GRUPO TEMPO

Shakespeare Procêis: a alta cultura que o povo merece

Fábio Gonçalves · 18 de Setembro de 2020 às 11:06

Companhia de teatro de Campinas monta espetáculo para popularizar o maior dramaturgo de todos os tempos 

 


 

Shakespeare pro povão

Romeu e Julieta, Otelo, Macbeth, Hamlet, Rei Lear. É difícil achar quem não tenha pelo menos ouvido esses nomes, nomes de personagens e títulos de peças de William Shakespeare, considerado por muitos, e pelos bons, o maior dramaturgo de todos os tempos.

Porém, não obstante a familiaridade com os nomes, é fácil encontrar quem jamais tenha assistido aos dramas e comédias do famoso bardo inglês. Tanto menos lê-los, imaginando-se num palco elisabetano, no meio de reis, princesas, bruxas e batalhas; emaranhando-se em inesquecíveis tramas de amor, ódio, traição, vingança, queda e redenção.

Lembramos dos nomes porque Shakespeare, o gigante, é imortal, imperecível; não mais assistimos a Shakespeare justamente porque ele nos parece grande demais, inalcançável.

E foi ao perceber essa tensão que o Grupo Tempo, uma companhia de teatro de Campinas, São Paulo, criou o espetáculo “Shakespeare Procêis”.

É o que me contou um dos atores da companhia, o Roger Campanhari.

Segundo ele, a ideia do espetáculo é trazer a obra de Shakespeare para perto do cidadão comum, simples, como era nos tempos do bardo. E para isso conceberam engenhosa estratégia: para encenar, fizeram-se de caipiras, matutos, desses de fala irregular e sotaque marcado. Pense-se num Mazzaropi recitando os monólogos de Hamlet.

“Shakespeare Procêis”. O “procêis” é, resta claro, o “para vocês” dito pela boca dum homem do campo, daqueles de prosódia pouco trabalhada. E o “procêis” está no título da peça, explica Roger, justamente para mostrar como aquilo que parece extremamente erudito, elitista, pode caminhar ao par do simplório, do humilde. E isso sem o prejuízo de macular a grandeza da obra, sem menoscabá-la, mas, também, sem afastar, logo de cara, o público para quem a obra foi feita.

E o caráter popular da iniciativa se revela mesmo nos espaços em que, não raro, o espetáculo é representado: CEU’s, SESC’s, praças, museus. Do Globe Theatre para as ruas do Brasil.

 

Formando um público apreciador de arte

Mas a missão do Grupo Tempo não pára aí.

Roger nos revela que uma grande preocupação da companhia é, em certa medida, reeducar o público para a apreciação da obra teatral — não só a de Shakespeare. Isso porque, argumenta o ator, passamos por um momento de sensível desvalorização da arte, ou pelo menos da arte substancial, edificante. A culpa? Sugere ele que seja dos próprios artistas, desses que, nos últimos tempos, se deram a fazer má arte, seja por incompetência, seja para cumprir uma agenda de subversão de valores, de revolução.

Então, para corrigir essas distorções, o grupo promove, além das peças de temáticas elevadas, cursos e palestras sobre a arte poética, puxando de Aristóteles, sobre o drama teatral, sobre simbolismo, sobre espiritualidade.

E nisto o Grupo Tempo segue a tradição do seu criador — o ator, professor e tradutor Roberto Mallet.

Mallet tem 40 anos no ramo teatral, vida devotada à arte. Ele cursou Artes Cênicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e, desde 1987, ministra cursos e oficinas. Mallet teve passagem pelo Curso Livre de Formação de Atores no TUCA, badalado teatro da PUC de São Paulo e, a partir 2002, passou a integrar o corpo docente do Departamento de Artes Cênicas da Unicamp.

Em 1992, quando Campanhari acabara nascer, Mallet criava o Grupo Tempo. Em 2010, seus destinos se cruzaram: o jovem aspirante a ator tomou aulas na universidade campinense com o experiente diretor.

Roger conta que justamente por essas abordagens mais filosóficas, simbólicas e espiritualistas, tal qual a companhia ainda oferece ao seu público, justamente por isso ele teve alguma repulsa pelo professor, o que mais se afastava da ortodoxia acadêmica.

No entanto, a sabedoria do mestre acabou por arrefecer os ímpetos rebeldes do calouro e, dali três anos, Roger mais alguns amigos entraram para o Grupo Tempo, inaugurando nova fase da companhia. 

 

Semana Hamlet

São esses jovens e talentosos atores que interpretam, com muita vivacidade, o Chico, a Rosa, o Bastião, o Osmar, o Robson e a Gilda, os caipiras que saem pelas cidades — e agora pelos sítios virtuais — a declamar trechos de peças e sonetos inteiros de William Shakespeare.

E a turma, seguindo a vocação de promover arte e conhecimento, está realizando a Semana Hamlet, iniciada na segunda, dia 14. Ao longo desses dias, vários artistas e intelectuais ministraram palestras on-line sobre as temáticas suscitadas pela grande obra shakespeariana. Já falaram: Fábio Florence, Rafael Nogueira, Silvio Grimaldo e o próprio Robert Mallet. Hoje, dia 18, falará João Filho. Amanhã, fechamento do projeto, os atores representarão o último episódio do “Hamlet Procêis”, espetáculo em que eles intercalam a narração de episódios da tragédia com a declamação de trechos desta que é a peça mais encenada e citada da história.    

Vejam aqui o primeiro dos dez episódios do “Hamlet Procêis”:

 


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