POLÊMICA DO OK

Retrato de uma denúncia natimorta

Fábio Gonçalves · 29 de Março de 2021 às 15:27

Nosso repórter-escritor Fábio Gonçalves desmonta, ponto por ponto, a notícia-crime de procurador da República contra Filipe G. Martins 



Wellington Cabral Saraiva, que é procurador regional da República, emitiu uma Notícia-Crime em prejuízo de Filipe Martins, assessor do governo envolvido na inusitada “Polêmica do OK”.

A quem esteja alheio a este debate de rara importância aos destinos da nação, faço um conciso resumo:

Na última sexta-feira, durante uma reunião no Senado Federal, quando da fala de Rodrigo Pacheco, presidente da Casa, Filipe foi flagrado ajeitando sua lapela com o ancestral gesto de pinça, dedão beijando indicador. Consequência nefasta: os outros três dedos, por imperativos anatômicos, acabaram por se assanhar, espichados, e o que era inocente pinça virou um OK eugenista e assassino.

Sim. A nata dos especialistas nacionais se reuniu em nervoso conselho e decidiu que o gesto era nada menos que uma saudação “supremacista branca”, um “Heil, Hitler” mais discreto, psicografado. Para os gringos, “dog whistle”; para os compatriotas, “apito de cão”, sinal sub-reptício e malandro para atiçar determinado grupo político ao qual é dado entender o gestual esotérico.

Como, porém, é muita bandeira pedir cana a um adversário por conta de um único e simples OK, ainda que um OK vistoso e galhardo como o feito por Martins, Saraiva, na linha de investigadores forenses como o Felipe Neto, juntou um punhado de outras manifestações do desditoso assessor, todas elas supostamente corroborando o supremacismo branco do rapaz de Sorocaba, botou tudo no papel e despachou para Brasília, solicitando-lhe a detenção. É esse documento que ora vamos analisar.

Nas onze páginas em que consta a intrincada denúncia, Saraiva elenca quatro atos que, somados ao OK, comprovariam o filonazismo de Martins.

“O noticiado aprecia transmitir simbologias extremistas em diferentes manifestações públicas que realiza”, alega o Procurador.

As simbologias macabras seriam as seguintes:

1. Uma saudação franquista;

2. Um verso de Dylan Thomas;

3. Um adágio latino;

 

Já passamos

O primeiro indício sugerido por Saraiva é a frase espanhola ¡Ya hemos passo! que Filipe usou para cumprimentar o vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente. Na conversa, que foi pública, assessor e político falavam sobre militantes de esquerda, a quem se dirigiam como escória — do mesmo modo como esquerdistas se referem a direitistas; até aqui, zero a zero.

Eis a mensagem de Martins:

“Valeu, irmão! É uma honra fazer parte deste momento e lutar ao lado de gente que está disposta a morrer pelo nosso país e a sacrificar tudo em nome do que é justo e bom. Que a escória continue se mordendo de raiva. ¡Ya hemos pasao!

O distinto e honesto Saraiva apontou isso como indício de crime. Mas, por algum descuido — aposto meu salário que foi descuido —, esqueceu-se de contextualizar o uso do dito espanhol. Faço-lhe esse favor.

Desde que despontou no cenário político, como mera possibilidade, a direita — não a tucanagem, que é esquerda de suéter — tem sido achincalhada como fascista.

Todo mundo é fascista. O Bolsonaro, os anões drags da Luciana Gimenez que eventualmente concordavam com o Bolsonaro, o Nando Moura e o Danilo Gentili que odeiam o Bolsonaro, a Ana Hickmann, o Ronaldinho Gaúcho, o Amado Batista.

A sábia Márcia Tiburi inclusive escreveu dois títulos para cravar que todo mundo que não concorda com a esquerda é fascista: “Como Conversar Com um Fascista” e o “Como Derrotar o Tecnoturbomachonazifascismo” — este último eu não li, confesso; tudo bem, também não li o outro, mas reputo que este, só pelo título, seja um ás da concisão filosófica e da beleza estilística.

Fato é que a esquerda está desde 2013 nas ruas tremulando bandeiras comunistas e berrando, ensaiadinho:

— Fascistas, fascistas, não passarão!

Ora, esse garboso bordão foi inventado na época da Guerra Civil Espanhola pela tal Frente Popular, aglomerado de militantes, partidos e grupos paramilitares de extrema-esquerda bancado por ninguém menos que Josef Stálin, segundo maior genocida de todos os tempos.

A direita ficou por anos ouvindo uma provocação comunista, feita por comunistas confessos, com carteirinha e camiseta, gente que tem até orgulho do Holodomor, dos expurgos, da supressão de liberdade e de todas as maravilhas do stalinismo, pessoal que picha nas paredes da USP e da UFRJ “Stálin matou pouco”. Daí quando ganha as eleições, a despeito do agourento “não passarão”, e, na sacanagem, lança a piada: “Ih, mané, passamos”, pronto: supremacistas brancos!

Por isso estou certo de que Saraiva, num lapso, se esqueceu do contexto.

 

O poema amaldiçoado

Mas acho que ele também se esqueceu do contexto no caso do poema de Dylan Thomas. Seguiu assim o Procurador com sua fina argumentação:

“Outro elemento a demonstrar a plena consciência do noticiado acerca do conteúdo de seu gesto está na convergência de elementos ideológicos que ele escolhe transmitir em sua comunicação, com alguns usados por extremistas. Na fotografia de fundo de seu perfil na rede social Twitter, o noticiado usa uma imagem e o verso-título do poema Do not go gentle into that good night, do poeta DYLAN THOMAS (1914-1953),

Esse verso foi traduzido em português por AUGUSTO DE CAMPOS como “Não vás tão docilmente nessa noite linda”. Embora a poesia, como espécie literária, costume dirigir-se à beleza e ao pacifismo, ela também pode ser (e é) usada com finalidade política e violenta. O poema de DYLAN THOMAS, cujo primeiro verso o noticiado estampa em sua fotografia de perfil, na estética fashwave, foi utilizado pelo mesmo citado militante racista e assassino BRENTON TARRANT, em manifesto que divulgou na internet, denominado “The great replacement” (“A grande substituição”, que alude à suposta substituição da população branca por imigrantes não brancos na Europa), pouco antes de cometer os múltiplos homicídios que perpetrou”.

Dylan Thomas é considerado um dos grandes poetas de língua inglesa do século XX, da mesma prateleira de um T.S. Eliot, segundo o gosto de certos críticos. Do not go gentle into that good night, publicado em 1953, um perfeito villanelle, versos divididos em cinco tercetos e uma quadra, é seu poema mais conhecido — e um dos mais conhecidos da última centúria. Inclusive há uma bela declamação dele próprio, no YouTube. Vejam:



 

Tão famosos são os versos que o roqueiro Iggy Pop o musicou em 2019 — e até onde me consta não teve encrenca com o FBI:

 

 

E tem até versão em música erudita, uma soberba homenagem do compositor russo Igor Stravinsky:
 

 

Há também essa bela declamação do ator Anthony Hopkins: 
 

O poema fala fundamentalmente da morte. Estava a morrer o pai do eu-lírico. Dizem os críticos que Dylan escreveu diante da iminente morte do próprio pai.

“Assim, meu pai, do alto que nos deslinda
Me abençoa ou maldiz. Rogo-te todavia:
Não vás tão docilmente nessa noite linda.
Clama, clama contra o apagar da luz que finda”.

Não fala nada sobre campos de concentração, câmaras de gás ou espaço vital. E, não, Dylan, galês, não era filho do Hitler.

Mas bastou o canalha australiano citar essa belezura no seu manifesto escroto para que os suspicazes e maliciosos passassem a adivinhar em qualquer fã do Dylan — se direitista, evidentemente — potencial assassino em massa.

Entretanto, o que o Dr. Saraiva esqueceu de averiguar — tudo esquecimento, decerto — é se Filipe já gostava do poeta e do poema antes de o facínora Tarrant cometer a atrocidade na Christchurch, na Nova Zelândia.

Marquemos as datas: o atentado que deixou 51 mortos aconteceu em 15 de março de 2019.

Há, no entanto, uma postagem no Facebook de Filipe, de 24 de outubro de 2016, dois anos e meio antes do massacre, citando precisamente o poema de Dylan:

Ele, Filipe, também afirma ter colocado a foto da capa do seu Twitter, com o verso-título do famigerado poema, antes do atentado. Disso não tenho provas. E, pela Notícia-Crime, também não as têm o Detetive Saraiva.

Vale lembrar a resposta que o próprio Filipe dera quando a Folha de São Paulo fez semelhante associação:
 

 

Cícero em Nuremberg   

Mas o Dr. Saraiva seguiu sua diligente argumentação demonstrando que Martins é mesmo um perigo. Com espanto e comoção, revelou ao país que o jovem assessor anda indesculpavelmente espalhando na internet adágios latinos mais velhos que o cristianismo, mais antigos que o Império Romano.

“Outro episódio a mostrar o gosto do noticiado por símbolos políticos ligados a movimentos extremistas foi o uso da frase em latim “Oderint dum metuant” (‘Que odeiem, desde que temam’) em publicação na rede social Twitter em 20 de agosto de 2020. Conquanto a frase seja do poeta romano LÚCIO ÁCIO (170 a.C.-86 a.C.), o grupo neonazista alemão COMBAT 18 (também conhecido como C18 ou 318) apropriou-se dela na década de 1990”.

Como Saraiva bem assinalou, o verso suspeito é de Ácio, poeta e gramático latino do século II a.C. A passagem, diga-se, ganhou celebridade primeiro porque citada pelo grande político e orador romano Marco Túlio Cícero, que mencionou o ditado em seu De Officiis, XXVIII, 97, depois porque tomou-a como lema o imperador doidivanas Calígula, no século I d.C.

Não em sua literalidade, mas na essência do que diz, a frase foi repetida por Maquiavel, no clássico O Príncipe: “É melhor ser temido do que amado”.

Filipe, como bem lembra o Dr. Saraiva adiante, é analista político, dá cursos sobre o assunto, se projetou nas redes sociais falando sobre o tema. Nada mais comum que alguém desse ramo traga no bolso — ou na lapela — um punhado de frases desse jaez.

Ademais, da citação feita no Twitter não se depreende o que motivou Martins a fazê-la. O que se sabe é que ele prometeu — não sei se cumpriu — processar todo aquele que, como o global Guga Chacra, insinuasse ligações entre ele e o grupo neonazista Combat 18:

 

MC Beethoven e a Quinta Quicada da Potranca

A última evidência de que Filipe seja um supremacista branco Saraiva a deu mencionando um artigo do professor Olavo de Carvalho, citado por Martins, em que o filósofo defende a inclusão do negro dentro de uma cultura de valor mais universal, como a do Ocidente, com vistas a escapar dos tribalismos aos quais movimentos racialistas de esquerda — muitos dos quais supremacistas negros — tentam encerrá-lo. A tese, para quem saiba ler, é toda ela antirracista.

“É que aqueles ilustres brasileiros [Aleijadinho, Gonçalves Dias, Machado de Assis, Capistrano de Abreu, Cruz e Sousa e Lima Barreto] não tinham bebido o veneno do establishment acadêmico norte-americano e conservavam seus cérebros em bom estado. Entendiam que suas remotas origens africanas tinham sido neutralizadas pela absorção na cultura ocidental, que sua condição de raça era apenas um fato biológico sem significação cultural por si, que a cultura a que tinham se integrado não era branca, mas universal, que era mais útil e mais honroso para o negro vencer individualmente no quadro da nova cultura mundial do que ficar choramingando coletivamente as saudades de culturas tribais extintas”.

Vou repetir:

“sua condição de raça era apenas um fato biológico sem significação cultural por si”.

Isso é a quintessência do antirracismo. Pensar o contrário é dizer que os elementos genotípicos determinam a psique do sujeito, seu horizonte cognitivo, de modo que não seria só lícito, mas até necessário dividir os seres humanos em raças estanques e mais ou menos incomunicáveis.

E mais:

“a cultura a que tinham se integrado não era branca, mas universal”.

Mais um esquecimento do Dr. Saraiva — que já vou crendo padecer de caduquice.

A cultura ocidental, de que fala o artigo, todo mundo que leu almanaques de História sabe que foi se constituindo ao longo de muitos e muitos séculos por contribuições desde vários níveis dadas pelos mais variegados povos. Faz parte desse legado cultural um alfabeto fenício, uma astrologia babilônica, alguma matemática egípcia, algum tanto de medicina extremo-oriental, mil conhecimentos hindus, ciência e filosofia persa, árabe e mourisca.

Esses saberes todos concorreram para que a dada altura os europeus fossem capazes de produzir o que há de mais sofisticado nas artes, na ciência e na política. Ou alguma tribo africana conseguiu legar ao mundo música que ombreie a Quinta Sinfonia? Ou foram os kogi da Colômbia que descobriram as vacinas e mandaram o homem ao espaço? Ou há instituições democráticas, com direito à Procuradoria Regional da República, entre os sioux da América?

Pergunta fatal: é supremacismo branco constatar essas tremendas obviedades?

Então bato na tecla: o impoluto e honesto Dr. Saraiva, ao redigir a longa Notícia-Crime em desfavor de Filipe Martins, decerto teve um apagão de memória, esqueceu tudo o mais que sabia de filosofia, história, política, cultura geral e Direito, e por isso só conseguiu reunir em argumentos aquilo que o Felipe Neto e mais meia dúzia de prestativos militantes já haviam soltado no Twitter. Aposto meu salário.


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