CRÔNICA

Um herói da FEB continua entre nós

Claudio Dirani · 28 de Julho de 2021 às 19:46

A história de um pracinha que assustou a família por estar vivo

No entorno da Praça Tenório de Aguiar, no Jardim São Paulo, ainda existe um arvoredo que se esbalda de flores na primavera. Nessa mesma pracinha da zona norte paulistana que circunda uma antiga biblioteca, ainda consigo ver meu avô passeando comigo quando era criança.

Isso é fácil. Consigo fazer, toda a vez que fecho os olhos.

Foi em sua residência, um predinho antigo, de três andares, ao lado daquele oásis na selva de concreto (demolido para que um moderno prédio fosse erguido) que ele, Durval Della Torre, costumava me contar muitas histórias de suas idas e vindas pelo Brasil e pelo mundo. Incluindo uma que poucos puderam experimentar: a da tomada de Monte Castelo, na Segunda Guerra Mundial, em fevereiro de 1945.

Não posso dizer que eu o admirava apenas pelo heroico feito de ter ajudado os Estados Unidos a derrotar as fortificações de Hitler e Mussolini, naquela missão em terras italianas.

Meu avô era uma pessoa amável, doce, e lamentava ter atuado em uma guerra que tirou a vida de tantas pessoas. Essa sua aversão combinada à coragem de ter integrado a Força Expedicionária Brasileira talvez seja o seu diferencial. Aquilo que o transforma em um verdadeiro homem de coragem.

Em seu diário de guerra, o soldado 184 (seu número na FEB), deixou bem claro:

Creio que Deus é eterno e que a alma é imortal. E se um dia voltar para cidade em que nasci, e alguém perguntar por onde andei pelos anos de 1944 e 1945, poderei apresentar meu cartão de visita com os seguintes dizeres: eu marchei com as tropas expedicionárias brasileiras…”

Sua marcha com as tropas comandadas pelo general Mascarenhas, certamente, se transformou em um cartão de visitas.

Com a memória sempre vívida, meu avô relembrava os passos pela Itália, incluindo a prisão de soldados nazistas e o confisco de uma enorme bandeira com a suástica. Bandeira, esta, que lhe foi tomada, assim que o soldado retornou ao Brasil.

Sua origem humilde e interiorana (ele nasceu em Louveira, na região de Campinas, em 28/7/1919) o impedia de sucumbir aos males das sangrentas batalhas sobre a neve europeia.

O que ele gostava de contar e recontar mesmo era sobre sua chegada à pequena Louveira. Por um desses telefones sem fio da década de 1940, seus parentes foram informados que ele havia morrido na Itália. Com um sorriso aberto e testa franzida, ele se divertia, ao lembrar de sua aparição no meio de uma festa.  De repente, o falecido havia ressuscitado!

Hoje é um dia agridoce. Durval Della Torre me deixou apenas com essas histórias em 2003, também num mês de julho. Neste 28/7, ele completaria 102 anos.

Sua presença em minhas memórias garante: ele não morreu após a tomada de Monte Castelo, nem mesmo há 18 anos.

Ainda ouço sua voz me chamando para passear na praça Tenório de Aguiar.

Cláudio Dellatorre Dirani é colunista do BSM.

 


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