DIÁRIO DE UM CRONISTA

Você não é o Paulo Briguet

Paulo Briguet · 18 de Setembro de 2021 às 12:18

O dia em que o cronista tentou provar que era ele mesmo
 

Há uns 15 anos, quando eu era solteiro, havia um recado na secretária eletrônica. Voz de mulher.

“Alô, Paulo Briguet? Ouvi sua crônica no rádio e preciso conversar urgentemente com você. É a Ana.”

No dia seguinte, outro recado:

“Paulo, quero falar com você. Volto a ligar depois.”
 

*****


Numa segunda-feira, estou trabalhando e o celular toca. É ela.

"Alô, é o Paulo Briguet?"

“Sou eu. Pois não?”

“Aqui é a Ana. Quero falar sobre aquela crônica que você leu no rádio. Precisa ser pessoalmente.”

“Tudo bem. Onde?”

“Eu trabalho na lanchonete. Você sabe. Agora não posso falar mais, tenho que ir para o serviço. Mais tarde eu te ligo.”

“Em que lanchonete você trabalha, Ana? Eu te conheço?”

“Ah, Paulo...”
 

*****


Mais um recado na secretária:

“Paulo, você nem apareceu. É jogo sujo, sabia?”

Não entendi nada.

Horas depois, quando eu saía do trabalho, o telefone tocou de novo. Adivinhe quem era.

“Paulo, por que você não veio?”

“Ana, eu não posso ir a um lugar que eu não sei qual é. Você deve estar me confundindo com outra pessoa.”

“Você não é o Paulo Briguet, que lê crônicas no rádio?”

“Sim, sou eu mesmo.”

“Então, preciso falar com você. Depois eu te ligo e a gente marca um lugar, tá bom?”

Mais uma vez, não entendi nada.


*****


Ela me liga no celular às sete da manhã. Ainda estou na cama.

“Oi, Paulo. Você vai trabalhar hoje?”

“Vou.”

“Você poderia se encontrar comigo às quatro da tarde?”

“Tudo bem.”

“Onde?”

“Perto da estátua do Mercúrio. Sabe onde é?”

“Sei.”

“Então, está bom. Quatro horas. Eu vou estar de camisa azul.”

Às quatro horas, espero a desconhecida ouvinte ao lado da estátua do Mercúrio. Espero por meia hora. De repente, toca o meu celular.

“Oi, Paulo. Jogo sujo, hein? Você está brincando comigo?”

“Não. Eu estou aqui, perto da estátua do Mercúrio, como nós combinamos.”

“Mas eu estou aqui, no orelhão, vendo a estátua, e não vejo você.”

“Sou eu, Ana. De camisa azul. Vou acenar pra você ver.”

Aceno. Percebo que, a uns cem metros, uma garota vestida de branco fala em um orelhão. Deve ser ela.

“Olha, Ana. Acho que estou vendo você. Vou caminhar até aí.”

Desligo o celular e vou caminhando até a moça de branco.

Ela é franzina. Tem os cabelos longos e presos, o rosto fino e um pouco lívido, a testa comprida, dois olhos que me encaram de soslaio. Estendo a mão:

“Olá. Eu sou o Paulo Briguet.”

Diante do orelhão, ela dá um meio sorriso e responde ao cumprimento. Sua mão é gélida, pequena, parece que vai desmanchar.

“Você inventa as crônicas ou elas são fatos verdadeiros?”

“Isso depende. Geralmente elas nascem da minha imaginação, a partir de alguma coisa que aconteceu de verdade.”

“Você não pode ser o Paulo Briguet. O Paulo Briguet é baixo e gordo.”

 “Olhe aqui, Ana. Eu sou o Paulo Briguet. Você deve estar me confundindo com outra pessoa.”

“Não tente me enganar. O Paulo Briguet mandou você aqui para dizer que é ele.”

“Eu SOU o Paulo Briguet. Veja aqui, é minha carteira de identidade. Alguma dúvida?”

“Ele te emprestou essa carteira.”

“Você está dizendo que eu não sou eu, Ana?”

“Estou, sim.”

“Bom, então a nossa conversa não tem sentido.”

Na manhã seguinte, o celular toca.

“Oi, Paulo Briguet. Que coisa feia, mandar outra pessoa fingir que é você.”
 

Paulo Briguet é ele mesmo: cronista e editor-chefe do BSM.

 


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