CRISTOFOBIA

Você não pode ser mãe adotiva

Paulo Briguet · 9 de Junho de 2021 às 16:18

BSM entrevista a escritora e missionária Juliana Ferron, que foi impedida de entrar na fila de adoção por suas convicções cristãs

Desde a adolescência, Juliana Ferron tem o sonho de ser mãe adotiva de uma criança. De uma, não: de pelo menos quatro crianças. No ano passado, depois de viver por oito anos em Curitiba, ela decidiu voltar para sua cidade, Passo Fundo (RS), e ficar mais perto da família. A mãe, a irmã, os tios e primos de Juliana sabiam que ela, agora com 38 anos, estava prestes a realizar o sonho. Juliana iniciou o processo para dar entrada na fila de adoção. Depois de enviar toda documentação solicitada pela Vara da Infância e da Juventude de Passo Fundo, foi convocada em abril para uma entrevista com uma psicóloga e uma assistente social. Cerca de um mês depois, recebeu a notícia de que o pedido para entrar na fila de adoção havia sido rejeitado. E o motivo da rejeição provocou revolta em cristãos de todo país: segundo a Vara da Infância, ela não está preparada para ser mãe por causa de suas convicções pessoais sobre a homossexualidade. Veja a seguir a entrevista que Juliana Ferron, autora do livro “Cansei de ser gay”, concedeu ao editor-chefe do BSM, Paulo Briguet:

BSM: Você esperava uma repercussão tão grande do seu caso?
Juliana Ferron:
Jamais imaginei que isso pudesse acontecer. Eu apenas queria ser mais uma pessoa na fila de adoção. Depois que eu coloquei o vídeo na internet, meu caso ganhou uma visibilidade muito grande, e muitas pessoas vieram falar comigo, relatando que tiveram a sua adoção negada e não entendiam por quê. A própria ministra Damares veio falar comigo e relatou que está recebendo denúncias de outras pessoas que receberam a mesma sentença. Parece que não sou apenas eu que estou passando por isso; e parece que não é de hoje que acontece.

BSM: Quando você tomou a decisão de adotar uma criança?
Juliana Ferron:
A adoção sempre foi um sonho meu, desde a adolescência. Eu sempre sonhei com a adoção, nunca com a maternidade biológica. A adoção para mim sempre foi o plano A. Eu sonhava em adotar três ou quatro crianças. Relatei isso à psicóloga e à assistente social que me atenderam, durante duas horas de entrevista. Nunca foi simplesmente por compaixão, por saber que existem mais de 40 mil crianças em orfanatos no Brasil. No ano passado, depois de morar em Curitiba por oito anos, eu voltei para Passo Fundo (RS), que é um lugar mais seguro, onde eu tenho toda minha família, já com esse objetivo em mente: eu queria entrar na fila da adoção. Dei início ao processo legal, aqui na comarca de Passo Fundo. Enviei toda documentação que me solicitaram, participei do curso de formação on-line, mas antes disso fiz a entrevista com a psicóloga e a assistente social, coincidentemente no dia em que positivei para covid pela segunda vez. Foi no dia 13 de abril, havia acabado de receber o exame. Eu já estava com um pouco de febre, elas perguntaram se eu gostaria de fazer a reunião em outro momento, mas eu quis fazer naquele dia mesmo. Geralmente as pessoas querem adotar bebê de colo, mas eu não fiz essa exigência. Estava disposta a adotar uma criança de até seis anos.

BSM: Elas abordaram algum tema sensível durante a entrevista?
Juliana Ferron:
Fizeram muitas perguntas, e eu não tinha por que esconder uma parte da minha vida, os 12 anos em que eu vivi na homossexualidade. Na época eu inclusive promovia eventos para o público LGBT. Mas, oito anos atrás, por conta de conflitos interiores, porque eu não aceitava a minha sexualidade, busquei respostas dentro de uma igreja. A partir de então, Deus começou a me trazer respostas acerca da minha sexualidade e eu decidi não viver mais a minha homossexualidade. Não foi uma imposição da igreja, não foi uma imposição da religião, foi uma decisão pessoal minha, uma livre escolha. Foi exatamente o que eu disse a elas. Respeito o direito de quem vive a homossexualidade, mas também tenho o direito de abandonar a homossexualidade, e foi a decisão que eu tive há oito anos. Então elas me perguntaram sobre a decisão de ter filhos dentro da homossexualidade; eu respondi que respeito quem optar por isso, mas não era o que eu queria. Eu não quero ter filhos adotivos dentro de um relacionamento homoafetivo, porque não é o ideal para mim. Elas então disseram: “A família homoafetiva é uma família”. Eu respondi: OK, mas eu não quero isso para mim. Acho legítimo homossexuais adotarem crianças, quem quiser adotar que adote, mas eu não quero. Inclusive isso está escrito no laudo: Juliana reconhece que famílias homoafetivas podem adotar crianças, mas para ela isso não serve.

BSM: Como você foi informada da reprovação?
Juliana Ferron:
No dia 21 de maio, uma sexta-feira, alguém da comarca me ligou e perguntou se poderia enviar a sentença por WhatsApp. Antes de enviar o documento, porém, a pessoa observou: “Você pode recorrer”. Quando ouvi isso, já pensei: “Deu ruim”. Estava sozinha em casa. Comecei a ler o documento ― de apenas duas páginas ― e o pior se confirmou. De maneira sucinta, diziam que eu preciso rever as minhas crenças com relação à sexualidade, que elas podem interferir na criação das crianças O documento diz literalmente: “O Ministério Público e o relatório psicossocial trouxeram informações que demonstram que a requerente possui algumas crenças que podem impossibilitá-la de criar adequadamente uma criança”. E ainda: “A psicóloga consignou que, neste sentido, respeitamos as crenças religiosas de Juliana [mas] é importante que ela possa repensar e se permita ampliar o seu pensamento sobre questões sexuais para ter condições de lidar com a maternidade” [grifos nossos].

BSM: Como você recebeu essa sentença?
Juliana Ferron:
Vou te dizer como eu fiquei, Paulo. Estava sozinha em casa na tarde de sexta-feira. Comecei a chorar copiosamente e me senti envergonhada ― essa é a palavra. A ponto de ficar até o domingo à tarde chorando, sem conseguir contar nada para minha família, minha mãe, minha irmã. Durante aqueles três dias, não consegui sequer olhar meu próprio rosto no espelho. Nós criamos uma expectativa imensa com a adoção daquela criança. Minha família é bem grande; nós moramos em um condomínio com cinco casas de familiares ― tios e primos. Nas festas de Natal, reunimos mais de 50 pessoas. Todos sabiam que eu iria adotar uma criança. Mas aquele documento me trouxe todo o peso da rejeição. Eu me senti rejeitada, envergonhada, indigna. Não sabia o que fazer. No final da tarde de domingo, resolvi compartilhar o que estava sentindo com as pessoas que me seguem nas mídias sociais. Minha vida sempre foi escancarada; eu escrevi dois livros contando sobre a minha conversão, estou terminando o terceiro. Sentei-me diante da câmera e contei a minha história em poucos minutos. Por sinal, no laudo da sentença, está escrito que a psicóloga e a assistente social assistiram às minhas lives e citam um trecho em que eu falo que ninguém nasce homossexual. Para tomar a decisão, elas vasculharam a minha vida inteira. Mas não há problema: tudo que eu falo está de acordo com os princípios cristãos e também com a ciência. Não existe uma comprovação científica de que as pessoas nasçam gays; isso é um fato.

BSM: Você vai tentar reverter a decisão?
Juliana Ferron:
Tive dez dias para recorrer. Felizmente, meu caso viralizou, e quatro advogados se prontificaram a assumir minha causa, sem custo. Já entramos com recurso e agora o caso será julgado em Porto Alegre.

BSM: Você tem esperança de conseguir a adoção, Juliana?
Juliana Ferron:
Não. Acho que eles vão dizer não de novo. É uma guerra política, ideológica e espiritual. Não estou otimista, mas entreguei nas mãos de Deus. Deus me amparou com esses advogados extremamente competentes ― até porque eu não teria condição de pagar um só advogado, muito menos quatro.

BSM: Você já sofreu discriminação por conta de suas convicções?
Juliana Ferron:
Sou palestrante e missionária. Em minhas palestras e conferências, falo sobre sexualidade, família, ideologia de gênero e feminismo, entre outros temas. Por isso, minhas redes sociais são diariamente atacada por haters. É um grupo muito grande que afronta, oprime e ameaça. De um lado, aqueles que nos acuam a partir do ódio; do outro lado, os crentes legalistas, que não querem falar sobre sexualidade, querem mandar todo mundo no inferno e estão sentados no trono da justiça e da verdade. Meu ministério não é divertido, mas Deus me deu força para suportar.


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