IGREJA

Teremos um Papa Francisco II?

Juliana Freitag · 15 de Junho de 2022 às 16:58

Crescem as especulações de que o Cardeal Matteo Zuppi, representante da ala esquerdista da Igreja Católica, será o próximo pontífice
 

No dia 24 de maio, durante a 76ª Assembléia Geral dos Bispos Italianos, o Papa Francisco nomeou como novo presidente da Conferência Episcopal Italiana (CEI) o Cardeal Matteo Maria Zuppi, arcebispo de Bolonha, dando uma nova confirmação às especulações de que a rápida ascendência do prelado poderá eventualmente culminar em sua eleição como Papa no próximo conclave.

O mandato de presidente da CEI tem duração de cinco anos, escolhido e nomeado pelo Papa a partir de três nomes previamente votados por todos os membros da Conferência Episcopal. Esse protocolo foi estabelecido em 2017, por sugestão de Papa Francisco, que pediu uma “maior participação” dos bispos no processo. O estatuto precedente estabelecia que a nomeação deveria ser feita pelo Papa, sem nenhuma consulta à CEI.

O novo presidente foi anunciado pelo Cardeal Gualtiero Bassetti, atual presidente da CEI e arcebispo de Perúgia-Città della Pieve. Matteo Zuppi, de 66 anos, apelidado pela imprensa de “o Bergoglio italiano”, é arcebispo de Bolonha desde 2015 e cardeal desde 2019. Há muitos anos o nome de Zuppi sempre consta nas listas de papabili dos vaticanistas, ou seja, a lista dos candidatos com grandes probabilidades de obter um grande número de votos em um conclave. Sua aura de papabile é já tão reconhecida que a imprensa italiana constantemente procura ressaltar as semelhanças entre o Cardeal Zuppi e o Papa Francisco. O jornal La Repubblica, por exemplo, ao dar a notícia da nomeação do novo presidente da CEI, mencionou que a preferência de Francisco pelo cardeal provavelmente vem do fato de que o Papa enxerga em Zuppi “o Cardeal Bergoglio em seus anos em Buenos Aires”.

Dentre os jornalistas que classificam Zuppi como um forte candidato para um futuro pontificado, está o vaticanista Sandro Magister, conhecido na Itália como o “príncipe dos vaticanistas”. Magister em 2002 já havia previsto a eleição de Papa Francisco, e previu também que Zuppi seria nomeado como presidente da Conferência Episcopal Italiana, previsão divulgada pelo vaticanista Edward Pentin em seu livro The Next Pope: The Leading Cardinal Candidates (O Próximo Papa: Os principais cardeais candidatos), publicado em 2020. O livro contém perfis de todos os cardeais considerados papabili, incluindo o Cardeal Matteo Zuppi. A previsão sobre a nomeação para presidente da CEI baseia-se na análise da carreira eclesiástica de Zuppi, já que tal posição não é tradicionalmente ligada ao episcopado de Bolonha. O último arcebispo de Bolonha que foi presidente da CEI foi o Cardeal Antonio Poma, de 1969 a 1979.

O Cardeal Zuppi nasceu e passou boa parte de sua vida em Roma, onde desde adolescente envolveu-se ativamente na Comunidade de Sant’Egidio, uma associação leiga católica criada em 1968 e cujo foco está principalmente no auxílio aos pobres, na evangelização das periferias, no diálogo ecumênico e na tutela de refugiados de guerra. A associação é muito conhecida mundialmente por suas intervenções em tratativas de paz, ao ponto de receber da imprensa a alcunha de “ONU de Trastevere” (a sede da comunidade é em Trastevere, bairro de Roma ao sul do Vaticano). Uma das maiores obras de Zuppi dentro da Comunidade de Sant’Egidio foi sua mediação nas tratativas que levaram ao fim do conflito em Moçambique em 1992, feito pelo qual o cardeal recebeu a cidadania honorária do país. A influência da Comunidade de Sant’Egidio é tão vasta que Sandro Magister descreve a comunidade como “o mais potente lobby católico do mundo nas últimas décadas, indiscutivelmente”.

Durante seus anos na Comunidade de Sant’Egidio, o cardeal também foi vice-pároco da Basílica de Santa Maria in Trastevere (administrada pela Comunidade de Sant’Egidio) sob a supervisão do arcebispo Vincenzo Paglia, conselheiro espiritual de Sant’Egidio e atualmente presidente da Pontifícia Academia para a Vida e chanceler do Pontifício Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimônio e da Família. O arcebispo Paglia é figura controversa nos círculos vaticanistas por suas ações e declarações polêmicas, muitas vezes em contraste com a doutrina católica. Quando Vincenzo Paglia assumiu a diocese de Terni em 2000, Zuppi foi escolhido para substituí-lo como pároco da Basílica de Santa Maria em Trastevere. O cardeal ocupou diversos outros cargos em Roma até ser nomeado arcebispo de Bolonha em 2015 e cardeal em 2019 sob o título de Sant’Egidio. Hoje o Cardeal Zuppi é também membro do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral e da Administração do Patrimônio da Sé Apostólica.

Embora as inclinações progressistas do Cardeal Matteo Zuppi não sejam um segredo para ninguém (em seu livro, Edward Pentin descreve as “conexões com a esquerda política” do cardeal), seu episcopado em Bolonha é marcado por sua grande habilidade em transitar por todos os ambientes do espectro político. De acordo com alguns analistas, essa “capacidade de unir todas as diferentes almas presentes em sua comunidade” influenciou a escolha dos bispos por um novo presidente. Esse é um atributo comum a todos os membros da Comunidade de Sant’Egidio, que sabe “adaptar-se como um camaleão” a cada pontificado, de acordo com a descrição de Sandro Magister. O Cardeal Zuppi é freqüentador assíduo das assembléias e festas do Partido Democrático Italiano, e seu apoio às causas da esquerda italiana faz com que seu nome esteja continuamente nas manchetes dos jornais. O cardeal já expressou muitas vezes o seu desejo não só de ver uma mesquita construída em Bolonha, como também de ver celebrações islâmicas nas escolas locais. Durante as festividades de São Petrônio, padroeiro de Bolonha, em 2019, a arquidiocese ofereceu ao público uma versão modificada dos tradicionais tortellini bolonheses (um tipo de massa recheada com carne de porco) para que os muçulmanos também fossem “incluídos” nas festividades. Uma receita de mais de 900 anos foi alterada, e de acordo com as fontes da própria arquidiocese, somente três muçulmanos adquiriram os tortellini de frango do Cardeal Zuppi.

Além de suas simpatias ecumênicas, o cardeal Zuppi também escreveu o prefácio da edição italiana do livro Building a Bridge (Construindo uma ponte), do padre jesuíta americano James Martin, famoso por sua defesa do movimento LBGT. O Cardeal Zuppi também foi um dos primeiros a implementar em sua arquidiocese as diretrizes para acompanhamento pastoral de católicos divorciados e recasados civilmente, de acordo com o capítulo VIII da exortação apostólica Amoris Laetitia. As diretrizes permitem efetivamente que casais divorciados e recasados civilmente vivendo more uxorio (como marido e mulher) tenham acesso ao sacramento da Eucaristia, mesmo em situação irregular.

Por outro lado, o Cardeal Matteo Zuppi também insistiu em participar da apresentação em Bolonha do livro A opção beneditina, do autor conservador Rod Dreher, mesmo recebendo duras críticas não só da esquerda política como também da ala progressista da Igreja. Sobre a experiência, Dreher escreveu: “Fui avisado que Zuppi, que é um progressista teológico, decidiu encontrar-me apesar das críticas que recebeu. Sou grato a ele por isso, e embora tenhamos discordâncias significativas, foi muito bom passar um tempo com esse meu irmão cristão”.

O cardeal também autorizou imediatamente a continuação de todas as Missas Tridentinas na arquidiocese de Bolonha após a promulgação do motu proprio Traditiones Custodes, que estabelece que as celebrações das Missas de acordo com o Missal de 1962 devam sempre ser autorizadas pelos bispos locais. Não somente Zuppi autorizou as Missas sem pestanejar, como as costumava celebrar na Basílica de Santa Maria em Trastevere, inclusive celebrando Missas junto à Fraternidade Sacerdotal de São Pedro, cujo carisma está intimamente ligado à forma extraordinária do rito romano.

Certamente os anos passados como mediador diplomático da Comunidade de San’Egidio contribuíram para a sua versatilidade como arcebispo e cardeal, e sua engenhosidade política não deve ser subestimada. A revista católica Tempi descreve-o como um homem de extraordinário talento político, opinião compartilhada pelo vaticanista Matteo Matzuzzi, que prevê que Zuppi levará a Conferência Episcopal Italiana “a resplandecer nas primeiras páginas dos jornais”, após um período de governo morno e sem relevância na vida pública. Matzuzzi também condena a retórica “melosa” dos jornais progressistas, que pintam Zuppi como um cardeal “humilde”, o “padre dos pobres” que “circula por Bolonha em sua bicicleta”. O vaticanista sustenta que tal descrição é injusta “primeiramente com o próprio Zuppi, que não é um Cura D’Ars, não está interessado em canonizações. É um homem que conhece e vive a política, e a prova está em suas relações e conexões mais íntimas. Sua eleição abre um novo capítulo na vida da Igreja italiana”.

O vaticanista Sandro Magister, profundo conhecedor da história da Comunidade de Sant’Egidio, concorda: “Como Assistente Eclesiástico Geral da Comunidade de Sant’Egidio, Zuppi posicionou-se ao centro de uma rede incomparável de pessoas e de eventos, tanto do ponto de vista religioso quanto político, em uma escala planetária”. Há quase um ano, em julho de 2021, Magister publicava suas reflexões acerca de um próximo conclave, concluindo categoricamente sobre o avanço do Cardeal Matteo Zuppi: “De hoje até a sua eleição como Papa, não é certeza que tal previsão realmente se concretize. Isso, porém, parece estar seriamente inserido na ordem das coisas.”

O resultado de um conclave é impossível de prever. Uma coisa, porém, é certa: o Papa Francisco II já está na forja.

 


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