INTOLERÂNCIA IDEOLÓGICA

Universidade fecha Casa da Tolerância

Paulo Briguet · 12 de Setembro de 2020 às 10:35

Administração da Universidade Estadual de Londrina cancela projeto de extensão que defende liberdade de pensamento. Tema está sendo levado ao Conselho Nacional de Educação pelo professor Gabriel Giannattasio, que fala ao BSM sobre sua luta.

Há três anos, o professor Gabriel Giattannasio, do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina (UEL), iniciou sua corajosa luta contra um dos maiores males que afligem o sistema universitário brasileiro: a intolerância ideológica. Como se sabe, o pensamento conservador, sobretudo na sua vertente anticomunista, tem sido alvo de censura e perseguição nas universidades públicas. Como o menino personagem do conto de Hans Christian Andersen, Gabriel teve a coragem de gritar que o rei estava nu. Desde então, tornou-se vítima de um pesado processo de perseguição e “cancelamento” na universidade.

Para combater a intolerância ideológica no campus, o professor Gabriel criou o projeto de extensão A Casa da Tolerância, que desde então vem promovendo debates, palestras, pesquisas e exibições de filmes que desafiam a hegemonia esquerdista no ambiente universitário e abrem espaço para vozes discordantes.

Neste ano, como resultado do seu projeto e da qualidade de sua trajetória intelectual, Gabriel Giannattasio foi indicado pelo presidente Jair Bolsonaro como membro do Conselho Nacional de Educação (CNE). Talvez seja esse o cargo mais alto já ocupado por um docente da UEL. No entanto, em vez de cumprimentá-lo, a administração da universidade “presenteou-o” cancelando o projeto A Casa da Tolerância.

Gabriel conversou com a reportagem do BSM sobre os próximos passos de sua luta em defesa da liberdade de pensamento.   

 

BSM: O que é o projeto ‘UEL, a casa da tolerância’?

Gabriel Giannattasio: Desde pelo menos o final da primeira década do século XXI começaram a surgir sinais evidentes de que existiam problemas de monopólio e hegemonia intelectual nas Universidades e na educação, de modo geral. A disseminação de uma cultura conservadora na sociedade não tardou a penetrar os muros da academia, impondo novos desafios aos, até então, reinos exclusivos e dominados pelas pautas progressistas. As mídias sociais contribuíram de modo decisivo nesse processo, descentralizando os meios tradicionais de veiculação das informações. Os intelectuais, depois de décadas a fio reinando solitariamente, passaram a ser desafiados por novos atores e, pouco a pouco, foram demonstrado sua falta de tato e de treino para os embates ideológicos. Não tardou para que os problemas começassem a aparecer. Fomos, lentamente, nos dando conta de que a democracia, o respeito à diversidade e a pluralidade de ideias era um jogo de cena que se sustentava na ausência de legítimos antagonistas.  Começamos a testemunhar, ainda no ano de 2009, os primeiros indícios de que ‘havia algo de podre no reino da Dinamarca’ e este mau cheiro foi se intensificando na década seguinte. Foi neste contexto que um grupo, de intelectuais, profissionais liberais, escritores, docentes e alunos, resolveu criar, em fins de 2017, um projeto acadêmico intitulado ‘UEL, a casa da tolerância’. Redigimos um pequeno texto, uma espécie de carta de princípios, organizamos uma programação de filmes, palestras e debates, criamos uma página do projeto no Facebook para divulgar nossas atividades. À época ainda acreditávamos e, por isso, desejávamos apresentar a Universidade como um exemplo a ser seguido pela sociedade, um microcosmo fundado na liberdade de pensamento, no direito ao contraditório, no debate respeitoso e civilizado das ideias. Queríamos, enfim, mostrar que a UEL era a expressão mais bem acabada da tolerância e que os testemunhos que diziam o contrário representavam algum acidente de percurso. Enfim, queríamos mostrar, com orgulho, que a Universidade era o lugar da diversidade demográfica e de pensamento. Ou seja, queríamos mostrar que a Universidade era digna do nome que carregava e de sua tradição. Surpreendemo-nos com o que fomos descobrindo nesta trajetória e quanto mais escarafunchávamos mais pestilento se tornava o mau cheiro.

 

BSM: Como as instâncias acadêmicas reagiram ao surgimento deste projeto ‘UEL, a casa da tolerância?
Gabriel Giannattasio:
Até então não imaginávamos a dimensão do problema. Sem saber, o projeto acabou incendiando um debate que estava surdo, latente e que, aparentemente, ninguém ousava torna-lo manifesto. A proposta teve o efeito de uma faísca num palheiro seco salpicado de pólvora. As dificuldades começaram logo que o projeto foi apresentado e antes mesmo de iniciarmos sua execução. A princípio os argumentos eram da mais baixa qualidade e, para se ter uma ideia, um docente da Universidade escreveu, em redes sociais da instituição, que os mentores da proposta estavam comparando a Universidade a um bordel, mas, certamente, ele sabia a diferença entre casa DE tolerância e casa DA tolerância. Aparentemente, apesar de algumas resistências pontuais, o projeto foi aprovado e sua execução teve início. De outro lado, uma parte significativa da comunidade acadêmica e da sociedade londrinense, saudou a iniciativa e recebemos muitas mensagens que indicavam a necessidade de um projeto com este perfil. Passamos a ser uma espécie de referencia confiável para a denúncia de casos de intolerância e a cada caso que recebíamos solicitávamos a abertura de uma averiguação junto a Ouvidoria da Universidade. De modo privado, alunos e ex-alunos ressaltavam o desconforto em assumirem publicamente suas posições políticas, crenças religiosas – em especial aquelas de matriz cristã – e muitos se queixavam de se sentirem isolados, mesmo na sala de aula a que pertenciam, após manifestarem seu modo de ver e pensar a realidade. É importante frisar que os problemas que estamos apontando não afetam de modo igual todos os cursos e instâncias da Universidade, alguns estão mais comprometidos, outros menos. Os ambientes mais suscetíveis à ideologização são os que apresentam os maiores problemas, ainda assim há aqueles que conseguem administra-los com maior serenidade e equilíbrio.


BSM: Quais as principais ações do projeto nos últimos dois anos?
Gabriel Giannattasio:
Em novembro de 2017 demos início às atividades com a exibição do filme “O jardim das aflições”, do diretor Josias Teófilo. A película foi escolhida a dedo, pois entendíamos que, se se quer testar o nível de abertura ao diferente de uma pessoa, grupo ou comunidade, deve-se conhecer o seu metabolismo e seus níveis de tolerância. Não há exercício de tolerância fora da provocação e provocar era a tarefa da Casa. É importante destacar que não concebemos a tolerância como uma espécie de aceitação resignada; tolerar não significa ausência de crítica, mas se traduz numa sentença cara ao espírito dos iluministas, “mesmo não concordando com nada do que um outro tem a dizer, defenderei, às últimas consequências, o direito de dizê-las”. Foi, diga-se de passagem, por ter adotado este princípio que nossos problemas começaram. No início do ano seguinte realizamos uma mesa redonda sob o título “A tolerância e seus limites” e uma palestra com o filósofo Eduardo Wolf a partir do tema “Arte e política”. Estas atividades sofreram o boicote da comunidade acadêmica, seja organizando “manifestações artísticas” no próprio local onde se desenvolvia nossa programação, seja realizando atividades paralelas. Contemporaneamente, dirigimos uma carta aos Departamentos de diversas áreas de humanas solicitando a indicação de nomes para compor algumas mesas de debate a serem realizadas no segundo semestre de 2018. Destinamos, também, o mesmo convite a conhecidos especialistas nas diversas temáticas. Destes últimos ouvimos um clássico argumento ‘com fulano não me sento na mesma mesa’ e dos Departamentos convidados um sonoro silêncio. Como não queríamos repetir uma experiência que, até então, criticávamos, a saber, organizar mesas de debate em que os convidados pertencem ao mesmo campo ideológico ou espectro político, resolvemos suspender a programação. Começamos a nos dar conta de que a situação era mais grave que aquela, inicialmente, imaginada. Compreendemos que, se a intolerância havia atingido tal grau de contaminação, eram necessárias políticas acadêmicas saneadoras. Mas, era preciso apresentar as provas desta situação e, para isto, começamos a reunir documentalmente casos de intolerância acontecidos de 2009 até 2018. Transformamos este relato num dossiê que foi entregue ao reitor da Universidade Estadual de Londrina no dia 19 de março de 2019. Era um gesto simbólico, estendíamos a mão à administração da Universidade, pois entendíamos que, para além das ideologias, o intelectual no exercício de sua função pública deveria ser capaz de reconhecer a gravidade do problema e agir. Mal sabíamos nós que ali se inaugurava e recrudesceria uma nova fase da perseguição ao projeto e seus membros, agora com o olhar cúmplice da atual reitoria. O movimento estudantil, dominado quase que absolutamente pela esquerda, pôs-se a conspirar contra o projeto. Lista com os nomes dos integrantes da Casa começaram a circular pelas redes. Reuniões estudantis orientavam os discentes a boicotarem as atividades do projeto, a denunciar os seus integrantes e agir sob todas as formas e meios disponíveis contra os docentes que dele participavam. Para estas organizações éramos fascistas que deveriam ser expulsos da Universidade. Até mesmo meios de comunicação ‘oficiais’ da instituição abriam espaço para que fossemos atacados e chamados de fascistas. Foi neste contexto que surgiram campanhas, como a da semana de recepção dos calouros do curso de história do ano de 2019, na qual os recém ingressos no vestibular eram fotografados segurando um cartaz onde se lia: “Entrem no carro historiadores, vamos bater em fascistas”; ou o movimento, nascido nas redes sociais e que antecedeu a exibição do documentário “1964: o Brasil entre armas e livros”, que chamava todos os alunos e simpatizantes da causa para “expulsar os fascistas da UEL”. Com esta postura adotada pelo movimento estudantil, acobertada pelo silêncio de quem não via com bons olhos o que estava ocorrendo, mas tinha receio de se manifestar, somado à cumplicidade da atual administração da UEL, não tardou a aparecer um abaixo-assinado subscrito por uma parte dos meus alunos, exigindo o meu afastamento da sala de aula. Qual o principal motivo alegado? Pasmem! Diziam que, quando apresentavam seus projetos monográficos nos seminários da disciplina, eu os contraditava e isto prejudicava o desenvolvimento cognitivo deles, ou seja, era o método socrático condenado à cicuta ainda uma vez. Para piorar o quadro, as instâncias acadêmicas da UEL levaram adiante este absurdo e decidiram dividir a disciplina em duas turmas, os que queriam continuar tendo as aulas comigo e os que se sentiam cognitivamente prejudicados, um verdadeiro ‘apartheid ideológico’. Foi necessária a intervenção do Poder Judiciário, graças a uma liminar concedida, para que a turma fosse reunificada. A decisão judicial contrariou a vontade dos dirigentes da Universidade. Pergunto-me, frequentemente, isto é um ambiente acadêmico? Nesse processo, observamos que as diferenças de pensamento, ao invés de serem enfrentadas no território próprio e saudável que a academia nos oferece, eram transformadas em processos disciplinares, administrativos e acadêmicos. Notamos que estava em curso uma judicialização das diferenças ideológicas e resolvemos ir pesquisar os arquivos que guardavam esta documentação, uma verdadeira caixa preta das Universidades. Passamos praticamente um ano avaliando os processos que abrangiam o período de 2009 a 2019, e que eram gerados a partir de uma variedade de rubricas: assédio moral, falta de urbanidade, falta de decoro e às vezes até assédio sexual. Afinal, ninguém processa ninguém por intolerância ideológica. A partir do momento em que uma mentalidade se torna doentia e adota a tese de que ‘há a moral nossa e a deles’, nenhuma lealdade deve ser esperada. Diante de um princípio como este não existem valores universais, tudo depende, tudo é relativo, e um mesmo ato pode ser glorificado ou criminalizado, a depender de qual lado está quem o comete. Num ambiente contaminado por esta lógica não existe a possibilidade de um debate público minimamente respeitoso.

BSM: Nesse período, de que maneira vocês sentiram na pele os efeitos da intolerância ideológica?
Gabriel Giannattasio:
Os efeitos da intolerância, nestes ambientes, começam quando você passa a ser identificado ou a dar sinais de heterodoxia. As coisas pioram se, para além destes sinais, você ousar desafiar as ortodoxias constituídas. Antigos colegas se afastam, os convites para compor bancas de defesa, mesas redondas e de debates, palestras e cursos começam a minguar. Possíveis alunos orientandos passam a pensar dez vezes se vale a pena comprometer-se num trabalho cujo futuro está condenado. Pouco a pouco você vai se tornando um pária e isto, certamente, é passível de ser identificado nos números de um currículo. Psicologicamente a autoestima vai sendo destruída, a confiança vai sendo abalada e as forças vão sendo vagarosamente minadas. Estão cozinhando o dissidente em banho-maria enquanto preparam o banquete antropofágico. Eu estava sendo preparado para este ritual quando, creio até que de maneira inconsciente, comecei a estabelecer relações com o entorno da Universidade, com a sociedade que a circunda. Foi este encontro não planejado que renovou minhas energias e nos permitiu criar este projeto-movimento ‘UEL, a casa da tolerância’. Creio que todos os que aderiram ao projeto sacrificaram, de alguma forma, suas vidas pessoais e profissionais. Estou no final de carreira na Universidade e queria deixar a minha melhor contribuição para ela, mesmo sabendo a dose de sofrimento decorrente desta decisão. Agora, nestes dois últimos anos, a verdadeira natureza do monstro se tornou visível; ao ser exposto, ele reagiu. Fomos confrontados das mais diferentes formas, desde o boicote velado às nossas programações – até admissíveis como uma estratégia do jogo – a denúncias que pediam a interrupção do projeto apresentadas por um colegiado departamental, cartazes da Casa que eram retirados dos murais, desacatos ocorridos em corredores e estacionamento, ameaças e intimidações que foram se intensificando no primeiro semestre de 2019 até culminar com os horrores daquela fatídica noite de 3 de abril, data em que foi exibido o documentário “1964: o Brasil entre armas e livros”.

BSM: Passados os dois primeiros anos do projeto [2018/9] vocês solicitaram, às instâncias da UEL, uma prorrogação por mais um ano. Como foi recebido este pedido?
Gabriel Giannattasio:
Após dois anos de execução do projeto ‘UEL, a casa da tolerância’ solicitamos a prorrogação por mais doze meses. O pedido tramitou acompanhado do relatório das atividades desenvolvidas nos dois anos de sua execução. Primeiro ele foi avaliado pela Comissão de Extensão do Departamento, depois pela Comissão de Extensão do Centro e, finalmente, as decisões tomadas nas Comissões foram levadas para a reunião do Conselho pleno do Centro de Estudos para ser homologada. Este é o curso normal dos processos e obedecem à legislação e a tradição de funcionamento das instâncias. Contudo, no caso deste projeto, as coisas não caminharam exatamente assim. Usaram todos os expedientes disponíveis para impedir a sua continuidade. Felizmente as intervenções de alguns conselheiros, registradas na ata desta reunião, trouxeram um pouco de luz para a trama, ainda que não tenham sido capazes de reverter decisões que, antes mesmo da reunião, já estavam tomadas.

Diz uma conselheira:

“reafirma que tecnicamente o professor atendeu às exigências colocadas pelo centro [...].”

Outro docente argumenta:

“que o pedido de prorrogação passou pelas comissões anteriores e em todas as instâncias anteriores recebeu parecer favorável [...].”

A primeira docente retoma a palavra para afirmar que:

“considera que os rumos que estão sendo tomados para este projeto não são muito comuns, pois não é de praxe um projeto ser aprovado pelas comissões e depois ser reprovado no Conselho de Centro. Ela acrescenta que o relatório devia ser avaliado somente com as menções técnicas. Registrou que é uma posição pessoal, não é uma posição imbuída de ideologia e gostaria que fosse registrado.” [Trechos extraídos da ata de reunião do Conselho de Centro do dia 07/07/2020].

A situação adquiriu tal dramaticidade que numa primeira rodada de votação houve empate: 6 conselheiros votaram favoravelmente a prorrogação, 6 votaram contra e 11 se abstiveram. Nova rodada de discussão foi aberta e depois dela, uma nova votação, nesta, 4 foram favoráveis a prorrogação, 9 contrários e 9 se abstiveram.

Mas, afinal, do que nos acusam e porque a Universidade CANCELOU o projeto? Algumas declarações registradas em ata podem nos dar uma pista do problema. Um docente membro do Conselho de Centro declarou: “um projeto que vem desqualificando bastante o corpo docente, o departamento, em certa medida a própria UEL”; numa outra passagem o mesmo declara: “o projeto compromete a imagem do CLCH, do departamento frente à sociedade e à instituição”. O representante dos alunos no Conselho de Centro apela: “para que o Conselho não aprove o pedido de prorrogação” e diz “que se preocupa com os problemas que este projeto desencadeou”. A Pró-Reitoria de Extensão, questionada sobre a existência de um caso análogo a este, ou seja, um pedido avaliado e aprovado na Comissão de Extensão do Departamento e, depois, na Comissão de Extensão do Centro é reprovado na reunião do Grande Conselho, respondeu:

“informamos que, desde o início da atual gestão da PROEX, não houve caso análogo”.

Para nós, membros do projeto, está evidente, a intolerância ideológica é um problema real que foi documentado e se tornou público, em boa medida pelas ações de nosso trabalho. Agora, as instâncias superiores de avaliação da Universidade adotaram a famosa e nociva tese, a que fizemos referência anteriormente, ‘há a moral deles e a nossa’, fundadas neste princípio realizaram a mais completa inversão de valores: quem expôs o problema deve ser punido e censurado. Que se puna quem abriu esta caixa de Pandora.  Prorrogação indeferida!

 

BSM: O sr. foi nomeado recentemente como membro do Conselho Nacional de Educação. Como a Universidade reagiu a isso? Você pretende levar os temas da tolerância ideológica e da liberdade de pensamento ao CNE?
Gabriel Giannattasio:
Há um fato bastante interessante e que ilustra bem a situação. No mesmo dia em que os novos conselheiros do CNE tomavam posse, 4 de agosto de 2020, os destinos de nosso projeto eram decididos numa reunião da nossa Universidade. Tudo se passou como se o projeto ‘UEL, a Casa da Tolerância’ estivesse recebendo um reconhecimento meritório pelo seu trabalho em Brasília, enquanto a Universidade – me refiro aos gestores que falam em seu nome – agia para cancelá-lo. Estamos convencidos de que este problema de intolerância e diversidade de pensamento não é um problema local e particular de nossa instituição. Nem é um problema atinente e exclusivo à educação superior. Sintomaticamente, nem o Departamento ao qual pertenço, nem a Reitoria da Universidade se manifestaram acerca desta nomeação e este vergonhoso silêncio é típico de quem transita numa lógica moral seletiva.
Quanto à segunda parte da pergunta, é necessário dizer que sou docente do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina desde 1994. Ao longo destas quase três décadas, dediquei-me exclusivamente à docência e a formação de professores, ao desenvolvimento de projetos de pesquisa e extensão e a escrever e traduzir livros. Não foi, portanto, a experiência com a administração escolar ou universitária que me levou ao CNE. Mas foi o tema em torno deste movimento difuso chamado liberdade de pensamento e tolerância ideológica que nos conduziu ao Conselho e certamente o que começamos a fazer num plano mais local agora exige de nós traduzi-lo em escala nacional. Não vamos vencer esta batalha localmente. Imagino que um amplo movimento apartidário que adote propósitos muito próximos aos de nossa ‘Casa da tolerância’ deverá surgir no Brasil. Estou bastante convencido de que o Conselho Nacional de Educação desempenhará um papel fundamental neste processo, tendo já demonstrado muita sensibilidade ao problema, e encontrará os meios de exercer o protagonismo neste debate.

BSM: O projeto vai continuar, mesmo sem a chancela da Universidade?
Gabriel Giannattasio:
Inicialmente a ideia é recorrer desta decisão. Há outras instâncias às quais cabe recurso, ainda que não estejamos muito confiantes sobre a possibilidade de reverter a decisão, em especial considerando o comprometimento da atual direção da nossa Universidade. Mas, independentemente do parecer que, porventura, será dado, o projeto continuará, sobretudo porque o pedido de prorrogação, por mais um ano, serviria para reunirmos todo o material produzido, pesquisado e analisado nestes dois anos e torná-lo publico através da edição de um e-book. Este trabalho, que já está em curso, será levado a cabo independentemente das decisões que serão tomadas pelas instâncias da universidade. Mas, chegou o momento de darmos um salto qualitativo. É preciso que se constitua nacionalmente um movimento capaz de reunir a comunidade acadêmica brasileira, com disposição para desenvolver estudos acerca do tema, nos moldes de nossa Casa da Tolerância.


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