DIÁRIO DE UM CRONISTA

Uma facada no coração

Paulo Briguet · 30 de Novembro de 2020 às 14:01

Um crime que é um alerta para todos nós: garota mata o próprio pai por estar apaixonada pela madrasta

Está solta no mundo a simples anarquia;
Está solta a maré escura do sangue, e em toda parte
A cerimônia da inocência se afogou;
Falta aos melhores convicção, enquanto os piores
Estão cheios de ardor apaixonado.

Há exatamente 100 anos, em novembro de 1920, o poeta irlandês W. B. Yeats publicava na revista The Dial os versos citados acima. Trata-se de um dos mais importantes poemas do século XX, intitulado “The Second Coming” (A Segunda Vinda). Hoje pela manhã, sem nenhum motivo aparente, busquei uma antologia de Yeats na prateleira e abri justamente nas páginas 94-95, onde estão o texto original do poema e a sua tradução por Péricles Eugênio da Silva Ramos.

Minutos depois de reler o poema, recebo a notícia do parricídio em Jataí (GO). Uma garota de 13 anos matou o pai com uma facada no coração, por estar apaixonada pela madrasta.

O que leva uma adolescente a cometer tamanha atrocidade? ― é a pergunta que todos imediatamente todos fazemos. E a resposta é dada por Yeats:

 Está solta no mundo a simples anarquia;
Está solta a maré escura do sangue, e em toda parte
A cerimônia da inocência se afogou

Beatriz tinha 8 ou 9 anos quando Dante a viu pela primeira vez; durante toda a vida do poeta florentino, Beatriz permaneceu como a imagem da pureza, da virtude e da inocência ― a ponto de ser Beatriz a guia de Dante por parte do Paraíso. Ora, o que temos visto acontecer com os jovens, no Brasil e no mundo, é o afastamento completo de todo e qualquer vínculo com a inocência. O respeito e o amor pela família situam-se, para os ideólogos do caos, em um plano muito inferior ao dos desejos pessoais. A desconstrução dos valores familiares, promovida pelos movimentos identitários, afogou a inocência das últimas gerações em uma sombria maré de instintos que não conhecem limites, medidas ou conseqüências. O resultado é que temos, nas escolas e nas universidades, nas casas e nas ruas, nas mídias e nas esquinas, uma legião cada vez maior de jovens escravizados por seus próprios instintos, e que não reconhecem nenhum sacrifício e nenhuma virtude além do prazer pessoal imediato.

O caso do menino Rhuan, assassinado em 2019, após ser castrado e torturado por um par lésbico, transformou-o no primeiro mártir da ideologia de gênero no Brasil. O assassinato de hoje comprova que as sementes do mal continuam sendo plantadas. Sim, porque algum dia alguém semeou na mente dessa garota a convicção de que a realização de seus desejos era a coisa mais sagrada do mundo, muito superior a qualquer autoridade paterna ou afeto familiar. E ninguém apareceu para dizer que essa supremacia dos desejos significa a barbárie, afinal...

Falta aos melhores convicção, enquanto os piores
Estão cheios de ardor apaixonado.

Dentro da simbologia bíblica, a palavra coração não tem a conotação sentimental e romântica que geralmente lhe atribuímos. Trata-se de um termo que expressa o centro e a totalidade da consciência humana. A infeliz garota que matou o próprio pai não sabia, mas estava expressando o gesto simbólico do que os ideólogos do mal ― estes que já dominam os meios culturais, educacionais e midiáticos ― pretendem fazer com toda a nossa sociedade.

Acordem antes que seja tarde.

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.


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