ENSAIO

Reflexões de um escritor negro brasileiro

Fábio Gonçalves · 20 de Novembro de 2020 às 18:00

Um ensaio de Fábio Gonçalves sobre racismo e preconceito no Brasil

Retrato de Menino, de Arthur Timótheo da Costa (1918)



Se me permite, caro leitor, digo-lhe uma cena corriqueira antes de entrar no assunto que interessa.

Às terças dou aula de português para os lados do metrô Paraíso e chego em casa já na desembocadura da noite.

Pois bem, numa dessas noites desertas, Diadema em sono profundo, desço do ônibus e avanço cismando de que há alguém atrás de mim. Olho por cima dos ombros e, como de costume, não vem ninguém. Ainda assim, via das dúvidas, aperto o passo até a Felipe Camarão, rua com guarita e guardinha com apito e motoca.

Dobro ali, vou subindo a ladeira, vem descendo um carro bacana. Estaciona do meu lado da calçada, em frente a um prédio. Cuido que seja um Uber.

Vai desembarcando uma mulher, bem quando estou a dois metros do automóvel. No que ela me vê, moletom preto, eu mesmo preto, jeans, mochila nas costas, disfarça e recua. Entendo que lhe causara medo. Adoto meu passo mais civilizado, dou leve empertigada e faço cara de paisagem, mirando adiante, como se não visse carro ou mulher. Ultrapasso-os, dissimulando indiferença. Ela desce em carreira e entra atropeladamente no prédio — julgo pela batida do portão.

As pessoas morrem de medo de mim. Falta de tirocínio, evidentemente. À polícia não passo desconfiança, nunca tomo enquadro. Mas os civis, estes se borram de medo. 

Quando venho atrás de uma moça, de um trabalhador, de um casal, sinto-os abruptamente nervosos, ansiosos. Apertam a bolsa, metem no bolso o celular, encomendam a alma. Não todo mundo, mas o grosso. E eu, com muita pena, retardo a caminhada, atravesso a rua, vou por outra viela. Tenho dó de assustar as pessoas.

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Digo tudo isso porque hoje é dia de lamuriar a má sorte da negritude nacional.

Bom, eu mesmo sou um baita sortudo e não vou aqui lamuriar coisíssima nenhuma. O que quero trazer, caro leitor, é uma perspectiva sobre o assunto de quem, em alguma medida, é o próprio assunto.

Já fui vítima de racismo se, e exclusivamente se, por racismo querem dizer preconceito. Sim, há aí alguma confusão de termos, e confusão de termos é um enorme perigo à humanidade. Veja-se que por causa de um filioque cindiu-se a cristandade oriental e ocidental.

Racismo tem a raiz de raça. Portanto, para julgar qualquer coisa em termos racistas é necessário não só conhecer, como chancelar, tomar como adequado o conceito de raça para se referir a seres humanos de aparências distintas.

Ora, sabemos que isso ocorreu num momento muito específico da história — nem antes, nem depois; num momento específico.

Deve ter durado um século a moda de separar os humanos em raças, como fazemos com os pets. O papo surgiu nas empolgadas rodas científicas europeias, em meados do século XIX, e fez, por aquele tempo, a cabeça da intelectualidade, dos artistas, de políticos. Um auê. Porém, moda.

Depois, muito pedagogicamente Hitler mostrou quais eram os efeitos práticos da ladainha, e o mundo se apressou a meter um outro adorno explicativo na cabeça: não são raças, são etnias. E elas não estão em graus diferentes da inexorável progressão humana, como soía dizer. São todas essencialmente iguais. E ponto.

No entanto, é fato que, antes do modismo racista, houve em toda parte gente preconceituosa. Houve antes e depois, e sempre há de haver.

Preconceito quer dizer julgar antecipadamente. Em inglês, o sentido até fica mais claro: prejudice (em que pré é antes, e judice é julgar).

Preconceito é um prejulgamento.

Como bem sabemos, um juiz não pode julgar precipitadamente, sob pena de cometer injustiças.  E é isso o que manda a nossa racionalidade: só firmar sentença sobre qualquer coisa depois de analisá-la friamente, à luz dos fatos.

Veja a briga de nossa mãe para nos enfiar os legumes. Quando a criança tem algum siso, ali pelos cinco, seis anos, olha o chuchu molenga, o quiabo baboso, a beterraba, o jiló, e os recusa com enorme preconceito.

A mãe bota no prato e o menino mexe, remexe, põe para o canto, faz careta. E a mãe ralhando:

— Deixe de ser bobo, moleque! Você nem experimentou!

Somos preconceituosos desde pequenos.

Mais velhos, julgamos mal fulano porque “o santo não bateu”, e torcemos o nariz para sicrano, pois “ah, eu conheço gente que não presta de longe”. Somos preconceituosos com o instrutor de academia gordo demais ou excessivamente magro; somos preconceituosos com o médico que vem nos atender com cara amarela, assoando o nariz; somos preconceituosos com mulher em oficina mecânica e com homem em escolinha primária; somos, em regra, musicalmente preconceituosos, cinematograficamente preconceituosos, literariamente preconceituosos. Nossa balança, no mais das vezes, afunda para um dos lados, em todos os negócios humanos, sem quê, nem por quê.

Outro dia mostrei a um amigo uma epopeia brasileira:

— Cruzes! Não leio nem a pau!

Para ele, Camões é o limite. Preconceito.

Uma vez saíamos de uma aula, eu e uns colegas, quando fomos interpelados por um vendedor de sorvetes. O homem, já se via pelos traços, era imigrante sírio. Todos tivemos suadouro nas mãos, todos sorrimos amarelos, olhamos desconfiados para o isopor. Preconceito.

E os negros não escapamos disso.

O preconceito — não o racismo — dirigido ao negro se deve, em primeiro lugar, a um acidente histórico: os pretos não conseguiram se acertar social e economicamente no país.

Somos, salvo exceções, da classe pobre, da periferia, seja aqui, no Sudeste, onde compomos a minoria, seja no Nordeste, inclusive na Bahia, até na Salvador bastante pretejada.

Tanto a escravidão, mancha indelével na nossa bandeira, quanto a alforria desdenhosa e desordenada selaram o destino de várias gerações de negros desse país, de Norte a Sul.

O negro ficou sendo o semicativo, grudou nele essa pecha.

Daí que se atribua ao negro, preconceituosamente, não uma inferioridade metafísica ou biológica, o que seria racismo, mas uma inferioridade social, o que, para o brasileiro médio, redunda numa inferioridade moral.

Há, no Brasil, uma espécie de correlação inconsciente entre: pobreza-burrice-malvadeza-criminalidade. E, ao revés: riqueza-inteligência-virtude-honestidade.

Quer dizer, há um preconceito generalizado contra o pobre, no estilo Caco Antibes, e, dentre os pobres, o mais pobre, portanto o mais vil e perigoso, é o preto.

O problema é que esse estereótipo é reforçado justamente por aqueles que dizem querer sarar a moléstia.

Na medida em que se heroiciza o preto maloqueiro, o rapper com pinta de bandido, o funkeiro a berrar palavrões e jurar morte aos policiais, os meninos do Jorge Amado, o malandro do Bezerra da Silva, na medida em que se toma esses personagens como símbolos da negritude, reforça-se no imaginário das pessoas que, sim, o preto é o rés-do-chão, é o pária, é o desajustado, é o elemento revolucionário, aquele que não se integrou na sociedade e, portanto, precisa subvertê-la ou destruí-la. E então o preconceito arranja um lastro.

Veja-se que temos dois problemas: um preconceito que se criou decorrente de um fenômeno histórico; e uma agudização desse preconceito por obra de grupos que querem tirar do ódio fratricida louros políticos.  

Como remediar? Não tenho ideia. Mas sei que o que estão tentando passar por remédio é veneno.

Pois que: se dissermos que o Brasil é um país racista, mentiremos; se negarmos que é altamente preconceituoso, seremos levianos. Mas, se transformarmos esse fato em luta política revolucionária, só alcançaremos a autodestruição.

Por outro lado, há de se notar que o nosso preconceito é tropical, é moleirão, é paixão fugaz, é cordial.

Somos essencialmente miscigenados, étnica e socialmente, e desse dado depreendemos que cedo nosso preconceito se dilui em tesão ou em camaradagem. Acaba-se na cama ou na mesa do bar, na arquibancada do futebol, aos abraços.

A primeira coisa que não somos é segregacionistas. Somos é muito dos misturacionistas.

Note, caro leitor, que mesmo com os desconhecidos se cagando de medo de mim na rua, meus melhores amigos, meu compadre, minha comadre, minha esposa e meu filho são brancos.

Aliás, sempre que chego tarde da noite depois de arrastar o passo pra evitar pôr em pânico uma mocinha solitária no breu diademense — que teme por preconceito —, sou recebido com beijinhos e abraços pela minha branquela, que me deu um moleque brancarrão. Meus maiores amores.


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