ENTREVISTA

Uma batalha em defesa das crianças

Brás Oscar · 26 de Julho de 2020 às 12:15

Atriz e apresentadora Antonia Fontenelle fala ao colunista Brás Oscar, do BSM, sobre seu apoio ao movimento "Mães Contra Felipe Neto", que ganhou força nas redes sociais

Felipe Neto pede que você assista ao seu canal por apenas uma semana. Com uma boa retórica, ele pede para que as pessoas que levantaram a hashtag “Mães contra Felipe Neto” assistam um vídeo por dia, durante sete dias, para assim poderem decidir se realmente seus filhos devem ser “protegidos de sua influência”.  Felipe, em tom amigável, diz que entenderá perfeitamente se você, depois de conhecer seu trabalho, continuar se posicionando contra. Esse é o Felipe Neto defensor da liberdade de expressão, jovial, de mente aberta e que respeita as diferenças de opinião.

Em seguida, o mesmo Felipe passa a mostrar quem são as pessoas comuns que apoiam a hashtag. Ele faz um link entre a posição política destas pessoas e seus motivos para não gostarem de seu canal. Mostra que uma das mães que postou a hashtag, chamada Nádia Senger, apoia o governo Bolsonaro e dá retuítes em postagens do jornalista Allan dos Santos, a quem ele se refere como “aquele cara investigado pela Polícia Federal (…) que segue Olavo de Carvalho”. Para Neto, isso desqualifica a mãe para o debate; “Poxa, Nádia, assim fica difícil”, reclama Felipe, numa simulação de complacência. Esse é o Felipe Neto que separa as pessoas em castas de quem pode opinar ou não, conforme aquilo que ele julga ser verdadeiro e bom.

Falas recentes de Felipe Neto afirmam que ele não faz mais conteúdo para crianças, e que antes não tinha indicativos de que seu público era infantil... É confuso e difícil de acreditar. Como todo sujeito histriônico, ele parece atuar o tempo todo, a reinterpretar as próprias falas constantemente, e é difícil distinguir os muitos personagens que ele interpreta involuntariamente, como que para blindar-se do julgamento alheio.

Um outro pai que o critica abertamente no Twitter, “enquanto você trabalha, ele doutrina seus filhos”, vira alvo da ironia do Youtuber: “Como que eu doutrino uma criança? (…) Ela vai ser doutrinada por mim a querer jogar Minecraft?”. E se assistirmos apenas a uns poucos últimos vídeos de seu canal, realmente pensaríamos que se trata só de mais um marmanjo infantilizado jogando videogame nas redes sociais e tecendo algumas opiniões ácidas. Entretanto, Felipe apagou recentemente vários vídeos de seu canal.

Impossível negar que há anos as imagens de Felipe e Luccas Neto são associadas ao público infanto-juvenil; tanto no Brasil, quanto em Portugal. Ao caminhar pelos shoppings de cidades portuguesas, não é difícil encontrar os bonecos de gosto duvidoso de seu irmão Luccas Neto, que reproduz gravações de gritos descompensados com frases toscas do próprio Luccas, destinados à venda para o público infantil. O livro supostamente escrito por Felipe é vendido na Fnac, em Portugal, por €8.40. Nas avaliações do livro pelos clientes, encontramos mães a dizer que compraram os livros para crianças, e que seus filhos adoram os irmãos Neto. O livro, claramente voltado para o público infantil, pois traz jogos e atividades como extras, foi lançado em 2018, e isso parece deixar nítido que já a essa altura, Felipe sabia claramente que seu publico era composto por uma maioria de crianças.

Um ano antes do lançamento de seu livro focado em público infantil, Felipe postava vídeos como este, em que ele fala explicitamente sobre o pênis de um funkeiro e sobre sexo de forma promíscua e banal.  Circula livremente pela rede um vídeo em que o mesmo responde com ofensas sexuais a uma internauta que o criticava. Esse é o Felipe Neto que pode ensinar aos seus filhos algo pior que ser um zumbi idiotizado com jogos eletrônicos.

E como o mundo não é feito só de parvos e incautos, era mais que esperado que o assombro de tantos anônimos, que não entendem como alguém pode oscilar entre o discurso pornográfico e o público infantil como uma biruta ao vento, ganhasse corpo e encontrasse eco entre aqueles que tem voz, de fato, na internet. É fácil tripudiar as desconhecidas nádias sengers, pessoas comuns com uma conta de 50 seguidores no Twitter e que jamais terão direito de resposta com o mesmo alcance para fazerem suas réplicas, mas quando celebridades com milhões de seguidores entram na briga, conhecemos mais uma persona do rapaz andrógino de cabelos multicoloridos: o Felipe Neto que promove boicotes e enquadramentos contra quem se põe em seu caminho.

Antonia Fontenelle, atriz e apresentadora, com um canal de sucesso no YouTube com quase dois milhões de inscritos e mais de 200 mil seguidores no Twitter, e que também é mãe e avó, resolveu dar voz para a campanha. Felipe Neto poderia tripudiá-la e ironizá-la como faz com os pais aflitos que o criticam, fingindo que aquilo não o afeta, usando a máscara do primeiro Felipe, aquele que defende a liberdade de expressão. Mas Fontenelle despertou aquele último Felipe, o que usa influência e advogados para incomodar quem o critica.

No dia 15 de junho, a apresentadora divulgou uma edição com recortes de vídeos dos irmão Neto. As imagens realmente têm conotação sexual, mas os irmãos youtubers se defendem dizendo que a edição descontextualiza as cenas. A situação gerou um processo, em que Felipe e Luccas acusam Fontenelle de divulgar fake news e de difamação. O processo corre em segredo de Justiça e já está em fase de apelação; entretanto, Antonia Fontenelle gentilmente atendeu nossa reportagem e falou com exclusividade sobre a situação para o Brasil Sem Medo. Segue a entrevista.

 

BSM: Antonia, você gostaria de resumir a situação? A imprensa está noticiando sua campanha como “ataque”. É um ataque ao Felipe ou uma defesa à família?

Antonia Fontenelle: Eu nunca ataco ninguém, eu só me defendo. Tudo começou quando eu repostei um vídeo que estava e continua na Internet, porque eu me ative às falas dos youtubers de poder de alcance absurdo e chamei a atenção para os irmãos Neto, uma vez que trabalham com crianças. Não adianta dizer que ele não trabalha com criança porque ele trabalha com crianças, sim. O público dele sempre foi infantil, porque nenhum adulto em sã consciência segue o conteúdo do Felipe Neto. Dito isso, foi uma defesa como mãe, como avó e como cidadã de bom senso. Chega! É inadmissível. Não dá mais pra fechar os olhos pra esse tipo de coisa: gente que doutrina pessoas, disfarçado de bom moço. Se você reparar, todas as coisas dele acabam em algo de cunho sexual. Tanto que, os seguidores deles, menores de idade, crianças 11, 12, 13 anos de idade, me ameaçam de morte. Esse é o tipo de criança que ele está formando; que hoje ameaça, e amanhã está matando.

 

Brasil Sem Medo: Felipe Neto parece ter o mesmo modus operandi: utilizar seu direito de liberdade de expressão para criticar as pessoas, mas boicotar e ameaçar qualquer um que tente lhe criticar. O Felipe tem a fama de jogar muito pesado, e parece ser alguém que acumulou muito poder. Você chegou a titubear antes de comprar essa briga ao pensar nisso? Você gostaria de falar abertamente sobre a sua percepção das reações dele?

Antonia Fontenelle: É exatamente isso. Ele tem o modus operandi de atacar; só ele pode ter liberdade de expressão, só ele pode criticar, só ele pode boicotar. Mas quando ele é criticado, ele se esconde atrás de processos, do sistema judiciário. Ele quer calar as pessoas. Ontem eu quis postar nas minhas redes sociais um vídeo de um Youtuber alertando sobre ele. Eu não pude porque ele já bloqueou qualquer vídeo ou comentário que tenha “Felipe Neto”. O nome disso é censura.

 

Brasil Sem Medo: Qual sua expectativa em relação a essa campanha? A quantidade de pessoas “comuns” aderindo parece ser grande, ajudaria se mais famosos aderissem?

Antonia Fontenelle: Um belo dia eu acordo e dou de cara com o movimento “Mães contra Felipe Neto”. Mães do Brasil inteiro, lugares que eu nem imaginava que existissem, porque esse país é rico, gigante… Mães contra Felipe Neto e a favor de Antonia Fontenelle. Eu fiquei numa felicidade! Eu estou sendo processada, passando por uma tentativa de me calarem, e eles alegam no processo que é porque eu tenho um alcance gigante. Graças a Deus, tenho. O meu público é A e B, e agora eu estou entrando na C; publico consumidor, publico pensante, e público fiel há 6 anos. Meus quase dois milhões de inscritos no meu canal valem por cem milhões, porque são pessoas pensantes. Não são crianças induzidas pelo tipo de conteúdo do Felipe Neto. Os pais trabalham e não têm tempo de acompanhar o que filhos assistem na Internet – é muito difícil para eles estar dentro de casa, vendo um vídeo no computador, Parece algo seguro, mas é ali que mora o perigo. Eu digo que esses dois são perigos sim. O conteúdo do Felipe Neto, as coisas que ele já fez e depois apagou, era para ele estar preso. O outro irmão (Luccas) ensina crianças a comer (referindo-se aos vídeos onde Luccas, junto com outras crianças, se entopem de doces). Há casos de criança que tomou remédio induzida por ele; obviamente ele não falou isso diretamente – vai lá e toma remédio e se mata – mas passou mensagens como “criança que toma remédio vira super-herói” - uma comunicação mal feita. Essas mães me apoiaram. Eu estou sendo processada, mas posso estar sendo usada como instrumento para abrir os olhos de pais do Brasil inteiro. E eu só tenho a agradecer aos pais que começaram isso. Eu não sou líder de nenhum movimento, eu não pertenço a nenhum balaio político, eu não apoio nenhum partido. Eu apoio o Presidente da República, porque eu acho que agora é o melhor que nós temos. Não dava pra continuar com o PT. A imprensa e os artistas, no mundo todo, são de esquerda; então me sinto bem solitária (como sempre fui) e tá tudo certo, eu tenho Deus comigo. Eu não estou preocupada com famosos aderirem; a maioria dos famosos estão preocupados com o próprio umbigo, eles não querem ter opinião, porque pra eles, ter opinião é prejuízo. Eu não estou preocupada só comigo, porque o mundo não gira em torno do meu umbigo; gira em torno de um coletivo, e é por isso que a gente tem de brigar.

 

Brasil Sem Medo: Você considera que a tentativa de criar uma lei das fake news prejudicará a liberdade de expressão?

Antonia Fontenelle: Eu acho que essa lei é importante, sim, mas ela tem que ser muito elaborada, porque muita gente vagabunda vai se esconder atrás dela. E te digo mais: o Felipe Neto é um dos caras que mais comete Fake News nesse país. Ele foi no New York Times fazer um vídeo falando merda, foi criminoso o que ele fez. Apresentar o país que ele mora de forma errada pro mundo. Isso é de uma irresponsabilidade… ele tinha que ser punido por isso, porque ele foi lá mentir. Ele colocou vídeos editados e fora do contexto com falas do Presidente. E ele quer me processar por postar um vídeo que também foi editado, porém, eu me ative a fala deles. E ele realmente falou aqueles absurdos que está no vídeo (que eu publiquei) e nada daquilo pode mudar. Ele já apagou mais de 100 vídeos do canal dele de conteúdo duvidoso, mas não adianta apagar, a Internet registra tudo.


Brasil Sem Medo: Há milhares de “Felipes Netos” em potencial pelo mundo. Se o atual cair, logo colocam outro em seu lugar. Qual sua ideia de como proteger os pequenos desse tipo de má influência comportamental na internet? O papel da família ou do Estado é mais importante nessas situações?

Antonia Fontenelle
: Que o Felipe Neto sirva de exemplo. Hoje estão na capa da Veja pessoas que não somam nada à vida de ninguém, e ele é um deles. Eu repostei isso e pedi que isso saia do virtual, que vá para a vida prática. Não adianta nada sair na capa da Veja se ele continua tendo milhões de seguidores. As pessoas fazem muita campanha na Internet; isso tem que ir pra prática. Eu chamo atenção das pessoas, dos pais principalmente, para estudar sobre os sociopatas, sobre as características da sociopatia Há vários tipos de sociopatas – por exemplo: um sociopata que te manda uma mensagem, que por trás quer dizer outra coisa, aquilo entra no subconsciente das pessoas, sim: isso é um perigo muito grande. Então eu acho que os pais têm de prestar mais atenção aos seus filhos, porque hoje essas crianças estão ameaçando: amanhã elas estarão matando, e a rua não perdoa. É hora de a gente retomar a educação dos nossos filhos e a base dentro de casa, porque a rua não dá base pra ninguém.

― Brás Oscar é colunista e correspondente do Brasil Sem Medo em Portugal e  coapresentador do programa Conexão Europa no canal PHVox.


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