdo... Loucura... Quero falar com seu chefe.

— Não tenho chefe. Eu sou o chefe. Eu que mando aqui. Você sabe com quem está falando?

— Deve haver alguma instância superior onde eu possa reclamar, buscar meu direito, buscar justiça!

— (risos contidos) De fato, há.

— Então vou até às últimas consequências.

— A senhora pode tentar, mas eu que mando lá também.

— Então não há o que fazer?

— Posso dar um conselho de amigo?

— (chorando) Sim...

— É possível reclamar por lá, mas provavelmente a senhora será estuprada novamente.

Silvio Grimaldo é cientista político e diretor de conteúdo do BSM.

 


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