TRATAMENTO PRECOCE

Randolfe Rodrigues, o negacionista

Vinicius Sales · 23 de Maio de 2021 às 16:32

Antes da CPI, o senador Randolfe Rodrigues chegou a propor condecoração a médicos que desenvolveram tratamento precoce à base de hidroxicloroquina e ivermectina

Quem tem assistido à CPI da Covid-19 já percebeu que o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o autor do requerimento para instalar a Comissão Parlamentar de Inquérito, tem mantido uma postura radicalmente contrária ao tratamento precoce. O parlamentar tem feito coro às críticas contra o presidente Jair Bolsonaro por defender medicamentos "sem eficácia comprovada" contra a doença. O próprio Randolfe, no entanto, já derramou elogios e homenagens a uma equipe médica do seu estado que defende o uso da hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina no tratamento da covid-19.

Em uma live para o Facebook, no dia 9 de julho de 2020, o senador destacou o trabalho feito pelos profissionais de saúde.

“Eles são responsáveis pelo protocolo médico utilizado, em especial, pela prefeitura de Macapá. E que foi (sic) responsável por esse protocolo por impedir que muitas mais mortes ocorressem no Amapá. Os três são, me permitam assim dizer, os três colocados são uma heroína e dois heróis amapaenses pelo o que eles já fizeram pela saúde do Amapá e pela atuação deles nessa pandemia. Eu já quero anunciar nesta live que estarei propondo no Congresso Nacional a entrega de comendas aos três por tudo o que fizeram para evitar a perda de vidas”, afirmou Randolfe.

Os três médicos elogiados são a cardiologista Dra. Ana Chucre; o Dr. Pedromar Valadares, médico da Defesa Civil e especialista em endoscopia digestiva; e o Dr. Patrício Almeida, epidemiologista. Todos os três integram o Comitê Médico de Enfrentamento à Covid-19 e são responsáveis pelo protocolo médico usado no Amapá que prevê o uso de medicamentos hoje condenados por Randolfe.

A recomendação por parte dos médicos não é nova. Em entrevista à rádio Diário 90,9FM, no dia 20 de maio de 2020, ainda no início da pandemia, a doutora Ana Chucre defendeu o uso de hidroxicloroquina contra a covid-19.

“A hidroxicloroquina tem mais segurança que a cloroquina, tem menos efeitos colaterais. Ambas atuam igualmente, porém, uma com concentração menor, de 50mg, e já a cloroquina tem 400mg. Isso é o que faz a diferença, mas a ação é a mesma, só que, como toda medicação, uma manifesta sintomas mais relevantes e outra, menos. A gente pede pra fazer administração dessas medicações após as refeições, já que o maior sintoma delas é digestivo. Outra coisa importante é falar sobre o QT Longo, que é o alargamento no eletrocardiograma que pode predispor a uma arritmia”, afirmou Ana.

Alguns dias antes, em 15 de maio de 2020, o Centro Médico de Enfrentamento à Covid, de Macapá (capital do Amapá), publicou um documento que estipulava diretrizes para o tratamento precoce. “Iniciar medidas terapêuticas proposta pelo comitê médico: difosfato de cloroquina ou hidroxicloroquina ou ivermectina ou nitazoxanida, associados a azitromicina e/ou amoxiciclina + clavulanato”, diz trecho.

Em janeiro deste ano, a Prefeitura anunciou a adoção do protocolo preventivo para combater o covid-19. A gestão inclusive citou a cidade de Porto Feliz, em São Paulo, como exemplo.

“A Prefeitura de Macapá deve instituir dentro dos próximos 15 dias o protocolo preventivo de saúde contra o novo coronavírus. O esquema é um exemplo de sucesso da cidade de Porto Feliz (SP), que apresenta a profilaxia como principal medida de combate”, afirma a prefeitura.

Na mesma nota, o prefeito Antônio Furlan (Cidadania) falou sobre a preparação para a implementação do protocolo.

“Por ser um protocolo mais abrangente, existe a possibilidade de fazermos o bloqueio de determinadas regiões. Por exemplo, vamos pegar três bairros da zona sul, com apoio da equipe Estratégia Saúde da Família, entregar a profilaxia e começar a controlar o avanço do vírus. Estamos providenciando a ampliação da compra desses medicamentos”, finalizou o prefeito.

Contradição

No último dia 26 de abril, Randolfe publicou em seu Twitter supostas práticas criminosas cometidas pelo governo federal. Dentre elas, o incentivo ao tratamento precoce.

“4 – O governo promoveu tratamento precoce sem evidências científicas comprovadas”.

No dia 17 de abril, ele foi questionado pelo jornal “O Vale” se investigar estados e municípios pode atrapalhar CPI da Covid. Em resposta, Randolfe defende que estados e municípios que usaram o tratamento precoce devem ser investigados.

“Não vejo problema. Acho que naturalmente o primeiro escopo ia ser o Amazonas. É importante saber quem foi responsável por incentivar as aglomerações lá, que levaram ao surgimento de nova cepa. Qual foi a ação do governo estadual e federal, se teve apoio do governo federal quando colapsou. Estados e municípios que optaram por distribuir kit covid com tratamento precoce sem comprovação científica”, afirmou o senador.

Mas poucos dias antes da instalação da CPI da Covid-19, no dia 8 de abril, o senador voltou a elogiar o trabalho feito pelo médico Dr. Pedromar pelo seu trabalho contra a pandemia do coronavírus. No vídeo, o médico destaca a importância do tratamento precoce e seu uso “off-label”.

“Pessoal, o que fazer em caso de sintomas de Covid-19? O Dr PedroMar explica nesse vídeo. Assista!”, disse Randolfe na publicação em que compartilha o vídeo em suas redes sociais.

“Olá, sou Pedromar Valadares, coronel Bombeiro Militar, oficial médico e assessor técnico de saúde da Defesa Civil do Estado do Amapá. Apresentou qualquer sintoma, primeira coisa é considerar que é covid. Procure atendimento médico imediato. O diagnóstico inicial é clínico, esqueça a obrigação de confirmação de exames para iniciar tratamento ou buscar atendimento médico. Isso é uma armadilha maior ainda que estamos enfrentando. Cada 24, 48, 72 horas, não dias, sem o tratamento, sem o acompanhamento, sem o seguimento adequado, sem o tratamento que a gente não fala mais precoce, mas sim imediato – para tentar frear a locomotiva – maior risco dela descarrilar na frente. Então tempo, mais do que nunca, é vida. Procure atendimento médico e principalmente: se isole”, afirma o médico em trecho do vídeo.

A reportagem procurou o senador sobre suas declarações e aguarda respostas. 


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