MORAL E RELIGIÃO

Um assassino no púlpito

Braulia Ribeiro · 22 de Agosto de 2022 às 16:27

Guilherme de Pádua perdeu o direito de ser um pastor ordenado no dia em que tirou de Daniella Perez o direito de viver

MORAL E RELIGIÃO

A mídia antibolsonarista nos fez olhar novamente para Guilherme de Pádua, o assassino confesso e condenado de Daniella Perez, que é agora pastor da Igreja da Lagoinha. A megaigreja Batista em Belo Horizonte foi visitada recentemente por Jair e Michele Bolsonaro e, segundo a falsa notícia divulgada por vários veículos da grande mídia, o presidente e a primeira-dama teriam almoçado com Pádua. A fofoca foi prontamente desmentida pelo presidente. No final de julho, a HBOMax havia lançado um documentário relembrando o crime ocorrido há 30 anos. Por essas e outras, Pádua voltou à memória da nação, e o sorriso largo do assassino recuperado passou a ser clickbait para youtubers e assunto de tuítes.

Insanidades midiáticas à parte, o fato intrigou algumas pessoas que como eu, se perguntaram: “O que um notório assassino está fazendo no púlpito de uma igreja?” Se você é uma dessas pessoas, este artigo vai lhe interessar.

Primeiro tenho que esclarecer que sou evangélica. Meu encontro com a fé aconteceu dentro de uma Igreja Batista em Belo Horizonte. Tenho grande apreço e respeito pelo movimento evangélico brasileiro em suas múltiplas expressões, que conheço como a palma da minha mão. Farei algumas críticas aqui, mas faço como alguém de dentro. Alguém que deseja que o movimento continue se aperfeiçoando e abençoando o Brasil com tem feito desde o início do século XX.

Para ter capacidade de tomar decisões de forma deliberada e consequente, todo ser humano tem de existir dentro de um espaço moral, que prescreva limites para as suas ações. Para construir nosso destino individual e nos movimentar na jornada da vida, precisamos de coordenadas morais. É o espaço moral nos informa sobre o que sejam o Bem e o Mal e nos possibilita localizar e medir nossas ações. O que é o melhor? Como agir? Quais são os ideais que merecem meu esforço e dedicação? O que é permanente e o que é efêmero? Por que fazer isso ou aquilo? Essas perguntas só podem ser respondidas dentro um espaço moral claro e objetivo. 

Essa declaração não é prescritiva; é uma constatação sobre a realidade da construção social.  O estudo da história revela que quanto mais claros os limites morais de uma sociedade, mais seus indivíduos conseguem florescer. Precisamos respeitar valores e princípios objetivos para sermos capazes de fazer o bem. E para fazer o bem, a pessoa precisa entender primeiro o que é o Bem. Para se atingir a excelência em qualquer área, precisamos de um profundo incentivo moral porque o sacrifício é grande. Temos que acreditar que o fazemos é nobre e digno e que tem valor para a posteridade. Os limites morais inferem nobreza às vicissitudes da vida, carregando eventos e papéis sociais de significado. Amor, sexo, paternidade, maternidade, morte e vida podem ser sublimes ou banais. Datas e acontecimentos podem ficar repletas de significância, norteando e ritualizando marcos da nossa existência terrena, ou podem se perder numa sucessão vazia de interesse ou razão de ser. Esse mapa dos valores que desenha a nossa vida se apoia na estrutura moral que cultivamos como sociedade.

A  moral que nos alerta também para a importância da vida e da liberdade do indivíduo. O valor  da família, da pátria, e da posteridade, dependem desse valor fundamental. É essa noção do Bem, compartilhada pela coletividade, que nos torna capazes do esforço quase sobre-humano que demanda a excelência nas artes, na ciência, na economia e nos esportes. Quer uma prova? É só olhar para o número de prêmios Nobel ou medalhas olímpicas obtidas pelos países.  Os Estados Unidos ganham em número de conquistas de todos os outros países. Alguém já se perguntou a razão dessa superioridade? A resposta certamente não está na “raça”; esses campeões vêm de múltiplas origens étnicas. Também não está no dinheiro que se investe, nem no incentivo que se dá às ciências e aos esportes. Esses fatores são consequências de uma razão mais profunda.  Com toda a sua corrida ufanista para propalar as vantagens de seus regimes e seu falso “orgulho nacional” a Rússia e a China não conseguiram superar os países ocidentais. Ameaça de bala e ambição por dinheiro não criam nobreza de caráter.  Tanto o interesse individual quanto o investimento nacional na excelência nascem de sentimentos morais objetivos. E esses sentimentos só são cultivados dentro de sociedades que advogam, cultivam e promovem esses valores — além de punir aqueles que não os observam.

É fácil de entender que os evangélicos, por terem sido uma minoria religiosa no Brasil nos últimos 100 anos, aprenderam a enfatizar certos valores que lhes permitiam afirmar sua identidade como movimento religioso. O principal tema do discurso evangélico é a conversão. A transformação do individuo de pária social, drogado, prostituído, perdido, infeliz, em uma pessoa integrada e socializada, capaz de achar seu norte na vida, se tornou a maior peça na construção da cosmovisão evangélica. O “testemunho” acaba sendo o eixo estruturante da vida do convertido. As igrejas dão destaque extra aos que têm o “testemunho” mais radical, e a fama é proporcional à lama da qual a pessoa saiu.

A centralidade dos testemunhos e a ênfase teológica na conversão não são prejudiciais em si mesmos, a não ser que tornem o discurso religioso em um “samba de uma nota só”. Parece-me que a construção do imaginário teológico de muitos no Brasil sofre desse mal. A graça salvífica passa a ser a única janela através da qual se interpreta a nossa relação com Deus. Todos os demais aspectos da vida e da igreja, inclusive a moral social proposta pelo Cristianismo, são interpretados através da graça.

É essa visão hipertrofiada da graça que leva muitos evangélicos a aceitarem um assassino no púlpito. A narrativa teológica é: “Mas se Deus o aceita para a salvação, por que não posso aceitá-lo para o ministério? Afinal, não é o ministério uma obrigação e, por que não dizer, um ‘direito’ do crente salvo? Se ele recebeu a graça salvadora de Cristo, tem todo o direito de pregá-la por aí, e se pode pregar para uma pessoa em particular por que não poderia exercer a função de pastor e pregá-la do púlpito?”

A resposta é simples. Mas preciso adiantar para o leitor que meu propósito não é convencê-lo, mas  provocá-lo a pensar um pouco fora da caixa da sua religião.   O arraigamento dos evangélicos brasileiros a essa graça hipertrófica não é apenas teológico, mas está na sociogênesis do movimento. A identidade cultural evangélica foi construída em cima dela, e denunciá-la é como deslegitimar a própria existência do movimento.
 

Ministério não é um direito, mas um privilégio

O ministério não é direito. A Bíblia o apresenta como um privilégio. É um chamado muito próprio e específico, privilégio de poucos “escolhidos” para isso pelo próprio Deus por razões divinas. “...Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus antes preparou para que andássemos nelas…” “…E ele deu uns como apóstolos, e outros como profetas, e outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres…” (Carta de Paulo aos Efésios, 2:10, e 4:10)

Muitas outras passagens bíblicas confirmam que existem boas obras gerais — obrigações que todos os fiéis devem exercer e boas obras específicas, que Deus na sua imensa sabedoria e bondade prepara para seus filhos individualmente. O ministério cristão do pastorado é apenas uma entre as muitas expressões de serviço à igreja e à comunidade que o cristão é chamado a exercer.

Como um privilégio, o pastorado sofre restrições e tem que ser exercido dentro de limites que expressam a estrutura moral que a religião propõe para a sociedade. Muitas denominações limitam o exercício do pastorado aos homens, e com isso pretendem obedecer à ordem social divina, compreendendo a asserção de Paulo de que “o homem é o cabeça da mulher” (I Carta aos Coríntios, 11:3) como uma instrução normativa não só para o lar, mas também para igreja.  Outros ordenam mulheres. Outras igrejas restringem a ordenação a homens casados. Algumas escolhem não permitir a ordenação de divorciados, etc.

A ideia subjacente é de que existem sim critérios morais e sociais que limitam a oportunidade de exercer o ministério. O próprio apóstolo Paulo, ao ensinar seu discípulo Timóteo, que tinha como responsabilidade fundar igrejas, deu instruções clara sobre aqueles que poderiam ou não aspirar ao cargo de líder e como esse cargo deveria ser exercido:

“…Se alguém aspira ao episcopado, excelente obra deseja. É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, temperante, sóbrio, ordeiro, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não espancador, mas moderado, inimigo de contendas, não ganancioso; que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com todo o respeito (pois, se alguém não sabe governar a sua própria casa, como cuidará da igreja de Deus?); não neófito, para que não se ensoberbeça e venha a cair na condenação do Diabo. Também é necessário que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em opróbrio, e no laço do Diabo.” (Carta de Paulo a Timóteo 3:1-7)

Essas passagens bíblicas apontam mostram que o ministro é uma metáfora divina para a vida cristã. Ele é a vitrine dos valores cristãos, além de prestar serviço aos crentes. Essa vitrine expõe não  apenas o que somos, mas o  que queremos ser. Como todos os valores morais, ela tem uma direção, o futuro.

Deus planeja através de sua igreja e entre ela seus líderes, preparar uma vitrine de experiências de vida para demonstrar para a sociedade em geral como viver. Mas fica a pergunta: E se o criminoso se arrependeu? Por que seu passado tem que ser contado contra ele?

Você vai notar que o Apóstolo Paulo não menciona assassinos. A razão é muito clara. Na sociedade em que Paulo vivia, os assassinos recebiam pena capital.  Um assassino nunca será “irrepreensível”. Nunca será um “exemplo dos fiéis.” O fato de um assassino ser capaz de “pagar a sua dívida com a justiça” numa sociedade como a nossa, cuja pena para o crime é mínima, não lhe confere uma licença para se tornar um modelo de vida. Essa prerrogativa ele perdeu no dia que tirou a vida de outro ser humano.

A vida humana é o maior valor que a sociedade cristã é instada a cultivar. Porque a vida humana é sagrada, todas as outras coisas que pertencem à nossa realidade social são também sagradas. O meio ambiente é sagrado porque dependemos dele para viver. A propriedade privada é sagrada porque nos permite ser livres. A família é sagrada porque com ela temos a oportunidade de gerar e cuidar de outros seres humanos, e assim por diante.

A sociedade brasileira, vivendo em um estado de quasi-anomia, aprendeu a ver o assassinato como um crime qualquer. Quando alguém rouba, pratica violência, abusa de mulheres ou crianças, trai a confiança da comunidade. Todo crime que viola essa confiança, deveria extrair a pessoa do convívio social, primeiro para a proteção dos inocentes — do cidadão de bem. Mas a segunda razão, igualmente importante, é que as penas funcionam como desincentivo, um sinal para que  quem  pensa em praticar tais coisas saiba o que vai lhe acontecer se o fizer. Sanções são necessárias para determinar o valor que a sociedade atribui ao Bem. Se a vida é o maior dos bens, entre todos os crimes que se possa cometer, tirar a vida de alguém é o mais gravel.

Temos que entender que a graça divina na terra não funciona independentemente da lei. A lei — ou seja, a determinação do que é valor e o que não é — alicerça o valor da graça. Quando se cancela a lei, cancela-se a necessidade da graça. Não estou dizendo que pessoas como Pádua têm que ser jogadas na rua sem o apoio da igreja. A comunidade tinha que abraçá-lo, sem dúvida, mas falhou terrivelmente em dar a ele o poder de representar a instituição sendo um pastor ordenado. Ele perdeu esse privilégio no dia em que roubou de Daniella o direito de viver.

Reclamamos frequentemente da violência no país. Um país que tem uma porcentagem enorme da população se dizendo cristã e ao mesmo tempo tem mais de 40 mil assassinatos por ano, não está entendendo e aplicando corretamente a moral cristã.

O fato de termos assassinos em nossos púlpitos não é uma demonstração da graça de Deus com nosso povo.  É uma aberração “jabuticaba” de um país que, mesmo tendo se cristianizado, ainda não aprendeu o que é caro para Deus. Essa nossa guinada para direita no Brasil vai dar aos evangélicos uma oportunidade de se corrigir. Vamos corrigir a normalização do mal que a graça barata encoraja?  Vamos nos unir aos outros cristãos e exigir dos legisladores um Código Penal que honre o valor da vida, ao invés do lixo que temos hoje, que privilegia o mal e afronta o bem?

 


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