DIÁRIO DE UM CRONISTA

Senhora da minha vida

Paulo Briguet · 12 de Outubro de 2020 às 13:06

Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, rogai por nós

Tenho aqui na minha mesa de trabalho uma pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida que pertenceu à minha avó. Essa imagem de metal atravessou mais de 50 anos e agora é testemunha de minha vida profissional, feita de alegrias e angústias. A rigor, a alegria é um presente de Deus; consideradas todas as nossas faltas, não teríamos direito a ela. Somos filhos da Queda. Somos o próprio pecado original, como observa Georges Bernanos: “Cada dia me convenço mais de que o que chamamos tristeza, angústia, desespero, como para persuadir-nos de que se trata de certos movimentos da alma, é a própria alma. (...) Não fosse a vigilante piedade de Deus, parece-me, ao primeiro instante em que tivesse consciência de si próprio, o homem retornaria ao pó”.

Duas canções me fazem lembrar Nossa Senhora Aparecida: “Romaria”, de Renato Teixeira, e “Let it be”, de Paul McCartney. Os versos iniciais de “Romaria” são, a meu ver, de uma perfeição lancinante:

É de sonho e de pó,
o destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos
sobre o meu cavalo...


Já “Let it be”, composta quando McCartney ainda estava nos Beatles, começa de forma igualmente bela:

When I find myself in times of trouble
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom: Let it be...

A mãe de Paul McCartney se chamava Mary e morreu muito jovem, quando o músico era adolescente. O ex-beatle conta que teve a inspiração para escrever a música quando Mary lhe apareceu em sonho e disse suavemente: "Let it be". Deixe estar. Mas McCartney não se opõe àqueles que cantam "Let it be" como referência a Maria, Mãe de Jesus. O verdadeiro artista respeita a fé das pessoas.

Não tenho a mínima dúvida de que Nossa Senhora Aparecida ajudou a salvar minha vida. Durante minha longa noite de ateísmo, eu me lembro de Vó Maria rezando no quarto, diante da imagem de sua xará, com um fervor incalculável.

Vó Maria morreu em 2005, mas deixou Aracy, igualmente devota da Padroeira do Brasil. Minha bisavó, a Mãe Mulata, Maria e Aracy menina fizeram romaria até o Santuário de Aparecida, nos anos 50. Até os últimos suspiros minha mãe invocou o nome de sua amada Aparecida, pedindo proteção e amparo aos filhos e netos.

Tenho um amigo poeta que todos os anos faz uma romaria até Aparecida, percorrendo a pé centenas de quilômetros, ao lado do pai e do tio. Um dia, quero fazer essa peregrinação e conhecer de perto os lugares onde estiveram Mãe Mulata, Vó Maria e Aracy. E lá eu poderei cantar em pensamento, aos pés da santa que não foi maculada pelo pecado original:

Sou caipira, Pirapora Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida...

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.


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