TAPA CULTURAL

Você está pronto para ser um novo anormal?

Brás Oscar · 19 de Abril de 2022 às 18:00

O estado não está voltando atrás. É apenas o seu direito natural que se tornou uma concessão pública.

Estamos voltando ao normal? Esse foi o assunto que eu e Bernardo Küster discutimos no programa Tapa Cultural de segunda-feira (18), afinal, com os decretos de máscaras sendo revogados no Brasil e em outros países, e com a declaração recente feita pelo ministro  Queiroga sobre o fim do estado de emergência pública essa é a sensação que muitos tiveram.

Nos últimos 2 anos assistimos a mudanças profundas nas relações sociais, além da abertura inédita de precedentes que ampliaram o alcance do poder estatal até as instâncias mais íntimas da vida do cidadão. Seria tão fácil assim “voltar ao normal”?

As “medidas preventivas sanitárias”, uma experiência de estímulo contraditório realizada numa escala de fazer inveja ao Dr. Mengele, provocaram um rombo imenso na já debilitada inteligência do homem médio.

Experiências de estímulo contraditório consistem em impor a alguém duas normas contraditórias que devem ser igualmente cumpridas ao mesmo tempo, ou impor alguma norma que contradiga o próprio senso comum porém, dando algum estímulo positivo como recompensa caso a norma seja cumprida.

Objetivo disso é reforçar um estímulo para apenas obedecer sem pestanejar e, ao mesmo tempo, enfraquecer a capacidade de questionarmos o caráter moral de uma norma positivada. Com o tempo a pessoa é esvaída da capacidade de diferenciar moralidade de legalidade: o certo é obedecer a lei, não importando se a lei é certa.

Exemplo 1 - normas contraditórias que devem ser igualmente cumpridas ao mesmo tempo:

Ao mesmo tempo que se exigiu que as pessoas não se aglomerassem em locais públicos, os horários de funcionamento de estabelecimentos públicos e privados essenciais foram reduzidos, causando aglomerações em lojas e mercados.

Não nos parece óbvio que o mesmo número de clientes no supermercado que, anteriormente, estaria diluído ao longo de 12 ou 14 horas de funcionamento agora estará concentrado num período de 8 horas?

Se a lógica é evitar aglomerações, não se deveria então dar mais liberdade aos empresários para que pudessem optar por estender o período de atendimento ao público?

Manter distância nas filas de aeroportos e, em seguida, sentarmo-nos todos juntos no avião.. enfim, exemplos não faltam.

Exemplo 2 - norma que contradiga o próprio senso comum seguida de estímulo positivo como recompensa.

As máscaras são o exemplo mais patente disso. Atar um trapo ao rosto e passar horas bafejando e salivando sobre o tal paninho te parece mesmo uma maneira saudável de se precaver de algum tipo de doença respiratória? A mim me parece mais algum tipo de superstição ou macumba.

Afinal, diferente do mundo ideal onde máscaras cirúrgicas são usadas em ambiente hospitalar esterilizados, trocadas a cada 30 minutos seguindo uma série de práticas de segurança, no dia a dia, não havia diferença entre quem saía à rua com um traje de proteção contra radiação ou quem metia na fuça um pedaço de chita costurado num par de elásticos de cueca: o importante era cumprir a exigência meramente estética de se estar com a boca e o nariz (mais ou menos) cobertos.

A recompensa por fazer algo extremamente estúpido é ter devolvido o seu direito de ir e vir a determinados locais. Obviamente, para isso ser possível foi necessário permitir que o estado criminalizasse o simples ato de entrar numa missa ou num bar sem o inútil acessório.

Em resumo: quando quase toda a população passa mais de dois anos sendo obrigada a agir como idiota e sendo aplaudida por jornalistas, artistas e autoridades por tal ação, o “ser idiota” torna-se facilmente o “ser normal”. Afinal, aquele seu vizinho que lê Superinteressante, escuta as 10 mais do Spotify e tem um apanhador-de-sonhos na janela ainda está usando duas máscaras, dentro do carro, sozinho.

O estado não está voltando atrás e admitindo que errou ao revogar determinados decretos. O estado está simplesmente conduzindo um processo de transição onde o que era direito natural tornou-se concessão pública.

Você não recuperou o direito de ir à padaria sem máscara ou de poder sair de casa no horário que bem entender. Na verdade, agora você tem apenas uma permissão para fazer tais coisas e quando tal permissão for retirada, seja por uma nova doença ou por você não se comportar de acordo com alguma nova norma sem qualquer senso de realidade, ninguém mais se escandalizará com isso.

Eu e você, que insistimos em exigir que as leis se curvem à moralidade e à lógica, somos os novos anormais.

Assista aqui ao episódio 62 do Tapa Cultural.

 

 

 


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